O
problema da língua nas Relações Internacionais: uma leitura
neogramsciana
Por Sandro Almeida Santos
INTRODUÇÃO
As
relações internacionais, em suas várias facetas, requerem a
utilização de um mecanismo de comunicação que seja comum
entre as partes. É grande, portanto, a importância de uma língua
internacional, ou seja, uma forma de manifestação de
pensamento que possibilite o entendimento entre diplomatas,
empresários, turistas e acadêmicos.
A
contemporaneidade assiste à predominância do inglês como língua
privilegiada. Mas os estudiosos em lingüística afirmam que não
há um critério técnico razoável para o estabelecimento do
inglês como língua franca internacional. Se não existe um
critério técnico, devemos, portanto, procurar quais são os
mecanismos políticos e econômicos subjacentes à questão da
dominação lingüística e como se ordenam tais mecanismos no
sentido de promoverem a língua inglesa pelo mundo.
O inglês acompanhou, em expansão, os processos de
internacionalização do comércio e da produção, por estar
diretamente associada a poderoso centro capitalista. A educação
exerce importante função na consolidação de hegemonias,
pois é através dela que valores peculiares são
universalizados.
A
proficiência no idioma tornou-se condição necessária para
a participação no comércio internacional ou mesmo para ter
acesso ao conhecimento científico que, atualmente, é
produzido majoritariamente nesta língua. Tal fato gera
demandas internas, por parte de grupos influentes nas
economias nacionais, que dão contornos tanto ao cotidiano das
pessoas quanto às políticas estatais. Pressões internas
estas que, somadas às iniciativas das ricas sociedades e
poderosos Estados anglófonos em promover a sua língua mãe,
garantem o status dominante da língua inglesa nas relações
internacionais.
Apresentamos,
aqui, como pano de fundo para a discussão sobre a predominância
de uma língua em detrimento de outras, a discussão sobre
dominação cultural. Conhecer o debate mais amplo das relações
culturais internacionais é importante para que a compreensão
do fenômeno da dominação lingüística fique clara.
DA DOMINAÇÃO
CULTURAL
A
dimensão cultural das relações internacionais (RI) ganhou
destaque nas últimas décadas. As RI, antes entendidas como
fenômeno fruto exclusivo das relações econômicas e políticas
entre as nações, a partir da década de 1960 passaram a ser
entendidas, também, como fenômeno de interação entre as
diversas formas de manifestação cultural existentes no
planeta. Mais do que um elemento secundário, a cultura é
identificada como função motivadora de comportamentos políticos
e econômicos, e, por isto, merecedora de atenção especial
dos estudiosos das RI contemporâneas.
O
senador estadunidense J. William Fulbright já afirmava, em
1964, prefaciando o livro de Philip Coombs, que a maneira como
uma sociedade comunica seus valores às outras é um fator de
maior influência, na nova conjuntura internacional, do que a
superioridade militar ou a capacidade de barganha diplomática.
Joseph
Nye argumenta que o avanço exponencial das tecnologias de
comunicação nas últimas décadas provocou uma revolução
na forma como a informação é difundida e utilizada. Informação
é um mecanismo de poder. A forma como uma cultura é
propagada tem um papel importante na conformação de poder
nas relações internacionais contemporâneas.
Nye
observa a existência de um poder brando nas RI. Este é o
poder de sedução que um Estado e sua cultura exercem sobre
os demais povos. Os produtos culturais não são seu único
componente, mas são de grande importância. Um Estado e uma
sociedade devem manter uma boa imagem junto a seus pares,
garantindo assim respeitabilidade na sociedade internacional.
J.M.
Mitchell, ex-funcionário do British
Council (órgão de política cultural externa da
Inglaterra), trouxe grande contribuição a esta temática.
Segundo ele, a dimensão cultural das RI engloba dois
componentes, a saber: a diplomacia cultural e as relações
culturais.
A
primeira corresponde às iniciativas estatais concernentes à
difusão de sua cultura para outros povos. Está diretamente
relacionada com o aparelho governamental e sua política
exterior assentada em interesses políticos e econômicos. A
diplomacia cultural tem função de exportadora de influência.
Ela é ferramenta de apoio à política externa dos Estados.
As políticas culturais externas visam à conquista da mente
da população estrangeira bem como a difusão de um estilo de
vida particular, criando vínculos entre as nações e
facilitando as relações econômicas e políticas. Este
entendimento é importante para a compreensão do que vem a
ser dominação cultural.
Cientistas
políticos como Philip Coombs e Frank Ninkovich apresentam os
aspectos da diplomacia cultural presentes na política externa
americana. A exportação de sua cultura foi uma ferramenta
bastante utilizada pelos norte-americanos para afirmação de
sua influência nas relações internacionais.
Não é, contudo, objetivo deste artigo, apresentar
estas políticas, mas é preciso deixar claro que a diplomacia
cultural exerceu papel importante no apoio à difusão do padrão
cultural estadunidense.
A
segunda categoria, a das relações culturais, compreende as
interações entre as distintas sociedades no campo cultural.
Estas relações podem ser facilitadas pela diplomacia
cultural, mas não existe uma conexão necessária. As relações
culturais, segundo Mitchell, são caracterizadas pela
mutualidade e cooperação.
Uma
interjeição deve ser feita neste ponto, pois creio que não
seja possível definir uma natureza das relações culturais a
priori. Cada agente, seja ele governamental ou não, tem
seus interesses específicos, que podem visar à cooperação
ou não. Logo, trataremos aqui as relações culturais como a
totalidade das interações entre as sociedades no campo da
cultura sem pré-conceito sobre sua natureza, seja ela
cooperativa, competitiva, ou assentada em quaisquer outros
interesses.
As
relações culturais conformam uma ampla variedade de
atividades, como apresentado por Mitchell:
“Cultural
relations [...] comprises the arts, libraries and information
services, literature, language teaching, science and
technology, social structure, the exchange of persons, links
between communities and institutions, and educational aid and
training in the developing world.”
No
tocante a essa variedade de interações culturais existentes,
temos que o avanço das comunicações ampliou as
possibilidades de contatos e multiplicou a capacidade de ação
da sociedade civil de forma global. E são justamente as ações
não-governamentais (apoiadas ou não pelo Estado) que
garantiram, majoritariamente, a forte presença da cultura
estadunidense nos quatro cantos do planeta.
A
dimensão cultural das RI diz respeito à conformação de
padrões culturais, à disseminação de valores, estilos e
sistemas simbólicos sob a forma de políticas culturais específicas
que têm suas origens nas máquinas governamentais e/ou mesmo
no seio da sociedade civil. Essas políticas resultam em
interpenetração cultural, que é um fenômeno datado da
origem da cultura ocidental, fruto da miscigenação cultural
entre as tradições gregas, romanas e “bárbaras”. A
brasileira Mônica Herz, baseada na complexidade das formas de
manifestações dessas relações culturais, argumenta que a
postura internacional das nações deve ser estudada a partir
de uma compreensão abrangente dos padrões culturais que as
norteiam.
A
discussão sobre os processos de disseminação e interpenetração
de culturas é polêmica. Há aqueles que acreditam na existência
de uma cultura globalizada despolitizada; existem aqueles que
enxergam, neste processo de formação de uma cultura global,
os maniqueísmos do centro de poder mundial; e existem, ainda,
aqueles que percebem esta cultura global como um processo de
formação de consenso, constituído pela difusão dos valores
de um centro de poder mundial, recebidos e assimilados de
forma peculiar pela periferia do sistema.
As
relações culturais internacionais possuem um caráter estratégico,
constituindo forma de dominação.
Daí surge o conceito de Imperialismo Cultural. Sendo
abordado de várias formas distintas, John Tomlinson alerta
que este conceito deve ser interpretado conforme o contexto em
que é empregado e, principalmente, conforme o discurso de
quem o invoca para criticar o status das relações de dominação
cultural.
Tomlinson
demonstra em seus estudos que existem quatro discursos
principais que invocam críticas à dominação cultural. Um
centrado no imperialismo da mídia, um centrado na noção de
nacionalidade, um voltado à crítica do capitalismo global e
outro voltado à modernidade como um todo. Ele critica as visões
que concentram o imperialismo cultural como domínio exclusivo
das comunicações, da nacionalidade, ou do capitalismo
global. Para ele, o imperialismo cultural é uma forma de
dominação existente na modernidade, e a esta concepção
apresentaremos nossas críticas adiante.
Consideramos
pertinente apresentar a evolução histórica do conceito nas
RI. O teórico clássico
das RI, Hans Morgenthau, definiu, na década de 40,
imperialismo cultural como a conquista das mentes dos homens
que prepara o terreno para posterior conquista militar e
penetração econômica. O raciocínio de Morgenthau é
simples: aquele que controla o pensamento de outrem poupa em
utilização da força necessária para subjugá-lo à sua
vontade.
Voltando
um pouco mais na história, temos o surgimento do termo
imperialismo. Primeiramente, é preciso distinguir
imperialismo de Império. Império é um conceito que expressa
expansividade política, está ligado à territorialidade. Um
império era uma organização social que se estendia por
vasta dimensão geográfica. Imperialismo, por sua vez, foi um
conceito criado pós-revolução industrial. Exprime a dominação
econômica. O imperialismo representa a competição entre os
Estados-nação. Estes, não podendo construir impérios políticos
uns sobre os outros, passaram a concorrer pela dominação
econômica.
Tomlinson
pondera sobre a complexidade do conceito sustentado em dois
conceitos por si só complexos: imperialismo e cultura. Em
termos gerais, objetivando evitar delongas nesta discussão
conceitual, imperialismo pode ser entendido como a existência
de uma forma de dominação no mundo moderno e cultura como as
totalidades das práticas através das quais as coletividades
dão sentido às suas vidas. Assim, o evocar do imperialismo
cultural pode ser compreendido como protesto à dominação de
uma forma peculiar de interpretar o mundo sobre as outras.
Segundo
Renato Ortiz, o termo imperialismo cultural ganhou força após
a II Guerra Mundial, com as manifestações político-intelectuais
antiimperialistas do 3º mundo e com os estudos sobre os fenômenos
da comunicação em massa. Na América Latina, onde a emergência
de uma sociedade urbano-industrial foi tardia, a modernidade
é vista com algo fora de lugar. A questão da identidade
nacional e do desenvolvimento da nação foram elementos que
caracterizaram a busca pela construção de uma nação autônoma
em termos econômicos, políticos e culturais. A influencia
econômica, política e ideológica dos EUA nos países
latino-americanos é um entrave à definição de uma
identidade nacional autônoma, situação que opera como
combustível da luta antiimperialista.
Em
termos gramscianos, pode-se dizer que a América Latina é um
caso típico de revolução passiva. Isto é, sociedades não
transformadas por completo, nas quais a burguesia industrial não
obteve hegemonia. A revolução passiva ocorre quando nem o
lado revolucionário nem o lado conservador têm capacidade de
triunfar. Então, pequenas modificações na estrutura são
introduzidas sem que haja mobilização popular. Uma vez não
havendo um grupo hegemônico interno, há um vácuo de liderança
ideológica, facilmente preenchido por uma hegemonia externa
em processo de expansão.
Assim
sendo, o empecilho à definição de identidades na América
Latina em processo de industrialização é a marcante presença
da cultura estadunidense no cotidiano desses povos. A
hegemonia norte-americana exportou sua forma de pensar e seus
modos de organização social para o sul do continente. De
acordo com Armand Mattelart esta expansão foi possibilitada
pelo surgimento dos mecanismos de comunicação em massa, que
conectaram as diferentes realidades de diferentes locais sob
um mesmo padrão de difusão da informação, controlado
majoritariamente por grandes companhias daquele país.
A
sociedade norte-americana aproveitou-se de sua vantagem como
pioneira no acesso aos veículos de comunicação de massa
para expandir sua cultura de forma sem precedentes. O
imperialismo cultural é um fenômeno da comunicação de
massa e, por isto, só é conhecido protagonizado pelos EUA. Não
é imperialismo de competição monopolista, mas imperialismo
da expansão sem concorrentes da cultura americana embebida de
um pretenso universalismo.
A
americanização do mundo é divulgada como sinônimo de
liberdade e democracia; havendo a consideração apologética
de que a cultura dos EUA é superior às demais em virtude de
seus avanços tecnológicos. Para os que defendem esta idéia
de superioridade, a indústria cultural concebida em solo
estadunidense deveria ser recebida como avanço da humanidade
pelos demais povos.
Este
“americanismo” sustenta-se nas mesmas bases do
imperialismo cultural, mas estes conceitos expressam
posicionamentos ideológicos antagônicos. De um lado, os que
acreditam no mito do destino do EUA em promover e difundir os
ideais democráticos e de liberdade pelo mundo. Difusão esta
amparada na exportação de produtos culturais estadunidenses,
representando a pedagogia do american
way of life para todo o planeta. De outro lado, a idéia
de imperialismo cultural que vê na divulgação desses
costumes americanos uma forma de alienação das outras
culturas. Economia, política e cultura são partes de um
processo integrado de exercício de poder.
Pode-se
dizer que americanismo e imperialismo são duas leituras de um
mesmo processo: a expansão do modelo de produção americano,
acompanhada da difusão cultural. Neste processo os avanços
tecnológicos são associados aos interesses comerciais, políticos
e culturais. A
expansão das posições militares e presença da influencia
política dos EUA foi acompanhada pela internacionalização
da produção industrial e exportação de produtos culturais
via mecanismos de comunicação de massa. O novo modo de
interpretar o mundo acompanhou a expansão política e econômica.
Ortiz
argumenta que é o estilo de vida da sociedade de consumo que
cria cultura mundializada. Símbolos e padrões de
comportamento são compartilhados e fazem parte de um imaginário
mundializado. O que Ortiz não responde é de onde surgiu este
estilo de vida e como se espalhou; ele descarta a hipótese de
difusão cultural sem apresentar outra.
Como
bem defendido por Tomlinson, conhecer as idéias de quem fala
sobre imperialismo cultural é importante para tecer compreensão
sobre o significado do conceito. É natural, como demonstrado
por Ortiz, que os países do chamado 3º mundo utilizassem
este conceito como forma de criticar o passado de dominação
política que sofreram e o presente de subordinação econômica
que os caracteriza.
Em
sua crítica aos discursos de imperialismo cultural, Tomlinson
aponta para a tendência de redução das relações culturais
à comercialização de produtos culturais, através do
imperialismo da mídia e também critica a visão extremamente
economicista dos neo-marxistas que concebem o capitalismo como
um sistema desvinculado da ação política dos Estados. Acreditamos
que ele está correto em sua análise, porém Tomlinson
esquece de apresentar uma visão completa de imperialismo
cultural ou dominação cultural que seja capaz de conjugar as
dimensões da dominação da mídia, da influencia da
nacionalidade e da própria estrutura de dominação do
capitalismo global.
Em
seus escritos, apresenta a crítica à modernidade como a mais
completa forma de discurso de questionamento ao imperialismo
cultural. Para ele, modernidade compreende o capitalismo,
urbanização, comunicação de massa, sistema de Estados-nação
e individualismo. Mas, como Ortiz, ele não se dá o trabalho
de procurar a origem dessa tal modernidade.
Devemos
aqui salientar que, segundo Benno Teshcke,
a urbanização, o individualismo e a constituição do
sistema de Estados nacionais são transformações sociais
exigidas pelo próprio capitalismo, e que o desenvolvimento da
comunicação de massa, como apresentado por Mattelart, é um
fenômeno da evolução capitalista.
Não
queremos reduzir a análise da dominação cultural ao
capitalismo como vilão. Buscando, assim, uma análise que
compreenda a dominação cultural (conceito preferível a
imperialismo cultural) como fenômeno da mídia, da influencia
das nações e também das relações de produção
capitalistas, aderimos ao pensamento neogramsciano nas relações
internacionais.
Os
estudos de Gramsci dão grande relevância à relação entre
a sociedade e sua expressão institucional mais latente, o
Estado. O Estado é, para ele, um conjunto complexo composto pelas várias
relações de forças existentes na sociedade. A forma de
Estado na qual um povo se organiza é reflexo de suas relações
sociais de produção.
A
política é o núcleo central do arcabouço metodológico de
Gramsci, é ela que fornece sentido e articula todas as
investigações históricas e reflexões filosóficas do
revolucionário italiano. Partindo da análise política das
relações sociais, é destacado como elemento primário desta
relação a existência de governantes e governados,
dominantes e dominados. A preocupação concernente a isto é,
então, compreender fenômenos tais como os mecanismos de
governo e o porquê da obediência, ou seja, compreender como
são articuladas as forças sociais que participam do jogo político.
Mônica
Herz invoca os conceitos gramscianos de hegemonia e sociedade
civil para tecer uma forma de compreensão dos padrões de
decisão e comportamento, bem como da construção do consenso
coletivo.
“Ao introduzir a perspectiva de Gramsci
lembramos o caráter social e público da cultura, que nos
permite captar a conformação do homem coletivo a partir das
relações de dominação.”
É
importante detectar o papel dos agentes privados e estatais no
processo de hegemonia do capital e a conformação do que ela
chama de projetos culturais.
Projetos culturais estes que estão relacionadas a
sociedades nacionais, capazes de transcender os limites do
Estado-nacional e serem colocados em práticas não só por
Estados, mas também por agências internacionais. Os projetos
culturais são ações no campo econômico, social e militar.
Como
apresentados por Mônica Herz, os projetos culturais são
projetos nos quais tanto Estado quanto sociedade civil,
embebidos por um espírito de “interesse nacional”, agem
no sentido de difusão de sua cultura nacional. O
desdobramento da ação eficaz desses projetos culturais é a
conquista da hegemonia no campo cultural.
Hegemonia,
para Gramsci, é uma situação na qual um grupo social,
consciente e uno historicamente, exerce domínio não somente
através da coerção, mas também e principalmente pela difusão
de sua visão de mundo, sua moral, filosofia e costumes. Isto
é dizer que a hegemonia é exercida através do
desenvolvimento de um senso comum capaz de abranger toda uma
sociedade, e que favorece o reconhecimento da liderança de
uma classe sobre as outras.
A
hegemonia é sempre alcançada pelo entendimento consensual,
quando uma classe dominante espalha sua imediata consciência
e universaliza suas normas e valores, estabelecendo harmonia
entre o grupo dominante e os subordinados. Em uma situação
de hegemonia, o grupo subordinado passa a admirar e reproduzir
à sua forma as práticas e criações culturais do grupo
dominante.
A
hegemonia é exercida pelas práticas da sociedade civil. A
construção da hegemonia ocorre quando a classe dominante
transcende seus interesses particulares e é capaz de entrar
em acordo e coerência com diversas aspirações e interesses
generalizados, criando expectativas nas demais classes
sociais.
Internacionalmente, a hegemonia é exercida pela difusão de
valores emanados de uma sociedade a outras, criando consenso,
conectando-as e formando uma sociedade civil internacional que
compartilha valores e práticas.
A
sociedade civil internacional ou global encontra uma forma de
expressão no mercado global e sua série de mercados locais
conectados sob o interesse da hegemonia do capital. Fazem
parte do conjunto da sociedade civil internacional as agências
econômicas de Organizações Internacionais, Câmaras de Comércio,
Organização Internacional do Trabalho, empresas
transnacionais, investidores e outros partícipes do mapa-múndi
econômico; mas também fazem parte redes cívicas e
religiosas, uniões ambientalistas, organizações feministas
e outras tantas formas de associação e manifestação de
interesses que buscam desenvolver uma moral comum e horizontes
políticos conectados que não são constrangidos pelos
imperativos da competitividade de mercado.
A sociedade civil compreende atores que trabalham no
sentido de promoção ideológica e prática do consenso
capitalista internacional bem como atores contestadores e
fomentadores de uma ordem alternativa.
A
dominação cultural deve ser assim, interpretada como fruto
da expansão do modelo de relações sociais de produção
capitalistas. A classe capitalista consolidou e difundiu seu
modelo de produção internacionalmente; concomitantemente à
expansão da forma de organização econômica, foram
difundidos padrões de vida e costumes peculiares à sua
cultura. O capitalismo consolida-se hegemônico
internacionalmente por sua capacidade de oferecer às populações
nas quais penetra culturalmente expectativas de liberdade e
possibilidade de ascensão social segundo critérios meritocráticos,
exercendo assim grande poder de sedução.
Retomando
o debate sobre imperialismo cultural, temos a visão de
Herbert Schiller, que se aproxima bastante da idéia de dominação
cultural de tipo hegemônica e não por imposição.
“[Imperialismo cultural é] a soma dos
processos através dos quais uma sociedade é trazida para o
moderno sistema mundial e pelos quais sua classe dominante é
atraída, pressionada, forçada, e muitas vezes subornada a
reorganizar as instituições sociais de forma a corresponder
aos, ou mesmo promover os, valores e estruturas do centro
dominante do sistema.”( tradução própria)
Schiller
apresenta as multinacionais como principais agentes da dominação
cultural hodierna. Os grandes conglomerados de capital dominam
o mercado global de produção e distribuição de bens e
serviços; bem como dominam a produção e disseminação de
informação e produtos culturais. Para alcançar seus
objetivos de mercado, as multinacionais buscam influenciar, e
se possível dominar, os espaços culturais e de informação
que as separa do total controle do ambiente global.
A
penetração cultural não pode ser medida por elementos
puramente econômicos, uma vez que afeta as instituições
sociais da área receptora. Ele argumenta que a própria
expansão dos negócios das empresas carrega consigo um
elemento de influencia cultural. Ao instalar sua base de produção
ou comercialização, a multinacional implanta no local a sua
cultura de negócios.
A
internacionalização da produção tem como resultado uma
apropriação cultural das sociedades penetradas pelos negócios
multinacionais. Uma vez absorvida pelo sistema, a sociedade
receptora deve adequar suas instituições ao padrão
internacional. Deve ajustar seu modo de produção, política
de pagamentos, capacitação da força de trabalho, conceito
de eficiência, método de investimentos e prioridades de política
econômica, sob pena de não participar dos negócios globais
caso assim não proceda.
Os
sistemas educacionais são todos moldados pelos imperativos de
mercado. Tanto no centro como na periferia, a educação é
voltada para a formação de gerentes, administradores e
trabalhadores qualificados para as corporações
multinacionais e para a burocracia estatal. As agências
estadunidenses de fomento ao desenvolvimento têm papel
fundamental neste processo. Uma de suas tarefas prioritárias
é organizar escolas e instituições de educação assentados
no modelo norte-americano de ensino. As escolas de negócios
dos EUA também protagonizaram a expansão do modelo de ensino
voltado para o mercado internacional. Trabalhadores,
empreendedores e futuros funcionários governamentais são
treinados e têm suas capacidades moldadas segundo as
necessidades das multinacionais e do mercado global.
A
era da mercantilização, para usar um termo empregado por
Armand Mattelart em seu discurso no Fórum Social Mundial de
2003, vincula todas as áreas de atividade humana às
necessidades do mercado internacionalizado. No campo da
pesquisa científica, por exemplo, áreas vinculadas ao lucro
das empresas e aos interesses dos centros da economia mundial
recebem grandes investimentos, enquanto outras áreas são
deixadas de lado. Na periferia, os pesquisadores são
confinados ao mercado científico internacional, incorporam
modelos teóricos e linguagem acadêmica oriundos dos centros
e orientam seu pensamento pelas demandas da comunidade científica
dos países centrais. Muitas vezes as necessidades das populações
são transformadas em objetivos secundários, pois os
pesquisadores são atraídos pelos recursos prometidos nos
centros para investigações que em nada tem ligação com seu
país de origem.
A
homogeneização cultural e ideológica do mundo não é
perseguida por uma única nação, mas por um sistema
integrado de diferentes setores nacionais comprometidos com
uma forma de organização social específica. A dependência
cultural é, sobretudo, uma opção das elites dos países
periféricos. A economia de mercado foi capaz de adequar as
relações econômicas, políticas e culturais aos interesses
do capital de forma a transparecer que sua ordem é apolítica,
sem controle e não suscetível à manipulação individual.
Retornando
ao conceito de hegemonia em Gramsci, e sua interpretação
internacional, podemos argumentar, através do pensamento de
Schiller, que as relações culturais internacionais expressam
uma relação de dominação entre os que ganham mais com o
mercado internacionalizado e aqueles que aferem menos louros
dessa tão aclamada modernidade. Os últimos, dominados,
buscam se adaptar ao padrão hegemônico visando ganhos.
Hegemonia,
em termos coxianos, é uma forma na qual a dominação é
obscurecida pela conquista de uma aparente naturalidade. Ela
é uma coerência internalizada por todos os grupos que surge
a partir de uma ordem difundida pelo grupo dominante, mas que
foi transformada em uma realidade constituída
intersubjetivamente (compartilhada por todos os grupos).
Importante
notar, conforme analisa Nye, que a cultura americana é
caracterizada por uma grande abertura, se comparada às
tradicionais culturas européias e asiáticas. Em virtude
dessa abertura, desfruta de uma grande capacidade de penetração
nas demais que se abrem facilmente para ela. Os
norte-americanos difundem com sucesso seus ideais de liberdade
e pluralismo, gerando grande atratividade junto ao público
internacional.
A
penetração cultural do modo de vida capitalista nas
sociedades é uma expressão de hegemonia do capital,
consolidada em solo estadunidense e expandida pelo globo
terrestre. A classe capitalista norte-americana soube
compartilhar ganhos com as classes dominantes de outros países
e ampliar, assim, sua influência sobre os rumos da ordem
mundial.
DA DOMINAÇÃO LINGUÍSTICA
Um
dos aspectos englobados pela discussão da dominação
cultural, é a dominação lingüística. A língua, como
elemento cultural, exerce importante papel na formação das
identidades. Muito mais do que um simples código de palavras
utilizado como ferramenta de comunicação entre as pessoas, o
idioma representa um modo específico de interpretar o mundo.
As evoluções das diferentes formas lingüísticas
acompanharam a evolução de suas respectivas civilizações e
o fenômeno da internacionalização de uma língua não pode
ser entendido isoladamente dos fenômenos políticos e econômicos
que a sustentam.
Entende-se
por língua internacional, no meio acadêmico do estudo da
lingüística, aquela utilizada por pessoas de diversas
origens para comunicarem entre si. Nas RI contemporâneas,
testemunhamos a proeminência de algumas línguas, que ganham
a qualificação de línguas internacionais e ocupam posição
privilegiada nas políticas de ensino de línguas ao redor do
globo.
A
existência de uma língua internacional é importante para
suprir a necessidade por entendimento comum nos assuntos de
relevância internacional: viagens, política, negócios,
defesa, tecnologia e ciência.
Mas a forma como isto se dá encontra interpretações
divergentes. Opõem-se aqueles que acreditam na difusão de
uma língua em virtude de sua facilidade e capacidade
gramatical e aqueles que interpretam a difusão de uma língua
como expressão da penetração política e econômica de uma
cultura sobre as outras.
J.
M. Mitchell argumenta que o status alcançado pelo inglês nas
RI é um acidente feliz. Segundo ele, o inglês se transformou
em língua internacional em virtude de sua facilidade
gramatical; do fato de utilizar o alfabeto mais conhecido; e
por sua capacidade de assimilar itens lingüísticos de
qualquer outra fonte.
O ex-funcionário do
British Council defende que o inglês representa a liberdade
de expressão. Em
suas palavras
“it provides an escape from social constrains and
artificial boundaries into the wider world of brand names, pop
music, glossy magazines, and television soap opera, where
collective dreams move towards realization”]
Nesta
mesma linha de raciocínio encontra-se o pensador americanista
Tunstall. Este, assim como o britânico, acredita que a língua
inglesa ganhou o mundo por ser dotada de características como
flexibilidade, concisão, pragmatismo e modernidade. O inglês,
assim, seria o representante natural do processo de globalização.
Já
conhecemos esta sorte de argumentos na apresentação sobre a
dominação cultural. Mitchell e Tunstall são membros de
sociedades anglofonas e defendem a expansão de seu idioma
como o melhor capacitado para as comunicações
internacionais. Porém, da mesma forma como no âmbito da
cultura em geral, o debate lingüístico também apresenta
outras leituras que consideramos mais apropriadas para tecer
compreensão sobre o fenômeno da internacionalização do
inglês.
Pierre
Bourdieu afirma que a língua não é somente um instrumento
de comunicação, mas também o é um instrumento de poder.
Relações de poder, por sua vez, exigem legitimidade.
Na construção das nações, a unidade política e
econômica trouxe consigo a prevalência de um idioma sobre os
outros. O sistema de ensino e as práticas da administração
pública operam no sentido de promover uma língua em
detrimento das outras.
A
atual situação de predominância do inglês no mundo
assenta-se no fenômeno da diglossia, que significa a convivência
de duas línguas na mesma sociedade; não ocorrendo justaposição,
mas divisão de funções. Segundo Renato Ortiz, a mundialização
do inglês é compreensível como diglossia em escala mundial.
A presença da língua em diversos setores da atividade humana
internacionalizada confere ao inglês uma situação de
segunda língua. A língua passa a fazer parte do cotidiano
das pessoas em assuntos de relevância internacional suprindo
as necessidades de comunicação entre povos, já apontadas
anteriormente.
Voltando
a Bourdieu, temos que o sociólogo francês examina a emergência
desta diglossia mundial como fruto da ampliação do mercado
lingüístico. Localizado, inicialmente, no território
nacional, esse se expandiu em dimensão transnacional
acompanhando a expansão das fronteiras da sociedade de
consumo. O idioma é internacionalizado concomitantemente à
internacionalização dos veículos de comunicação de massa
e exportação de produtos culturais. Lembremos que toda a
dimensão cultural das relações internacionais ganha importância
com o advento da comunicação sem fronteiras e sua prática
massiva.
Tomlinson
admite a existência da dominação cultural na questão lingüística.
Ele aponta para a predominância das publicações em línguas
européias ao redor do globo. Em um processo que se retro
alimenta, novas publicações em inglês, só para citar nosso
objeto de estudo, sempre contribuem para o fortalecimento da língua.
Neste contexto, muitas vozes são caladas e muito do que é
pensado em outros idiomas simplesmente não é compartilhado
como conhecimento entre todos os povos.
O
problema apontado por Tomlinson a ser resolvido é o acesso
das nações e culturas à voz no mundo; conseguir espaço
para manifestar seu pensamento. Ele argumenta que o problema
do acesso à voz no mundo é uma questão de mercado. Quanto
maior o mercado de uma língua, maior o número de publicações.
É um processo que cria um ciclo vicioso. O número de publicações
aumenta em virtude do número de leitores e o número de
leitores tende a aumentar buscando acesso àquelas publicações,
ou seja, novas pessoas aprendendo inglês para escrever e ler
no idioma.
Assim
como na discussão sobre cultura em geral, os globalistas
entendem que o processo de globalização assenta-se em
interesses políticos e econômicos que possibilitam a
conquista de uma legitimidade ampliada por parte de uma modelo
cultural específico. E,
da mesma forma, fogem à responsabilidade de apresentar as
origens deste processo de legitimação.
O
lingüista dinamarquês Robert Phillipson, por sua vez, afirma
que o status atual do inglês é fruto da expansão política
e econômica dos países que o têm como língua mãe. Ele
inaugura o termo imperialismo lingüístico, que, similarmente
ao imperialismo cultural, diz respeito à penetração de um
elemento cultural de um povo em outros, carregando consigo
valores peculiares e buscando estabelecer dominação via
consenso, ou seja, estabelecimento de hegemonia.
A
estrutura de políticas sobre línguas do presente, com a qual
lidamos, é resultado de um processo histórico de dominação
lingüística, originado da conquista, da subjugação militar
e política e da exploração econômica. Nas palavras do
estrategista espanhol da era das navegações, Nebrija: “A língua
foi sempre a companheira de um império, e sempre permanecerá
sua parceira”.
E a posição ocupada pelo inglês, o francês, o espanhol e o
português no mundo contemporâneo mostra, claramente, com
quanto sucesso se deu a imposição lingüística do período
colonial.
Potências
colonizadoras jamais reconheceram que as línguas e as
culturas, além das suas próprias, representavam valores e
direitos. A expansão político-econômica das potências
européias acarretou na aniquilação de várias culturas e
hoje testemunhamos o processo de expansão sem precedentes da
cultura anglo-saxã.
De
forma mais sutil que no passado, o inglês é difundido
atualmente pelo mundo não pela força, mas pela idéia de
inevitabilidade da adequação desta língua como a língua
internacional por excelência. Mas nenhuma língua nacional
pode se arvorar o direito de ser a língua internacional por
excelência. Esta concepção de hoje tem suas bases nas
eficientes políticas britânicas e estadunidenses de criação
de ampla infra-estrutura educacional para difundir
mundialmente o inglês. Estados que resistem à difusão do
inglês são tachados de sofrerem do “arcaico orgulho
nacional”.
A
expansão do idioma pelo mundo se deve a duas concepções
fundamentais defendidas desde o início do século e
reafirmadas oficialmente na “Anglo-American Conference in
English Teaching Aboard”, em 1961, a saber: o ensino de inglês
para povos não anglofonos é importante ferramenta do
processo de desenvolvimento dessas nações; e a necessidade
de consolidação da auto-suficiência dos países receptores
no ensino da língua através da utilização de recursos dos
países anglofonos em parceria com as sociedades locais.
A
difusão do inglês nas últimas décadas vem sendo reforçada
pela concepção de educação global. Esta educação global
significa a padronização dos métodos educacionais visando
assegurar a qualidade de educação e formação de indivíduos
aptos para o mercado de trabalho internacionalizado. Esta visão
de educação, segundo Phillipson, pressupõe duas classes de
pessoas: anglofonos monolíngües e os demais, bilíngües. É,
sem dúvida, uma receita para regredir o mundo a um estado no
qual tudo de valoroso é gerado em uma única língua.
Como
observa Nye, o pioneirismo dos Estados Unidos na utilização
das novas tecnologias de comunicação sem fronteira também
contribuiu para a expansão da língua. O inglês, atualmente,
é o idioma de 80% das páginas da internet.
Lembrando
de Gramsci, temos que as línguas ganham status hegemônico
nas sociedades em função das relações políticas em seu
interior. E sua utilização é relativa ao grau de influência
dos grupos que a defendem na coletividade.
O
regime lingüístico atual, pois, reflete um poder político
antes que um princípio de igualdade ou eficácia. A ONU
trabalha com seis línguas oficiais, a saber: O inglês, o
chinês, o russo, o francês, o espanhol e o árabe. Ou seja,
estão representados os membros permanentes do Conselho de
Segurança da Organização mais um grande colonizador e os
donos do petróleo. Se já é restrita em termos de sua
legislação, a ONU é mais restrita ainda em termos práticos,
uma vez que o inglês é a língua praticada de
facto.
As
instituições de Bretton Woods (Banco Mundial e FMI) defendem
políticas do paradigma difusão do inglês.
Mantendo nos países da periferia do mundo capitalista a influência
cultural herdada do colonialismo. Na África, por exemplo, a
ajuda no campo educacional reflete a crença lingüística de
que somente as línguas européias são adequadas ao
desenvolvimento das economias e das mentalidades africanas. As
relações econômicas internacionais influenciam diretamente
a distribuição de recursos oferecidos ao ensino de uma língua
em detrimento de tantas outras.
Comparada
à ONU, a União Européia (UE) é mais democrática em sua
política lingüística, pelo menos em termos de legislação.
Na prática, porém, línguas de Estados poderosos são
privilegiadas frente às outras. O discurso afirma que a
diversidade cultural e lingüística deve ser conservada, mas
na prática o inglês, também na UE, exerce grande impacto
sobre as outras línguas.
Mesmo
entendendo que o inglês representa uma ameaça aos seus
valores culturais e lingüísticos locais, grandes economias
da Europa utilizam a língua e promovem programas agressivos
de aprendizado da língua inglesa. Os franceses debatem
isoladamente o tema, mas lutam em causa própria e tampouco são
partidários da democratização efetiva nem da ONU nem da UE.
Tomado o planeta e seus diversos países na totalidade,
resultados empíricos demonstram que o inglês e o francês são
os idiomas dominantes. Europa do norte fala inglês; Europa
meridional fala francês. Inglês predomina, também, no leste
europeu e nas outras áreas do globo.
Como
conseqüência da preponderância de uma língua sobre as
outras nas RI, Mitchell, mesmo acreditando na “missão
libertadora do inglês”, argumenta que os países que
necessitam da utilização de uma língua estrangeira para a
comunicação internacional possuem uma desvantagem frente àqueles
cuja língua é privilegiada. Os países cujas línguas são
amplamente faladas têm a vantagem de possuírem meios de
comunicação internacional prontos, enquanto os demais são
impelidos a investirem no ensino das línguas estrangeiras. E,
quando não o fazem, sua desvantagem é salientada pela
limitada habilidade de penetração de seus agentes
intelectuais, comerciais e políticos em outros sistemas de
pensamento.
Fundamentando
o problema em bases teóricas de relações internacionais,
assim como no quesito da dimensão cultural em geral, faz-se
bastante apropriada a utilização dos conceitos
neogramscianos. Compreendendo a expansão do sistema
capitalista como a expansão de um quadro de valores específico
pode-se compreender também a expansão do idioma. A língua
simboliza uma forma específica de interpretação do mundo e
sua afirmação requer vontade da sociedade civil e ação do
Estado.
O
modelo de produção internacionalizado penetrou os diversos
aparelhos estatais e conectou as forças sociais neles
presentes às relações sociais de produção também
internacionalizadas. Esta
sociedade civil global é unida pela necessidade de utilizar
uma linguagem comum e o inglês, língua mãe dos pioneiros da
internacionalização da produção, assumiu este papel.
Os
professores de inglês têm um papel fundamental neste
concerto. Pois, como sabemos, a educação executa função
essencial no processo de consolidação de hegemonias. Para
alcançar o consenso de que o inglês é, inquestionavelmente,
a ferramenta mais eficiente de comunicação internacional
professores anglofonos nativos ou não, unidos por este
discurso dominante, difundem mundo afora a inevitabilidade do
aprendizado para o acesso ao mercado de trabalho e
possibilidade de contato com o que há de mais atual em termos
de pesquisas e idéias.
Hegemonias
são conquistadas através de ações no âmbito da sociedade
civil, e o intelectual é parte importante na formação do
pensamento de uma dada sociedade. O docente de línguas pode
ser considerado parte da sociedade civil global tal qual
teorizada pelos neogramscianos, uma vez que a repercussão de
seus atos transcende os limites das fronteiras nacionais. A
profissão de professor de inglês pode ser considerada uma
classe profissional de caráter verdadeiramente transnacional,
por comungar valores e métodos de trabalho globalmente.
A
hegemonia do inglês nas RI contemporâneas se dá, pois, pela
via da inevitável necessidade de seu aprendizado. Sendo a língua
do capitalismo, expandiu-se aos quatro cantos do globo
terrestre acompanhando, sobretudo, a expansão sem precedentes
da economia norte-americana e do American way of life no último
século.
CONCLUSÃO
Este
breve estudo buscou apresentar a discussão sobre a dimensão
cultural nas relações internacionais e o resultado de dominação
cultural que hoje caracteriza as relações culturais
internacionais. Elemento pertencente ao debate cultural, a
questão da língua internacional apresenta-se como um
problema que reflete as assimetrias nas RI contemporâneas.
Estimulada
pela expansão colossal da cultura norte-americana, a discussão
sobre imperialismo cultural traz como importante contribuição
a perspectiva de que a forma como se dão as relações
culturais internacionais não é mero fruto do acaso. Mas é,
sim, resultado de políticas culturais externas e ações da
sociedade americana.
A
internacionalização da produção, a integração das
cadeias produtivas, levou ao mundo um modelo peculiar de relações
de produção. O qual levou consigo não apenas novas tecnologias de produção,
mas também uma forma de interpretar o mundo. A língua
inglesa foi difundida oficialmente para se tornar a língua
internacional que hoje muitos buscam aprender.
É
verdade que no mundo desigual que vivemos ainda existem milhões
de pessoas completamente ignorantes sobre o idioma; e que, por
outro lado existem alguns milhares de indivíduos que dominam
várias línguas. Mas o fato é que, aqueles cujo interesse é
capacitar-se para o competitivo mercado de trabalho, e que
almejam oportunidades de trabalho com boa remuneração, têm
no inglês uma condição sine
qua non de
qualificação profissional.
Sustentado
no poderio econômico e político dos EUA, o idioma foi
difundido pelos quatro cantos do mundo e, com ele, seu estilo
de vida e organização social. Quando estamos em uma sala
aprendendo inglês, aprendemos também sobre o cotidiano das
pessoas dos países anglófonos e absorvemos sua cultura e
forma de enxergar o mundo.
É preciso deixar
claro que não me oponho ao aprendizado do inglês, nem temo o
desaparecimento das outras línguas nacionais, mas faço objeção
à situação atual de “unilingüismo” que ocorre em
detrimento do multilingüismo. Este é um grande problema para
os entendimentos internacionais, por ser uma via de mão única,
uma vez que o interesse dos anglófonos nativos em aprender
outra língua é mínimo. Além disso, a quase exclusividade
gozada pelo inglês nas publicações de interesse
internacional limita o intercâmbio de idéias, visto que
muita riqueza artística e científica produzida em outros
idiomas é marginalizada.
MITCHELL, J. M. International
Cultural Relations. London: Allen & Unwin, 1986.
O lingüista Yukio Tsuda apresenta a existência de dois
paradigmas de educação global concorrentes: um centrado
na difusão do inglês e outro centrado na noção de
ecologia das línguas. O primeiro é o que privilegia o
idioma inglês como língua franca das relações
internacionais; o outro se fundamenta no multilinguísmo,
respeito aos direitos humanos, igualdade no acesso à
comunicação, preservação de línguas e culturas, e,
obviamente, incentivo ao aprendizado de outras línguas além
do inglês. (Tsuda,
1994)