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 ENSAIO

O problema da língua nas Relações Internacionais: uma leitura neogramsciana

Por Sandro Almeida Santos

 

INTRODUÇÃO

As relações internacionais, em suas várias facetas, requerem a utilização de um mecanismo de comunicação que seja comum entre as partes. É grande, portanto, a importância de uma língua internacional, ou seja, uma forma de manifestação de pensamento que possibilite o entendimento entre diplomatas, empresários, turistas e acadêmicos.

A contemporaneidade assiste à predominância do inglês como língua privilegiada. Mas os estudiosos em lingüística afirmam que não há um critério técnico razoável para o estabelecimento do inglês como língua franca internacional. Se não existe um critério técnico, devemos, portanto, procurar quais são os mecanismos políticos e econômicos subjacentes à questão da dominação lingüística e como se ordenam tais mecanismos no sentido de promoverem a língua inglesa pelo mundo. 

O inglês acompanhou, em expansão, os processos de internacionalização do comércio e da produção, por estar diretamente associada a poderoso centro capitalista. A educação exerce importante função na consolidação de hegemonias, pois é através dela que valores peculiares são universalizados.

A proficiência no idioma tornou-se condição necessária para a participação no comércio internacional ou mesmo para ter acesso ao conhecimento científico que, atualmente, é produzido majoritariamente nesta língua. Tal fato gera demandas internas, por parte de grupos influentes nas economias nacionais, que dão contornos tanto ao cotidiano das pessoas quanto às políticas estatais. Pressões internas estas que, somadas às iniciativas das ricas sociedades e poderosos Estados anglófonos em promover a sua língua mãe, garantem o status dominante da língua inglesa nas relações internacionais.

Apresentamos, aqui, como pano de fundo para a discussão sobre a predominância de uma língua em detrimento de outras, a discussão sobre dominação cultural. Conhecer o debate mais amplo das relações culturais internacionais é importante para que a compreensão do fenômeno da dominação lingüística fique clara.

 

DA DOMINAÇÃO CULTURAL

A dimensão cultural das relações internacionais (RI) ganhou destaque nas últimas décadas. As RI, antes entendidas como fenômeno fruto exclusivo das relações econômicas e políticas entre as nações, a partir da década de 1960 passaram a ser entendidas, também, como fenômeno de interação entre as diversas formas de manifestação cultural existentes no planeta. Mais do que um elemento secundário, a cultura é identificada como função motivadora de comportamentos políticos e econômicos, e, por isto, merecedora de atenção especial dos estudiosos das RI contemporâneas.

O senador estadunidense J. William Fulbright já afirmava, em 1964, prefaciando o livro de Philip Coombs, que a maneira como uma sociedade comunica seus valores às outras é um fator de maior influência, na nova conjuntura internacional, do que a superioridade militar ou a capacidade de barganha diplomática[1].

Joseph Nye argumenta que o avanço exponencial das tecnologias de comunicação nas últimas décadas provocou uma revolução na forma como a informação é difundida e utilizada. Informação é um mecanismo de poder. A forma como uma cultura é propagada tem um papel importante na conformação de poder nas relações internacionais contemporâneas[2].

Nye observa a existência de um poder brando nas RI. Este é o poder de sedução que um Estado e sua cultura exercem sobre os demais povos. Os produtos culturais não são seu único componente, mas são de grande importância. Um Estado e uma sociedade devem manter uma boa imagem junto a seus pares, garantindo assim respeitabilidade na sociedade internacional.

J.M. Mitchell, ex-funcionário do British Council (órgão de política cultural externa da Inglaterra), trouxe grande contribuição a esta temática. Segundo ele, a dimensão cultural das RI engloba dois componentes, a saber: a diplomacia cultural e as relações culturais[3].

A primeira corresponde às iniciativas estatais concernentes à difusão de sua cultura para outros povos. Está diretamente relacionada com o aparelho governamental e sua política exterior assentada em interesses políticos e econômicos. A diplomacia cultural tem função de exportadora de influência. Ela é ferramenta de apoio à política externa dos Estados. As políticas culturais externas visam à conquista da mente da população estrangeira bem como a difusão de um estilo de vida particular, criando vínculos entre as nações e facilitando as relações econômicas e políticas. Este entendimento é importante para a compreensão do que vem a ser dominação cultural.

Cientistas políticos como Philip Coombs e Frank Ninkovich apresentam os aspectos da diplomacia cultural presentes na política externa americana. A exportação de sua cultura foi uma ferramenta bastante utilizada pelos norte-americanos para afirmação de sua influência nas relações internacionais.  Não é, contudo, objetivo deste artigo, apresentar estas políticas, mas é preciso deixar claro que a diplomacia cultural exerceu papel importante no apoio à difusão do padrão cultural estadunidense.

A segunda categoria, a das relações culturais, compreende as interações entre as distintas sociedades no campo cultural. Estas relações podem ser facilitadas pela diplomacia cultural, mas não existe uma conexão necessária. As relações culturais, segundo Mitchell, são caracterizadas pela mutualidade e cooperação.

Uma interjeição deve ser feita neste ponto, pois creio que não seja possível definir uma natureza das relações culturais a priori. Cada agente, seja ele governamental ou não, tem seus interesses específicos, que podem visar à cooperação ou não. Logo, trataremos aqui as relações culturais como a totalidade das interações entre as sociedades no campo da cultura sem pré-conceito sobre sua natureza, seja ela cooperativa, competitiva, ou assentada em quaisquer outros interesses.

As relações culturais conformam uma ampla variedade de atividades, como apresentado por Mitchell:

 Cultural relations [...] comprises the arts, libraries and information services, literature, language teaching, science and technology, social structure, the exchange of persons, links between communities and institutions, and educational aid and training in the developing world.[4]

No tocante a essa variedade de interações culturais existentes, temos que o avanço das comunicações ampliou as possibilidades de contatos e multiplicou a capacidade de ação da sociedade civil de forma global. E são justamente as ações não-governamentais (apoiadas ou não pelo Estado) que garantiram, majoritariamente, a forte presença da cultura estadunidense nos quatro cantos do planeta. [5]

A dimensão cultural das RI diz respeito à conformação de padrões culturais, à disseminação de valores, estilos e sistemas simbólicos sob a forma de políticas culturais específicas que têm suas origens nas máquinas governamentais e/ou mesmo no seio da sociedade civil. Essas políticas resultam em interpenetração cultural, que é um fenômeno datado da origem da cultura ocidental, fruto da miscigenação cultural entre as tradições gregas, romanas e “bárbaras”. A brasileira Mônica Herz, baseada na complexidade das formas de manifestações dessas relações culturais, argumenta que a postura internacional das nações deve ser estudada a partir de uma compreensão abrangente dos padrões culturais que as norteiam. [6]

A discussão sobre os processos de disseminação e interpenetração de culturas é polêmica. Há aqueles que acreditam na existência de uma cultura globalizada despolitizada; existem aqueles que enxergam, neste processo de formação de uma cultura global, os maniqueísmos do centro de poder mundial; e existem, ainda, aqueles que percebem esta cultura global como um processo de formação de consenso, constituído pela difusão dos valores de um centro de poder mundial, recebidos e assimilados de forma peculiar pela periferia do sistema.

As relações culturais internacionais possuem um caráter estratégico, constituindo forma de dominação.  Daí surge o conceito de Imperialismo Cultural. Sendo abordado de várias formas distintas, John Tomlinson alerta que este conceito deve ser interpretado conforme o contexto em que é empregado e, principalmente, conforme o discurso de quem o invoca para criticar o status das relações de dominação cultural. [7]

Tomlinson demonstra em seus estudos que existem quatro discursos principais que invocam críticas à dominação cultural. Um centrado no imperialismo da mídia, um centrado na noção de nacionalidade, um voltado à crítica do capitalismo global e outro voltado à modernidade como um todo. Ele critica as visões que concentram o imperialismo cultural como domínio exclusivo das comunicações, da nacionalidade, ou do capitalismo global. Para ele, o imperialismo cultural é uma forma de dominação existente na modernidade, e a esta concepção apresentaremos nossas críticas adiante.

Consideramos pertinente apresentar a evolução histórica do conceito nas RI.  O teórico clássico das RI, Hans Morgenthau, definiu, na década de 40, imperialismo cultural como a conquista das mentes dos homens que prepara o terreno para posterior conquista militar e penetração econômica. O raciocínio de Morgenthau é simples: aquele que controla o pensamento de outrem poupa em utilização da força necessária para subjugá-lo à sua vontade. [8]

Voltando um pouco mais na história, temos o surgimento do termo imperialismo. Primeiramente, é preciso distinguir imperialismo de Império. Império é um conceito que expressa expansividade política, está ligado à territorialidade. Um império era uma organização social que se estendia por vasta dimensão geográfica. Imperialismo, por sua vez, foi um conceito criado pós-revolução industrial. Exprime a dominação econômica. O imperialismo representa a competição entre os Estados-nação. Estes, não podendo construir impérios políticos uns sobre os outros, passaram a concorrer pela dominação econômica. [9]

Tomlinson pondera sobre a complexidade do conceito sustentado em dois conceitos por si só complexos: imperialismo e cultura. Em termos gerais, objetivando evitar delongas nesta discussão conceitual, imperialismo pode ser entendido como a existência de uma forma de dominação no mundo moderno e cultura como as totalidades das práticas através das quais as coletividades dão sentido às suas vidas. Assim, o evocar do imperialismo cultural pode ser compreendido como protesto à dominação de uma forma peculiar de interpretar o mundo sobre as outras.

Segundo Renato Ortiz, o termo imperialismo cultural ganhou força após a II Guerra Mundial, com as manifestações político-intelectuais antiimperialistas do 3º mundo e com os estudos sobre os fenômenos da comunicação em massa. Na América Latina, onde a emergência de uma sociedade urbano-industrial foi tardia, a modernidade é vista com algo fora de lugar. A questão da identidade nacional e do desenvolvimento da nação foram elementos que caracterizaram a busca pela construção de uma nação autônoma em termos econômicos, políticos e culturais. A influencia econômica, política e ideológica dos EUA nos países latino-americanos é um entrave à definição de uma identidade nacional autônoma, situação que opera como combustível da luta antiimperialista.

Em termos gramscianos, pode-se dizer que a América Latina é um caso típico de revolução passiva. Isto é, sociedades não transformadas por completo, nas quais a burguesia industrial não obteve hegemonia. A revolução passiva ocorre quando nem o lado revolucionário nem o lado conservador têm capacidade de triunfar. Então, pequenas modificações na estrutura são introduzidas sem que haja mobilização popular. Uma vez não havendo um grupo hegemônico interno, há um vácuo de liderança ideológica, facilmente preenchido por uma hegemonia externa em processo de expansão. [10]

Assim sendo, o empecilho à definição de identidades na América Latina em processo de industrialização é a marcante presença da cultura estadunidense no cotidiano desses povos. A hegemonia norte-americana exportou sua forma de pensar e seus modos de organização social para o sul do continente. De acordo com Armand Mattelart esta expansão foi possibilitada pelo surgimento dos mecanismos de comunicação em massa, que conectaram as diferentes realidades de diferentes locais sob um mesmo padrão de difusão da informação, controlado majoritariamente por grandes companhias daquele país. [11]

A sociedade norte-americana aproveitou-se de sua vantagem como pioneira no acesso aos veículos de comunicação de massa para expandir sua cultura de forma sem precedentes. O imperialismo cultural é um fenômeno da comunicação de massa e, por isto, só é conhecido protagonizado pelos EUA. Não é imperialismo de competição monopolista, mas imperialismo da expansão sem concorrentes da cultura americana embebida de um pretenso universalismo.

A americanização do mundo é divulgada como sinônimo de liberdade e democracia; havendo a consideração apologética de que a cultura dos EUA é superior às demais em virtude de seus avanços tecnológicos. Para os que defendem esta idéia de superioridade, a indústria cultural concebida em solo estadunidense deveria ser recebida como avanço da humanidade pelos demais povos. [12]

Este “americanismo” sustenta-se nas mesmas bases do imperialismo cultural, mas estes conceitos expressam posicionamentos ideológicos antagônicos. De um lado, os que acreditam no mito do destino do EUA em promover e difundir os ideais democráticos e de liberdade pelo mundo. Difusão esta amparada na exportação de produtos culturais estadunidenses, representando a pedagogia do american way of life para todo o planeta. De outro lado, a idéia de imperialismo cultural que vê na divulgação desses costumes americanos uma forma de alienação das outras culturas. Economia, política e cultura são partes de um processo integrado de exercício de poder. [13]

Pode-se dizer que americanismo e imperialismo são duas leituras de um mesmo processo: a expansão do modelo de produção americano, acompanhada da difusão cultural. Neste processo os avanços tecnológicos são associados aos interesses comerciais, políticos e culturais.  A expansão das posições militares e presença da influencia política dos EUA foi acompanhada pela internacionalização da produção industrial e exportação de produtos culturais via mecanismos de comunicação de massa. O novo modo de interpretar o mundo acompanhou a expansão política e econômica.

Ortiz argumenta que é o estilo de vida da sociedade de consumo que cria cultura mundializada. Símbolos e padrões de comportamento são compartilhados e fazem parte de um imaginário mundializado. O que Ortiz não responde é de onde surgiu este estilo de vida e como se espalhou; ele descarta a hipótese de difusão cultural sem apresentar outra.[14]

Como bem defendido por Tomlinson, conhecer as idéias de quem fala sobre imperialismo cultural é importante para tecer compreensão sobre o significado do conceito. É natural, como demonstrado por Ortiz, que os países do chamado 3º mundo utilizassem este conceito como forma de criticar o passado de dominação política que sofreram e o presente de subordinação econômica que os caracteriza.

Em sua crítica aos discursos de imperialismo cultural, Tomlinson aponta para a tendência de redução das relações culturais à comercialização de produtos culturais, através do imperialismo da mídia e também critica a visão extremamente economicista dos neo-marxistas que concebem o capitalismo como um sistema desvinculado da ação política dos Estados. [15]Acreditamos que ele está correto em sua análise, porém Tomlinson esquece de apresentar uma visão completa de imperialismo cultural ou dominação cultural que seja capaz de conjugar as dimensões da dominação da mídia, da influencia da nacionalidade e da própria estrutura de dominação do capitalismo global.

Em seus escritos, apresenta a crítica à modernidade como a mais completa forma de discurso de questionamento ao imperialismo cultural. Para ele, modernidade compreende o capitalismo, urbanização, comunicação de massa, sistema de Estados-nação e individualismo. Mas, como Ortiz, ele não se dá o trabalho de procurar a origem dessa tal modernidade.

Devemos aqui salientar que, segundo Benno Teshcke[16], a urbanização, o individualismo e a constituição do sistema de Estados nacionais são transformações sociais exigidas pelo próprio capitalismo, e que o desenvolvimento da comunicação de massa, como apresentado por Mattelart, é um fenômeno da evolução capitalista.

Não queremos reduzir a análise da dominação cultural ao capitalismo como vilão. Buscando, assim, uma análise que compreenda a dominação cultural (conceito preferível a imperialismo cultural) como fenômeno da mídia, da influencia das nações e também das relações de produção capitalistas, aderimos ao pensamento neogramsciano nas relações internacionais.

Os estudos de Gramsci dão grande relevância à relação entre a sociedade e sua expressão institucional mais latente, o Estado.  O Estado é, para ele, um conjunto complexo composto pelas várias relações de forças existentes na sociedade. A forma de Estado na qual um povo se organiza é reflexo de suas relações sociais de produção.[17]

A política é o núcleo central do arcabouço metodológico de Gramsci, é ela que fornece sentido e articula todas as investigações históricas e reflexões filosóficas do revolucionário italiano. Partindo da análise política das relações sociais, é destacado como elemento primário desta relação a existência de governantes e governados, dominantes e dominados. A preocupação concernente a isto é, então, compreender fenômenos tais como os mecanismos de governo e o porquê da obediência, ou seja, compreender como são articuladas as forças sociais que participam do jogo político.

Mônica Herz invoca os conceitos gramscianos de hegemonia e sociedade civil para tecer uma forma de compreensão dos padrões de decisão e comportamento, bem como da construção do consenso coletivo.

“Ao introduzir a perspectiva de Gramsci lembramos o caráter social e público da cultura, que nos permite captar a conformação do homem coletivo a partir das relações de dominação.” [18]

É importante detectar o papel dos agentes privados e estatais no processo de hegemonia do capital e a conformação do que ela chama de projetos culturais.  Projetos culturais estes que estão relacionadas a sociedades nacionais, capazes de transcender os limites do Estado-nacional e serem colocados em práticas não só por Estados, mas também por agências internacionais. Os projetos culturais são ações no campo econômico, social e militar.

Como apresentados por Mônica Herz, os projetos culturais são projetos nos quais tanto Estado quanto sociedade civil, embebidos por um espírito de “interesse nacional”, agem no sentido de difusão de sua cultura nacional. O desdobramento da ação eficaz desses projetos culturais é a conquista da hegemonia no campo cultural. [19]

Hegemonia, para Gramsci, é uma situação na qual um grupo social, consciente e uno historicamente, exerce domínio não somente através da coerção, mas também e principalmente pela difusão de sua visão de mundo, sua moral, filosofia e costumes. Isto é dizer que a hegemonia é exercida através do desenvolvimento de um senso comum capaz de abranger toda uma sociedade, e que favorece o reconhecimento da liderança de uma classe sobre as outras.

A hegemonia é sempre alcançada pelo entendimento consensual, quando uma classe dominante espalha sua imediata consciência e universaliza suas normas e valores, estabelecendo harmonia entre o grupo dominante e os subordinados. Em uma situação de hegemonia, o grupo subordinado passa a admirar e reproduzir à sua forma as práticas e criações culturais do grupo dominante.

A hegemonia é exercida pelas práticas da sociedade civil. A construção da hegemonia ocorre quando a classe dominante transcende seus interesses particulares e é capaz de entrar em acordo e coerência com diversas aspirações e interesses generalizados, criando expectativas nas demais classes sociais. [20] Internacionalmente, a hegemonia é exercida pela difusão de valores emanados de uma sociedade a outras, criando consenso, conectando-as e formando uma sociedade civil internacional que compartilha valores e práticas. [21]

A sociedade civil internacional ou global encontra uma forma de expressão no mercado global e sua série de mercados locais conectados sob o interesse da hegemonia do capital. Fazem parte do conjunto da sociedade civil internacional as agências econômicas de Organizações Internacionais, Câmaras de Comércio, Organização Internacional do Trabalho, empresas transnacionais, investidores e outros partícipes do mapa-múndi econômico; mas também fazem parte redes cívicas e religiosas, uniões ambientalistas, organizações feministas e outras tantas formas de associação e manifestação de interesses que buscam desenvolver uma moral comum e horizontes políticos conectados que não são constrangidos pelos imperativos da competitividade de mercado.  A sociedade civil compreende atores que trabalham no sentido de promoção ideológica e prática do consenso capitalista internacional bem como atores contestadores e fomentadores de uma ordem alternativa. [22]

A dominação cultural deve ser assim, interpretada como fruto da expansão do modelo de relações sociais de produção capitalistas. A classe capitalista consolidou e difundiu seu modelo de produção internacionalmente; concomitantemente à expansão da forma de organização econômica, foram difundidos padrões de vida e costumes peculiares à sua cultura. O capitalismo consolida-se hegemônico internacionalmente por sua capacidade de oferecer às populações nas quais penetra culturalmente expectativas de liberdade e possibilidade de ascensão social segundo critérios meritocráticos, exercendo assim grande poder de sedução.

Retomando o debate sobre imperialismo cultural, temos a visão de Herbert Schiller, que se aproxima bastante da idéia de dominação cultural de tipo hegemônica e não por imposição.

“[Imperialismo cultural é] a soma dos processos através dos quais uma sociedade é trazida para o moderno sistema mundial e pelos quais sua classe dominante é atraída, pressionada, forçada, e muitas vezes subornada a reorganizar as instituições sociais de forma a corresponder aos, ou mesmo promover os, valores e estruturas do centro dominante do sistema.”( tradução própria)[23]  

Schiller apresenta as multinacionais como principais agentes da dominação cultural hodierna. Os grandes conglomerados de capital dominam o mercado global de produção e distribuição de bens e serviços; bem como dominam a produção e disseminação de informação e produtos culturais. Para alcançar seus objetivos de mercado, as multinacionais buscam influenciar, e se possível dominar, os espaços culturais e de informação que as separa do total controle do ambiente global.

A penetração cultural não pode ser medida por elementos puramente econômicos, uma vez que afeta as instituições sociais da área receptora. Ele argumenta que a própria expansão dos negócios das empresas carrega consigo um elemento de influencia cultural. Ao instalar sua base de produção ou comercialização, a multinacional implanta no local a sua cultura de negócios.

A internacionalização da produção tem como resultado uma apropriação cultural das sociedades penetradas pelos negócios multinacionais. Uma vez absorvida pelo sistema, a sociedade receptora deve adequar suas instituições ao padrão internacional. Deve ajustar seu modo de produção, política de pagamentos, capacitação da força de trabalho, conceito de eficiência, método de investimentos e prioridades de política econômica, sob pena de não participar dos negócios globais caso assim não proceda.

Os sistemas educacionais são todos moldados pelos imperativos de mercado. Tanto no centro como na periferia, a educação é voltada para a formação de gerentes, administradores e trabalhadores qualificados para as corporações multinacionais e para a burocracia estatal. As agências estadunidenses de fomento ao desenvolvimento têm papel fundamental neste processo. Uma de suas tarefas prioritárias é organizar escolas e instituições de educação assentados no modelo norte-americano de ensino. As escolas de negócios dos EUA também protagonizaram a expansão do modelo de ensino voltado para o mercado internacional. Trabalhadores, empreendedores e futuros funcionários governamentais são treinados e têm suas capacidades moldadas segundo as necessidades das multinacionais e do mercado global.

A era da mercantilização, para usar um termo empregado por Armand Mattelart em seu discurso no Fórum Social Mundial de 2003, vincula todas as áreas de atividade humana às necessidades do mercado internacionalizado. No campo da pesquisa científica, por exemplo, áreas vinculadas ao lucro das empresas e aos interesses dos centros da economia mundial recebem grandes investimentos, enquanto outras áreas são deixadas de lado. Na periferia, os pesquisadores são confinados ao mercado científico internacional, incorporam modelos teóricos e linguagem acadêmica oriundos dos centros e orientam seu pensamento pelas demandas da comunidade científica dos países centrais. Muitas vezes as necessidades das populações são transformadas em objetivos secundários, pois os pesquisadores são atraídos pelos recursos prometidos nos centros para investigações que em nada tem ligação com seu país de origem. [24]

A homogeneização cultural e ideológica do mundo não é perseguida por uma única nação, mas por um sistema integrado de diferentes setores nacionais comprometidos com uma forma de organização social específica. A dependência cultural é, sobretudo, uma opção das elites dos países periféricos. A economia de mercado foi capaz de adequar as relações econômicas, políticas e culturais aos interesses do capital de forma a transparecer que sua ordem é apolítica, sem controle e não suscetível à manipulação individual.

Retornando ao conceito de hegemonia em Gramsci, e sua interpretação internacional, podemos argumentar, através do pensamento de Schiller, que as relações culturais internacionais expressam uma relação de dominação entre os que ganham mais com o mercado internacionalizado e aqueles que aferem menos louros dessa tão aclamada modernidade. Os últimos, dominados, buscam se adaptar ao padrão hegemônico visando ganhos.

Hegemonia, em termos coxianos, é uma forma na qual a dominação é obscurecida pela conquista de uma aparente naturalidade. Ela é uma coerência internalizada por todos os grupos que surge a partir de uma ordem difundida pelo grupo dominante, mas que foi transformada em uma realidade constituída intersubjetivamente (compartilhada por todos os grupos). [25]

Importante notar, conforme analisa Nye, que a cultura americana é caracterizada por uma grande abertura, se comparada às tradicionais culturas européias e asiáticas. Em virtude dessa abertura, desfruta de uma grande capacidade de penetração nas demais que se abrem facilmente para ela. Os norte-americanos difundem com sucesso seus ideais de liberdade e pluralismo, gerando grande atratividade junto ao público internacional.

A penetração cultural do modo de vida capitalista nas sociedades é uma expressão de hegemonia do capital, consolidada em solo estadunidense e expandida pelo globo terrestre. A classe capitalista norte-americana soube compartilhar ganhos com as classes dominantes de outros países e ampliar, assim, sua influência sobre os rumos da ordem mundial.

 

DA DOMINAÇÃO LINGUÍSTICA

Um dos aspectos englobados pela discussão da dominação cultural, é a dominação lingüística. A língua, como elemento cultural, exerce importante papel na formação das identidades. Muito mais do que um simples código de palavras utilizado como ferramenta de comunicação entre as pessoas, o idioma representa um modo específico de interpretar o mundo. As evoluções das diferentes formas lingüísticas acompanharam a evolução de suas respectivas civilizações e o fenômeno da internacionalização de uma língua não pode ser entendido isoladamente dos fenômenos políticos e econômicos que a sustentam.

Entende-se por língua internacional, no meio acadêmico do estudo da lingüística, aquela utilizada por pessoas de diversas origens para comunicarem entre si. Nas RI contemporâneas, testemunhamos a proeminência de algumas línguas, que ganham a qualificação de línguas internacionais e ocupam posição privilegiada nas políticas de ensino de línguas ao redor do globo.[26]

A existência de uma língua internacional é importante para suprir a necessidade por entendimento comum nos assuntos de relevância internacional: viagens, política, negócios, defesa, tecnologia e ciência. [27] Mas a forma como isto se dá encontra interpretações divergentes. Opõem-se aqueles que acreditam na difusão de uma língua em virtude de sua facilidade e capacidade gramatical e aqueles que interpretam a difusão de uma língua como expressão da penetração política e econômica de uma cultura sobre as outras.

J. M. Mitchell argumenta que o status alcançado pelo inglês nas RI é um acidente feliz. Segundo ele, o inglês se transformou em língua internacional em virtude de sua facilidade gramatical; do fato de utilizar o alfabeto mais conhecido; e por sua capacidade de assimilar itens lingüísticos de qualquer outra fonte.

O ex-funcionário do British Council defende que o inglês representa a liberdade de expressão. Em suas palavras

 “it provides an escape from social constrains and artificial boundaries into the wider world of brand names, pop music, glossy magazines, and television soap opera, where collective dreams move towards realization”[28]

Nesta mesma linha de raciocínio encontra-se o pensador americanista Tunstall. Este, assim como o britânico, acredita que a língua inglesa ganhou o mundo por ser dotada de características como flexibilidade, concisão, pragmatismo e modernidade. O inglês, assim, seria o representante natural do processo de globalização. [29]

Já conhecemos esta sorte de argumentos na apresentação sobre a dominação cultural. Mitchell e Tunstall são membros de sociedades anglofonas e defendem a expansão de seu idioma como o melhor capacitado para as comunicações internacionais. Porém, da mesma forma como no âmbito da cultura em geral, o debate lingüístico também apresenta outras leituras que consideramos mais apropriadas para tecer compreensão sobre o fenômeno da internacionalização do inglês.

Pierre Bourdieu afirma que a língua não é somente um instrumento de comunicação, mas também o é um instrumento de poder. Relações de poder, por sua vez, exigem legitimidade.  Na construção das nações, a unidade política e econômica trouxe consigo a prevalência de um idioma sobre os outros. O sistema de ensino e as práticas da administração pública operam no sentido de promover uma língua em detrimento das outras. [30]

A atual situação de predominância do inglês no mundo assenta-se no fenômeno da diglossia, que significa a convivência de duas línguas na mesma sociedade; não ocorrendo justaposição, mas divisão de funções. Segundo Renato Ortiz, a mundialização do inglês é compreensível como diglossia em escala mundial. A presença da língua em diversos setores da atividade humana internacionalizada confere ao inglês uma situação de segunda língua. A língua passa a fazer parte do cotidiano das pessoas em assuntos de relevância internacional suprindo as necessidades de comunicação entre povos, já apontadas anteriormente.

Voltando a Bourdieu, temos que o sociólogo francês examina a emergência desta diglossia mundial como fruto da ampliação do mercado lingüístico. Localizado, inicialmente, no território nacional, esse se expandiu em dimensão transnacional acompanhando a expansão das fronteiras da sociedade de consumo. O idioma é internacionalizado concomitantemente à internacionalização dos veículos de comunicação de massa e exportação de produtos culturais. Lembremos que toda a dimensão cultural das relações internacionais ganha importância com o advento da comunicação sem fronteiras e sua prática massiva.

Tomlinson admite a existência da dominação cultural na questão lingüística. Ele aponta para a predominância das publicações em línguas européias ao redor do globo. Em um processo que se retro alimenta, novas publicações em inglês, só para citar nosso objeto de estudo, sempre contribuem para o fortalecimento da língua. Neste contexto, muitas vozes são caladas e muito do que é pensado em outros idiomas simplesmente não é compartilhado como conhecimento entre todos os povos. [31]

O problema apontado por Tomlinson a ser resolvido é o acesso das nações e culturas à voz no mundo; conseguir espaço para manifestar seu pensamento. Ele argumenta que o problema do acesso à voz no mundo é uma questão de mercado. Quanto maior o mercado de uma língua, maior o número de publicações. É um processo que cria um ciclo vicioso. O número de publicações aumenta em virtude do número de leitores e o número de leitores tende a aumentar buscando acesso àquelas publicações, ou seja, novas pessoas aprendendo inglês para escrever e ler no idioma.

Assim como na discussão sobre cultura em geral, os globalistas entendem que o processo de globalização assenta-se em interesses políticos e econômicos que possibilitam a conquista de uma legitimidade ampliada por parte de uma modelo cultural específico.  E, da mesma forma, fogem à responsabilidade de apresentar as origens deste processo de legitimação.

O lingüista dinamarquês Robert Phillipson, por sua vez, afirma que o status atual do inglês é fruto da expansão política e econômica dos países que o têm como língua mãe. Ele inaugura o termo imperialismo lingüístico, que, similarmente ao imperialismo cultural, diz respeito à penetração de um elemento cultural de um povo em outros, carregando consigo valores peculiares e buscando estabelecer dominação via consenso, ou seja, estabelecimento de hegemonia. [32]

A estrutura de políticas sobre línguas do presente, com a qual lidamos, é resultado de um processo histórico de dominação lingüística, originado da conquista, da subjugação militar e política e da exploração econômica. Nas palavras do estrategista espanhol da era das navegações, Nebrija: “A língua foi sempre a companheira de um império, e sempre permanecerá sua parceira”[33]. E a posição ocupada pelo inglês, o francês, o espanhol e o português no mundo contemporâneo mostra, claramente, com quanto sucesso se deu a imposição lingüística do período colonial.

Potências colonizadoras jamais reconheceram que as línguas e as culturas, além das suas próprias, representavam valores e direitos. A expansão político-econômica das potências européias acarretou na aniquilação de várias culturas e hoje testemunhamos o processo de expansão sem precedentes da cultura anglo-saxã.

De forma mais sutil que no passado, o inglês é difundido atualmente pelo mundo não pela força, mas pela idéia de inevitabilidade da adequação desta língua como a língua internacional por excelência. Mas nenhuma língua nacional pode se arvorar o direito de ser a língua internacional por excelência. Esta concepção de hoje tem suas bases nas eficientes políticas britânicas e estadunidenses de criação de ampla infra-estrutura educacional para difundir mundialmente o inglês. Estados que resistem à difusão do inglês são tachados de sofrerem do “arcaico orgulho nacional”.

A expansão do idioma pelo mundo se deve a duas concepções fundamentais defendidas desde o início do século e reafirmadas oficialmente na “Anglo-American Conference in English Teaching Aboard”, em 1961, a saber: o ensino de inglês para povos não anglofonos é importante ferramenta do processo de desenvolvimento dessas nações; e a necessidade de consolidação da auto-suficiência dos países receptores no ensino da língua através da utilização de recursos dos países anglofonos em parceria com as sociedades locais. [34]

A difusão do inglês nas últimas décadas vem sendo reforçada pela concepção de educação global. Esta educação global significa a padronização dos métodos educacionais visando assegurar a qualidade de educação e formação de indivíduos aptos para o mercado de trabalho internacionalizado. Esta visão de educação, segundo Phillipson, pressupõe duas classes de pessoas: anglofonos monolíngües e os demais, bilíngües. É, sem dúvida, uma receita para regredir o mundo a um estado no qual tudo de valoroso é gerado em uma única língua. [35]

Como observa Nye, o pioneirismo dos Estados Unidos na utilização das novas tecnologias de comunicação sem fronteira também contribuiu para a expansão da língua. O inglês, atualmente, é o idioma de 80% das páginas da internet. [36]

Lembrando de Gramsci, temos que as línguas ganham status hegemônico nas sociedades em função das relações políticas em seu interior. E sua utilização é relativa ao grau de influência dos grupos que a defendem na coletividade.

O regime lingüístico atual, pois, reflete um poder político antes que um princípio de igualdade ou eficácia. A ONU trabalha com seis línguas oficiais, a saber: O inglês, o chinês, o russo, o francês, o espanhol e o árabe. Ou seja, estão representados os membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização mais um grande colonizador e os donos do petróleo. Se já é restrita em termos de sua legislação, a ONU é mais restrita ainda em termos práticos, uma vez que o inglês é a língua praticada de facto.[37]

As instituições de Bretton Woods (Banco Mundial e FMI) defendem políticas do paradigma difusão do inglês[38]. Mantendo nos países da periferia do mundo capitalista a influência cultural herdada do colonialismo. Na África, por exemplo, a ajuda no campo educacional reflete a crença lingüística de que somente as línguas européias são adequadas ao desenvolvimento das economias e das mentalidades africanas. As relações econômicas internacionais influenciam diretamente a distribuição de recursos oferecidos ao ensino de uma língua em detrimento de tantas outras. [39]

Comparada à ONU, a União Européia (UE) é mais democrática em sua política lingüística, pelo menos em termos de legislação. Na prática, porém, línguas de Estados poderosos são privilegiadas frente às outras. O discurso afirma que a diversidade cultural e lingüística deve ser conservada, mas na prática o inglês, também na UE, exerce grande impacto sobre as outras línguas. [40]

Mesmo entendendo que o inglês representa uma ameaça aos seus valores culturais e lingüísticos locais, grandes economias da Europa utilizam a língua e promovem programas agressivos de aprendizado da língua inglesa. Os franceses debatem isoladamente o tema, mas lutam em causa própria e tampouco são partidários da democratização efetiva nem da ONU nem da UE. Tomado o planeta e seus diversos países na totalidade, resultados empíricos demonstram que o inglês e o francês são os idiomas dominantes. Europa do norte fala inglês; Europa meridional fala francês. Inglês predomina, também, no leste europeu e nas outras áreas do globo. [41]

Como conseqüência da preponderância de uma língua sobre as outras nas RI, Mitchell, mesmo acreditando na “missão libertadora do inglês”, argumenta que os países que necessitam da utilização de uma língua estrangeira para a comunicação internacional possuem uma desvantagem frente àqueles cuja língua é privilegiada. Os países cujas línguas são amplamente faladas têm a vantagem de possuírem meios de comunicação internacional prontos, enquanto os demais são impelidos a investirem no ensino das línguas estrangeiras. E, quando não o fazem, sua desvantagem é salientada pela limitada habilidade de penetração de seus agentes intelectuais, comerciais e políticos em outros sistemas de pensamento.

Fundamentando o problema em bases teóricas de relações internacionais, assim como no quesito da dimensão cultural em geral, faz-se bastante apropriada a utilização dos conceitos neogramscianos. Compreendendo a expansão do sistema capitalista como a expansão de um quadro de valores específico pode-se compreender também a expansão do idioma. A língua simboliza uma forma específica de interpretação do mundo e sua afirmação requer vontade da sociedade civil e ação do Estado.

O modelo de produção internacionalizado penetrou os diversos aparelhos estatais e conectou as forças sociais neles presentes às relações sociais de produção também internacionalizadas. Esta sociedade civil global é unida pela necessidade de utilizar uma linguagem comum e o inglês, língua mãe dos pioneiros da internacionalização da produção, assumiu este papel.

Os professores de inglês têm um papel fundamental neste concerto. Pois, como sabemos, a educação executa função essencial no processo de consolidação de hegemonias. Para alcançar o consenso de que o inglês é, inquestionavelmente, a ferramenta mais eficiente de comunicação internacional professores anglofonos nativos ou não, unidos por este discurso dominante, difundem mundo afora a inevitabilidade do aprendizado para o acesso ao mercado de trabalho e possibilidade de contato com o que há de mais atual em termos de pesquisas e idéias. [42]

Hegemonias são conquistadas através de ações no âmbito da sociedade civil, e o intelectual é parte importante na formação do pensamento de uma dada sociedade. O docente de línguas pode ser considerado parte da sociedade civil global tal qual teorizada pelos neogramscianos, uma vez que a repercussão de seus atos transcende os limites das fronteiras nacionais. A profissão de professor de inglês pode ser considerada uma classe profissional de caráter verdadeiramente transnacional, por comungar valores e métodos de trabalho globalmente.

A hegemonia do inglês nas RI contemporâneas se dá, pois, pela via da inevitável necessidade de seu aprendizado. Sendo a língua do capitalismo, expandiu-se aos quatro cantos do globo terrestre acompanhando, sobretudo, a expansão sem precedentes da economia norte-americana e do American way of life no último século.

 

CONCLUSÃO

Este breve estudo buscou apresentar a discussão sobre a dimensão cultural nas relações internacionais e o resultado de dominação cultural que hoje caracteriza as relações culturais internacionais. Elemento pertencente ao debate cultural, a questão da língua internacional apresenta-se como um problema que reflete as assimetrias nas RI contemporâneas.

Estimulada pela expansão colossal da cultura norte-americana, a discussão sobre imperialismo cultural traz como importante contribuição a perspectiva de que a forma como se dão as relações culturais internacionais não é mero fruto do acaso. Mas é, sim, resultado de políticas culturais externas e ações da sociedade americana.

A internacionalização da produção, a integração das cadeias produtivas, levou ao mundo um modelo peculiar de relações de produção.  O qual levou consigo não apenas novas tecnologias de produção, mas também uma forma de interpretar o mundo. A língua inglesa foi difundida oficialmente para se tornar a língua internacional que hoje muitos buscam aprender.

É verdade que no mundo desigual que vivemos ainda existem milhões de pessoas completamente ignorantes sobre o idioma; e que, por outro lado existem alguns milhares de indivíduos que dominam várias línguas. Mas o fato é que, aqueles cujo interesse é capacitar-se para o competitivo mercado de trabalho, e que almejam oportunidades de trabalho com boa remuneração, têm no inglês uma condição sine qua non  de qualificação profissional.

Sustentado no poderio econômico e político dos EUA, o idioma foi difundido pelos quatro cantos do mundo e, com ele, seu estilo de vida e organização social. Quando estamos em uma sala aprendendo inglês, aprendemos também sobre o cotidiano das pessoas dos países anglófonos e absorvemos sua cultura e forma de enxergar o mundo.

É preciso deixar claro que não me oponho ao aprendizado do inglês, nem temo o desaparecimento das outras línguas nacionais, mas faço objeção à situação atual de “unilingüismo” que ocorre em detrimento do multilingüismo. Este é um grande problema para os entendimentos internacionais, por ser uma via de mão única, uma vez que o interesse dos anglófonos nativos em aprender outra língua é mínimo. Além disso, a quase exclusividade gozada pelo inglês nas publicações de interesse internacional limita o intercâmbio de idéias, visto que muita riqueza artística e científica produzida em outros idiomas é marginalizada.

 


[1] COOMBS, Philip. The fourth dimension of Foreign Policy: educational and cultural affairs. New York: Harper & Row, 1964

[2] NYE, Joseph. O Paradoxo do Poder Americano.  São Paulo: Unesp, 2003.

[3] MITCHELL, J. M. International Cultural Relations. London: Allen & Unwin, 1986.

[4] MITCHELL, op. cit., p. 7.

[5] NYE, op. cit.

[6] HERZ, Mônica. A dimensão cultural das Relações Internacionais: proposta teórico-metodológica. In Contexto Internacional, nº. 6,  junho/dezembro 1987

[7] TOMLINSON, John. Cultural Imperialism:  a critical introduction. Baltimore: The John Hopkins University Press, 1991.

[8] MORGENTHAU, Hans. Política Entre las Naciones: la lucha por poder y la paz. Buenos Aires: GEL, 1992

[9] ORTIZ, Renato. Revisitando la noción de imperialismo cultural. In Salvatore, Ricardo. Culturas Imperiales: experiência y representación em América, Ásia y África. Rosário: Beatriz Viterbo, 2005.

[10] COX, Robert W. Gramsci, Hegemony and International Relations: an essay in method. In Linklater, Andrew. International Relations: critical concepts in political science, v III, p.1207-1222, London & New York: Routlegde, 2002 ;  e

MORTON, Adam David Structural change and neoliberalism in México: ‘passive revolution’ in the global political economy. In Third World Quarterly, vol 24, n 4, p.631-653, London: Carfax Publishing, 2003

[11] MATTELART, Armand. A globalização da comunicação. Bauru: EDUSP, 2002

[12] ORTIZ, op. cit., 2005

[13] ORTIZ, Renato. Mundialização e cultura. São Paulo: Brasiliense, 1998.

[14] ORTIZ, op cit. 1998, 2005

[15] TOMLINSON, op. cit.

[16] TESCHKE, Benno. Theorizing the Westphalian System of States: International Relations from Absolutism to Capitalism. In European Journal of International Relations, Vol. 8(1), p 5–48,  2002. 

[17] GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Edição e tradução de Carlos Nelson Coutinho, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004 (6 v)

[18] HERZ, op. cit., p. 65.

[19] HERZ, op. cit.

[20] GRAMSCI, op. cit.

[21] COX, Robert W. Social Forces, States and World Order: Beyond International Relations Theory. In  Keohane, Robert (ed.). Neorealism and its critics., p.204-254 New York: Columbia University Press, 1986

[22] MURPHY, Craig. Understanding IR: understanding Gramsci. In Review of International Studies, 24, p.417-425, London: British International Studies Association, 1998. ; e

RUPERT, Mark. (Re)Engaging Gramsci: a response to Germain and Kenny. In Review of International Studies, 24, p.427-434, London: British International Studies Association, 1998.

[23] SCHILLER, Herbert. Communication and cultural domination. New York: M.E. Sharpe, 1976, p. 9.

[24] FORATTINI, Oswaldo Paulo. A língua franca da ciência. In Rev. Saúde Pública, 31 (1), p.3-8, 1997;   HERZ, op. cit. ; e SCHILLER, op. cit.

[25] COX, op. cit., 1986; 2002

[26] PHILLIPSON, Robert. Linguistic Imperialism. Oxford: Oxford University Press, 1992.

[27] MITCHELL, op. cit.

[28] MITCHELL, op. cit., p.164

[29] apud ORTIZ, 1998.

[30] apud  ORTIZ, 1998.

[31] TOMLINSON, op. cit.

[32] PHILLIPSON, op. cit., 1992

[33] apud PHILLIPSON, Robert. International Languages and international human rights.  In Kontra, Phillipson, Skutnabb-Kangas, Várady (editors). Language: a right and a resource: approaching linguistic human rights. p. 25-46, Budapest: Central European University Press, 1999. p. 25

[34] PHILLIPSON, op. cit. 1992

[35] PHILLIPSON, op. cit., 1999.

[36] NYE, op. cit., p. 115.

[37] PHILLIPSON, 1999.

[38] O lingüista Yukio Tsuda apresenta a existência de dois paradigmas de educação global concorrentes: um centrado na difusão do inglês e outro centrado na noção de ecologia das línguas. O primeiro é o que privilegia o idioma inglês como língua franca das relações internacionais; o outro se fundamenta no multilinguísmo, respeito aos direitos humanos, igualdade no acesso à comunicação, preservação de línguas e culturas, e, obviamente, incentivo ao aprendizado de outras línguas além do inglês. (Tsuda, 1994)

[39] PHILLIPSON, 1999

[40] PHILLIPSON, op. cit. , 1999.

[41] PHILLIPSON, op. cit., 1999.

[42] ZACCHI, Vanderlei. Discurso, poder e hegemonia: dilemas do professor de língua inglesa. Dissertação de Mestrado. Instituto de Estudos da Linguagem, UNICAMP, 2003. ; ePHILLIPSON, op. cit., 1992.

 

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