Um
Freud "político"? Releituras
contemporâneas de dois clássicos
FREUD, Sigmund. “Considerações Atuais
Sobre a Guerra e a Morte” (1915).
_____. “Mal-Estar na Civilização”
(1930).
Por Dawisson Belém
Lopes
Poder-se-ia
postular que as “Considerações Atuais Sobre a Guerra e a
Morte” (1915) são a centelha conjuntural que induziu,
oportunamente, à redação do ensaio sobre o “Mal-Estar na
Civilização” (1930) – este último, mais sistemático e
teórico em sua forma de apresentação. A tentação de fazê-lo
seria grande. Mas é mais prudente a ela resistir, já que, a
rigor, a relação existente entre os dois textos, além de
menos esquemática, é também indireta. Tanto as “Considerações”
quanto o “Mal-Estar” integram um esforço reflexivo mais
amplo de seu autor. Constituem a chamada “psicologia
social” freudiana, inaugurada com Totem e Tabu,
escrito de 1913.
As conexões
entre os dois textos selecionados, apesar de não imediatas, são
evidentes. Ambos buscam respaldo na teoria da cultura de
Freud, partindo da crença de que muitas das neuroses
enfrentadas pelo homem contemporâneo explicam-se através do
exame dos hábitos do homem primitivo.
A exploração das ambigüidades humanas é marcante na psicanálise
freudiana. Os conflitos revolvem em torno de temas como o amor
e a morte, o desejo e o temor, a civilização e a barbárie.
O objetivo de Sigmund Freud, nos textos aqui resgatados, é
decifrar as profundezas (inatingíveis) da mentalidade dos
indivíduos, para além das “camadas” produzidas pela
cultura; e entender como tais aspectos mentais projetam-se
coletivamente, na vida das sociedades políticas. Trata-se de
tarefa intelectual que, dificilmente, poderia ser empreendida
por um pensador qualquer. Donde deriva a alegação da
originalidade do pensamento de Freud, bem como a motivação
para atribuir-lhe a pecha de “gênio” do século XX.
*
As “Considerações”
estão divididas em duas partes. Na primeira delas, “Nossa
Decepção Diante da Guerra”, Freud inicia por resgatar
alguns aspectos da Antigüidade clássica que, segundo a sua
percepção, ajudariam a compreender o comportamento humano
antes e durante a primeira Grande Guerra.
O tropo “civilização-barbárie” faz-se presente
discursivamente, sobretudo quando se nota que, em tempos como
os nossos, o estrangeiro ainda é, a despeito das expectativas
contrárias da Civilização,
associado à condição de inimigo. Embora se pudesse
crer que a miscigenação entre os povos anularia qualquer traço
de intolerância étnica ou cultural, o que se viu foi o
derramamento de sangue em nome de supostas identidades
coletivas, as quais, dificilmente, tinham algum lastro biológico,
científico. O princípio da civilização ruiu a partir da
eclosão da I Grande Guerra.
Mas o motivo
para a referida decepção encontra-se na ruptura ética
representada pela I Guerra: “Não é apenas a mais sangrenta
e a mais mortífera entre todas as [guerras] passadas (...).
Infringe todas as limitações que os povos se impuseram em
tempos de paz”. A I Guerra simbolizava, àquele momento em
que as “Considerações” eram escritas, a falência do
Direito Internacional e de suas variações (direito humanitário,
direito da guerra) ante a dinâmica cruenta da política
internacional. Distinções como aquela entre alvos militares
e civis eram deixadas de lado, como se, após a guerra, não
houvesse de existir um futuro de paz entre os homens.
O maior paradoxo
salientado por Freud diz respeito à relação entre Estado e
indivíduo. Os indivíduos são costumeiramente representados
por seus Estados, os quais, por sua vez, são representados
por governos. O Estado proíbe o seu indivíduo de cometer
injustiça e violência – não por sabedoria ou honradez,
senão para manter seu monopólio do recurso à força e da
fabricação da justiça. Esse mesmo Estado empregará todas
as armas contra o seu inimigo, entre as quais: astúcia,
mentira, indução consciente a erro. De outro lado, exigirá
de seus cidadãos o máximo de obediência e abnegação. Ora:
como demandar da população tamanha retidão moral e devoção
patriótica se o Estado, ele mesmo, é o primeiro a faltar com
a verdade e censurar as comunicações e a livre expressão de
opiniões?
Assim, a ruptura
ética que tanto incomoda o autor, no momento da redação do
ensaio, desdobra-se em dois aspectos empíricos: a escassa
moralidade exterior do Estado e a brutalidade da conduta dos
indivíduos. Esses aspectos complementam-se, alimentando-se um
do outro. A explicação para tal – e aqui Freud introduz
uma premissa substantiva da sua teoria psicanalítica – está
no fato de que a essência mais profunda do homem consiste em
“impulsos instintivos de natureza elementar, iguais em todos
e tendentes à satisfação de certas necessidades
primitivas”. Os impulsos, que não são bons ou maus per
se, não podem ser sempre contidos – nem por códigos
legais, nem por elaborações morais ou religiosas. Fazem
parte de um certo fundo amoral (isto é, que sequer
conhece as considerações morais) da natureza humana.
Quando o homem
consegue domá-los, surge aquilo a que se chama de “caráter”.
Essa etapa corresponde, geralmente, à passagem da infância
– momento em que os impulsos considerados maus estão mais
intensamente presentes – à vida adulta – estágio em que
o homem passa a buscar o Bem. Dessa maneira, crianças egoístas
e cruéis podem vir a ser adultos altruístas e generosos. O
componente incidente sobre o processo, que explica a mudança,
é a necessidade humana de amor, que faz com que os instintos
egoístas transformem-se em sociabilidade. O sentir-se amado
é percebido como vantagem que compensa a renúncia a outras
vantagens advenientes do comportamento egoístico. Por isso, o
erotismo é considerado por Freud como a grande força de
socialização dos indivíduos, capaz ele mesmo de converter
egoísmo em “disposição para a cultura”.
Esse sujeito que
é forçado a reagir conforme preceitos de sociabilidade –
em contrariedade, portanto, com os seus instintos – é
indutor do fenômeno da hipocrisia generalizada nas modernas
sociedades humanas. Freud chega a arriscar a hipótese de que
alguma dose de hipocrisia talvez seja necessária para a
conservação da cultura; podendo uma vida vivida em consonância
com a “verdade psicológica” desencadear efeitos
devastadores, para além de qualquer possibilidade de
estabelecimento/manutenção da ordem social.
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Causa perturbação ao autor a atitude dos homens
civilizados diante da morte. Embora, no fim das contas,
trate-se de uma sabida inevitabilidade, esta costuma ser
encarada, em geral e no mais das vezes, como o produto da (má)
sorte. Ora: se se trata de fado inescapável, não há por que
nos surpreendermos com a ocorrência da morte. Parece, a
julgar pelas reações a que assistimos, que estamos, no
fundo, convencidos de nossa imortalidade, por ilógico
que isso possa ser. Freud nota, todavia, que a guerra calhou
de restituir à morte o seu sentido pleno. “A vida se há
tornado interessante novamente” – comenta. Se o homem
civilizado “negou” a possibilidade da morte, reduzindo-a
ao nada, o homem em guerra – despojado de
determinados freios sociais e, por conseguinte, reconciliado,
sob vários aspectos, com a sua condição primitiva – volta
a conceber a morte como destino iminente, real, verossímil.
O autor propõe que a origem da Psicologia esteja
associada ao conflito sentimental emergente da assimetria
entre a morte de entes queridos e a de indivíduos estranhos
ou odiados. Em face de tal conflito, o homem já não pode
mais permanecer alheio – porque, afinal, experimentou a dor
profunda de ver mortos os seus. A solução encontrada
pelos primitivos foi a admissão da instituição da morte
propriamente dita, mas a negação da morte como aniquilação
do sentido. Donde a in(ter)venção dos espíritos.
Mais adiante, as religiões institucionalizadas
racionalizaram/re-significaram a morte, convertendo-a em um
estágio mais valioso e completo, comparado à existência
mundana. Esta se viu transformada em mera preparação para a
existência póstuma. Para Freud, foi diante do cadáver do
ser amado que nasceram os primeiros mandamentos éticos.
Paulatinamente, a culpa do homem em relação à morte do ente
querido estendeu-se ao estranho e ao inimigo,
universalizando-se. O mandamento principal dessa consciência
civilizacional nascente foi o proverbial “não matarás”.
Não obstante, Freud sugere que a própria ênfase no
mandamento “não matarás” oferece-nos comprovação de
que descendemos de uma longa linhagem de assassinos.
Faz parte desse “inconsciente assassino”, por exemplo, ações
aparentemente inofensivas mandar aqueles que nos incomodam
“para o inferno” ou “para o diabo”.
Freud resume a cadeia de ambigüidades humanas da
seguinte maneira: nosso inconsciente é tão inacessível à
idéia da morte, tão sanguinário em relação aos estranhos,
e ambivalente em relação às pessoas queridas, quanto o foi
o homem primitivo. Porém, seria equivocado imaginar que
continuamos no rastro daquele perfil antropológico. A
civilização nos obrigou ao heroísmo. Temos de suportar a
vida – é o nosso dever primeiro. E, se queremos a vida,
estejamos preparados para a morte. A guerra é etapa inevitável.
***
Em “O Mal-Estar na Civilização”, Sigmund Freud
discorre mais demoradamente sobre o que entende por civilização.
Num primeiro contato com a obra, poder-se-á até depreender
uma apologia freudiana do primitivismo. Haja vista que, após
constatar que o ser humano nunca dominará completamente a
natureza – e que o próprio organismo do homem integra
essa natureza, contando com limitada capacidade de adaptação
e realização –, o autor sugere que aquilo a que chamamos
de “civilização” seria, de fato, o responsável maior
por nossa desgraça, por nossa infelicidade, por nosso
presente mal-estar.
Freud propõe que a raiz de todas as neuroses contemporâneas
é a frustração sentida pelo indivíduo que não consegue se
impor, e é enquadrado pelos ideais culturais da coletividade.
Uma solução para tanto seria a redução das demandas da
sociedade, de um modo tal que os indivíduos pudessem
expressar-se/manifestar-se mais livremente. Este mesmo homem
que se vangloria das conquistas sobre o tempo e o espaço não
se dá conta de que, a rigor, a ilusão do domínio não lhe
trouxe mais felicidade. Controlar a natureza não é, e nem
poder ser, o maior objetivo de uma vida sã. Afinal, “de que
nos vale uma vida longa, se ela se revela difícil e estéril
em alegrias, e tão cheia de desgraças, que só a morte é
por nós percebida como libertação?”
A palavra “civilização”, para Freud, condensa a
soma de todas as realizações e regulamentos que distinguem
nossa vida da de nossos antepassados. Realizações e
regulamentos – as faces positiva e negativa de uma mesma
moeda – são gerados para proteger o homem da natureza. Ora:
numa existência civilizada, a natureza é essencializada, a
fim de que possa ser apreendida,
controlada. Ademais, a civilização também implica beleza,
asseio e ordem. Provoca Freud: não se imagina William
Shakespeare a redigir sonetos num casebre – repleto de
esterco – de uma cidade do interior da Inglaterra. A sujeira
e a feiúra sempre nos parecerão de todo incompatíveis com o
ideal da civilização. Além do quê, o homem civilizado é
ordeiro. A ordem é uma compulsão que se repete até o ponto
de transformar-se em regulamento. Os benefícios da operação
são incontáveis, pondera Freud. O intuito da criação da
ordem é poupar o homem do estorvo da hesitação. Beleza,
limpeza e ordem, portanto, ocupam posição destacada no rol
de exigências de uma cultura civilizada. Resgatam o ser
humano de um indesejado (e, por assim dizer, literal)
“estado de natureza”.
A liberdade do indivíduo não é um objetivo da
civilização. Antes, o inverso: “a civilização é construída
sobre uma renúncia ao instinto”.
Ela pressupõe a não-satisfação de impulsos humanos
poderosos. E, como adverte Sigmund Freud, não se pode
proceder impunemente com tamanha privação. “Se a perda não
for compensada (...), pode-se ficar certo de que sérios distúrbios
decorrerão disso”. Esta é a civilização que aprisiona,
seja econômica, seja psicológica, seja sexualmente. A
instituição da monogamia é um indício de tal tendência
social.
Freud argumenta que a consciência surge através
da repressão de um impulso agressivo.
O sentimento de remorso é uma espécie de remissão à culpa
original sentida pelo homem. Tratar-se-ia da ambivalência
primordial, ou seja, de como o filho, a um só tempo, odiava e
amava o seu pai. Vem novamente à tona o conflito entre Eros e
a Morte – e é dele que resulta a culpa, o motor freudiano
da História. O autor entende que o maior problema no
desenvolvimento da nossa civilização reside justamente na
perda de felicidade pela intensificação do sentimento de
culpa. Sentimo-nos culpados por não atendermos às exigências
civilizacionais. Sentimo-nos angustiados, com medo do nosso superego
repressor. Donde o corrente mal-estar.
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A maior de todas
as dificuldades apontadas pelo autor, no bojo das “Considerações”
e do “Mal-Estar”, relaciona-se com o equacionamento entre
a agressividade inerente ao homem e o necessário processo de
socialização a que ele se encontra submetido. Quanto mais
tentamos nos defender dessa nossa agressividade (por intermédio
dos construtos da civilização) – sugere Freud –, mais
mal aparentamos causar a nós mesmos. E o desalentador é
perceber que, muito provavelmente, se trata de um círculo
vicioso, sem volta.