


Intensamente supérfluo
– Outro dia mesmo era Jorge Coli quem reclamava
do vício de buscar nas miudezas da vida cotidiana
explicações para fenômenos mais amplos da vida pública.
Segundo o articulista, pouco importava a cor do par de
meias vermelhas que Adolf Hitler usava – supondo que
as usasse – no “Dia D”. A História não há de
ter sido impactada pela estranha preferência cromática
incorporada ao vestuário do Führer. Mas o ponto é
que, da perspectiva do meio editorial, essas questões
relevam. Sobretudo porque, em uma economia de mercado,
é razoável disponibilizar títulos que evoquem temas
de interesse popular. E, pelo que parece, há momentos
e contextos vários em que as miudezas mostram-se
muito mais aptas a saciar o appetitus societatis
do que as narrativas graves, sisudas,
“substanciosas”.
Cabra tinhoso – Extraído da premiada
biografia “Mao: a história desconhecida”, de Jung
Chang e Jon Halliday (Companhia das Letras, 2006):
“...
Na manhã em que [Richard] Nixon chegou, Mao [Tsé-tung]
estava tremendamente excitado e perguntava sobre todos
os detalhes. Assim que soube que ele havia chegado à
residência de hóspedes, a Vila de Pesca Imperial,
disse que queria vê-lo de imediato. Nixon
preparava-se para entrar no chuveiro quando Chou
[Enlai, líder do partido comunista chinês],
comportando-se ‘com leve impaciência’, observou
[o secretário de Estado americano Henry] Kissinger,
pediu que se apressassem. (p. 714)
“...
Durante o encontro relativamente curto de 65 minutos
(o único entre Nixon e Mao nessa viagem), Mao evitou
todas as tentativas de falar sobre questões sérias.
Não porque estivesse doente, mas porque não queria
deixar um registro de suas posições nas mãos dos
americanos. Nada deveria prejudicar a sua alegação
de ser o líder antiamericano global. Havia convidado
Nixon a Pequim para promover essa alegação, não
para desistir dela. (p. 714)
“...
Mao interrompia Nixon para fazer observações como:
‘Nós dois não devemos monopolizar todo o show. Não
estará certo se não deixarmos o dr. Kissinger ter
uma palavra’. Isso transgredia tanto o protocolo
quanto as regras de polidez e significava
definitivamente um desrespeito a Nixon. Mao jamais
teria ousado falar desse jeito com Stalin.” (p. 715)
E já que amor com amor se paga, conta-se que o
comentarista político William Buckley tratou de fazer
as honras ianques. Ao notar que não havia gente
(pessoas, indivíduos, seres humanos) nos locais públicos
a que era levado, perguntou, com muito pouca
ingenuidade, a um dirigente chinês: “mas onde está
o povo?”. Para o seu deleite, a resposta ouvida foi:
“Que povo?”; ao que Buckley arrematou: “O povo,
aquele da República Popular da China”. Touché!
2010 é logo ali – Que o diga um certo
presidente da República, que habita terra paradisíaca,
edênica, abençoada pelos deuses, bem nos confins da
civilização...
Detenho-me na ironia. A alusão é a Lula,
evidentemente. Para melhor entendê-la, convém
consultar o diário de bordo dos viajantes Eduardo
Scolese e Leonencio Nossa – repórteres de Folha
de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, nessa
ordem. O roteiro é bem conhecido: os jornalistas
cobriram, a bordo da comitiva real, os deslocamentos
de Luiz “Viajandácio” Lula da Silva, Brasil e
mundo afora. O que há de instigante em “Viagens com
o Presidente” (Ed. Record, 2006) são os relatos de
bastidores. A conversa de pé de ouvido, as piadinhas
internas, a coleção de palavrões e sutilezas mastodônticas,
as explosões temperamentais do homem Luiz Inácio –
em suma, o jeitão cordial, concebido à la Sérgio
Buarque de Holanda, de Lula. Sobre o jogo político
para o próximo ciclo eleitoral, uma deixa preciosa,
colhida nas páginas deste lançamento editorial. Lá
pela página 242, um diálogo é transcrito. Nesse,
Lula e dr. Rosinha [deputado petista paranaense]
conversam, a caminho de Montevidéu, sobre o
parlamento do Mercosul:
“ – Meu caro, como vai ser a escolha dos
parlamentares?
O
deputado petista explica ao presidente que, em 2007, a
idéia é escolher deputados eleitos em seus
respectivos países para integrar o Parlamento. Em
2010, então, é que escolheriam os integrantes específicos
para o Legislativo do Mercosul.
–
Ótimo. Aí, sim, eu vou poder disputar uma vaga nesse
parlamento.”
Conflito israelo-palestino por Elie Wiesel
– O prêmio Nobel da literatura Elie Wiesel elabora,
no volume “Homens sábios e suas histórias”
(Companhia das Letras, 2006), retratos de mestres da Bíblia,
do Talmude e do hassidismo. E é no recontar da
narrativa bíblica que opõe os irmãos Isaac e Ismael
que uma teia de relações humanas inexploradas vem à
tona. Trata-se justamente de parte da mitologia que
envolve o exasperante conflito entre israelenses e
palestinos. A profecia é velha, com nova roupagem. A
alegação é de que por Abrão ter gerado um filho
fora de seu casamento, os dois povos – Israel e
Palestina –, descendentes diretos de Isaac (o filho
legítimo, com Sara) e Ismael (o bastardo, filho da
serva Agar), estariam eternamente condenados a
disputar entre si.
Impressiona a habilidade de Wiesel em passar
julgamentos éticos sem sucumbir ao moralismo.
Impressiona mais ainda a tessitura da história de
vida do casal Abraão e Sara, nas linhas de Wiesel.
Excelente reflexão.
Amigos, amigos; negócios conjuntos
– Amizade nascida nas estertores da II Guerra foi
aquela entre Churchill e Roosevelt. O próprio título
da obra que aqui comentaremos, “Franklin e
Winston” (Ed. Record, 2006, autoria de Jon Meacham),
denota a intimidade dos que se tratam pelo primeiro
nome, e não pelo sobrenome.
O livro de Meacham é caprichoso na descrição de
momentos marcantes da amizade entre os dois líderes
– Churchill e Roosevelt. Idílico, talvez – o que,
convenhamos, não combina tanto com a política
internacional à qual nos habituamos. Mas trata-se de
relato fundamental – e aqui não há exagero.
Fundamental para a compreensão dos condicionantes
personalíssimos que moviam a aliança vencedora da II
Guerra Mundial. Uma aliança que, eventualmente,
serviria de base para a constituição da Organização
das Nações Unidas. A amizade histórica que
simbolizou, para tantos analistas, o reconhecimento
inglês da supremacia americana, numa cordial passagem
de bastão. A amizade que, ainda hoje, ajuda a
entender a formação de certas coalizões, em tempos
de guerra ou de paz – seja em Davos, seja em Cabul,
seja para lá de Bagdá...
AUTORES
E OBRAS
Ø
CHANG,
J. e HALLIDAY, J. (2006), Mao: a história
desconhecida. São Paulo: Companhia das Letras.
Ø
SCOLESE,
E. e NOSSA, L. (2006), Viagens com o presidente.
Rio de Janeiro: Record.
Ø
WIESEL,
E. (2006), Homens sábios e suas histórias. São
Paulo, Companhia das Letras.
Ø
MEACHAM, J. (2006), Franklin
e Winston. Rio de Janeiro: Record.