Junho de 2007, mais uma reunião do G-8 (sigla que em
tese se refere ao grupo dos oito estados mais
industrializados do planeta – o que, no entanto, não
pode ser dito da Federação Russa) se realizou. Na
Alemanha, os líderes de alguns dos estados nacionais
considerados mais relevantes no contexto internacional
corrente tiveram 3 dias para debater questões
consideradas de relevo para “o conjunto da
Humanidade” – do aquecimento global ao combate a
grupos terroristas transnacionais. O acordo final,
saudado pela anfitriã, a chanceler alemã Ângela
Merkel, trouxe “avanços substantivos” em diversos
itens da agenda, do auxílio aos africanos ao
aquecimento global. O “diálogo contínuo” com as
cinco maiores economias do “mundo emergente”
incentivou a anfitriã a afirmar que a edição de
2007 seria marco de um processo cooperativo cujo fim não
podemos apontar.
Desde os idos da primeira reunião do então G-6
(tempos da Guerra Fria, a União Soviética – URSS
– era um problema e não um convidado à mesa; o
Canadá também não fazia parte daquele grupo à época)
encabeçada pelo gaullista francês Valéry Giscard
D’Estaing em 1975, as questões colocadas na agenda
da reunião dos estados mais industrializados do globo
mudaram, bem como mudou o próprio sistema
internacional. Um exame mais detalhado da genealogia
de tal tipo de reunião de estados soberanos, porém,
manifesta a continuidade de práticas e valores que
informa essas mudanças de agenda e do sistema
internacional.
Em 1975, os presentes à reunião representavam a
espinha dorsal do esforço “ocidental” e
“capitalista” de contraposição ao bloco
“socialista” e “oriental” (a referência
geopolítica empregada se centrava na Europa; a
contraposição de sistemas econômicos de então
opunha a Social-Democracia européia ao planejamento
estatal soviético) capitaneado pelo pluriestado soviético.
Sob
a égide dos acordos de Helsinki do mesmo ano, a
Europa se preparava para um período de paz com seus
vizinhos do Leste, podendo centrar forças no combate
ao fenômeno da estagflação que se seguiu à Crise
do Petróleo de 1973 – tanto a paz quanto a crise
econômica seriam impulsionadores do processo de
integração que conduziria à corrente União Européia.
Os Estados Unidos (EUA), nesse período de “détente”
com os soviéticos, lidavam com o rescaldo de malogros
militares no Vietnã e o impasse israelense-árabe no
Oriente Médio, além de viverem domesticamente os
estertores do acelerado processo de industrialização
militarizada que remontava à II Guerra Mundial. Na
União Soviética, recém-atingida a paridade em armas
estratégicas com os rivais estadunidenses, o modelo
filofordista de crescimento econômico planificado
começava a mostrar seus limites no canto do cisne de
Leonid Brezhnev, bem como a questão dos
nacionalismos, dentro da URSS e nos seus satélites da
Europa do Leste, lentamente emergia, o que
contribuiria decisivamente para o fim da própria
Guerra Fria na década seguinte.
Os estados da América Latina, da África, da Ásia
(com a exceção do Japão) e da Oceania não eram
partícipes do convescote de Rambouillet. Em outras
organizações internacionais, essas de cunho
universal, como a Organização das Nações Unidas
(ONU), os estados do então Terceiro Mundo,
especialmente os ditos “não-alinhados” com os EUA
e tampouco com a URSS, lutavam por uma nova ordem econômica
internacional (NOEI), condenavam o ranço colonialista
europeu e a corrida armamentista das superpotências.
Processos de integração regional como a ALADI na América
Latina e a Organização da Unidade Africana buscavam
alavancar o crescimento econômico no Terceiro Mundo.
A mesma preocupação econômica informava a concertação
do “centro” e da “periferia” do sistema
internacional, evidenciando um segundo “eixo” simbólico
nas Relações Internacionais de então, para além da
confrontação militar e ideológica Oeste-Leste.
Em 2007, assistimos a uma cenografia modificada em
alguns detalhes, mas construída sobre os esteios dos
processos de 1975. Para além do propalado “diálogo
contínuo” com os BRICs, a semelhança entre o G-8
da Guerra Fria e o atual não reside apenas na crítica
do anfitrião de 1975 Giscard D’Estaing à proposta
de inclusão da Turquia na Comunidade Econômica Européia
(salientando a incompatibilidade de um estado de
maioria muçulmana cujos militares agiam como
“garantidores” das instituições republicanas
para com uma Europa de matriz cristã, politicamente
secular e democrática), recentemente reiterada nos
mesmos termos pelo atual presidente francês Nicolas
Sarkozy, entre uma turnê e outra com sua consorte, a
ex-Mick Jagger, Carla Bruni, quando é trazida à
baila (mais) uma ampliação da agora União Européia.
À guisa de contraposição, num primeiro momento,
temos uma progressiva ampliação do escopo dos
participantes das reuniões do grupo dos estados mais
industrializados. Não apenas incluindo quem fora
esnobado em 1975 (o Canadá); finda a Guerra Fria e a
confrontação ideológica e estratégica entre os EUA
e a extinta URSS, o estado sucessor da superpotência
“socialista”, a Federação Russa, adentrou o
(agora) G-8 em 1997, sintomaticamente na antevéspera
de uma crise econômica relativa à desvalorização
do rublo e à fuga de capitais transnacionais de seu
território. Não apenas os pólos da Guerra Fria se
reuniram sob a égide do G-8; nas reuniões do grupo,
as portas foram abertas para representantes de
processos de integração regional e organizações
internacionais. O presidente do Conselho da União
Européia participa das reuniões desde 1977.
Recentemente, tanto o Secretário-Geral da ONU quanto
o Presidente da União Africana foram convidados a
participar das reuniões do G-8. Igualmente, os sete
estados mais industrializados do globo e a Federação
Russa criaram um fórum paralelo durante seus
encontros – o “G8 + 5” – contemplando a
participação dos estados “emergentes” (República
da Índia, República Federativa do Brasil, Estados
Unidos Mexicanos, República da África do Sul e República
Popular da China), considerados lideranças regionais
e potenciais competidores dos estados do G-8 no médio
prazo.
Esse processo de ampliação da participação e
“universalização” do sistema do G-8 teve lugar
ao passo que a ONU, por exemplo, manifestando um
dilema de participação, tem se convulsionado num
processo protelado de reforma de seus órgãos precípuos,
como o Conselho de Segurança.
O “inclusivismo casuístico” dos encontros do G-8
ao longo de 33 anos de importantes acontecimentos nas
Relações Internacionais pode ser lido como uma metáfora
multilateral e liberal da globalização após a
Guerra Fria. Para efeito de exemplo, tomemos a obra de
John Ruggie.[3]
Este, defendendo o papel de instituições e normas
multilaterais na “transição pacífica” da Guerra
Fria para a pretensa “nova ordem mundial”,
apresenta seu conceito de Multilateralismo, em
contraposição aos teóricos de RIs, que teriam dado
mais atenção a “cooperação e instituições de
forma genérica”. A formulação clássica do
multilateralismo[4]
congrega as seguintes características:
- O multilateralismo promove a coordenação de relações entre três
ou mais estados soberanos – um tipo de mudança
orientada por normas compartilhadas;
- Tal coordenação normativa deriva de um princípio geral de
conduta, compartilhado pelos estados soberanos;
- Este princípio, por sua vez, é construído socialmente como sendo
indivisível (ou seja, a indivisibilidade não é
um pressuposto, mas um produto de práticas); não
está relacionado nem a instituições criadas por
alguns dos estados envolvidos, nem a exigências
estratégicas de contextos específicos;
- O multilateralismo gera “reciprocidade difusa” entre seus
participantes (ao contrário do bilateralismo, que
gera formas de reciprocidade específicas);
- O multilateralismo dá origem a uma série de mecanismos
institucionais, mas ele próprio pode ser tomado
como “uma forma institucional específica da
modernidade”.
Ruggie, em diversas de suas obras,[5]
aponta o multilateralismo como um instrumento capaz de
elucidar as mudanças que levaram à conformação do
sistema internacional contemporâneo. Desta feita,
temos o multilateralismo como uma determinada explicação
da “anarquia”. Ruggie deriva do conceito uma
determinada concepção de “ordem internacional”
ou, nas suas palavras, “como o mundo se mantém
unido” nos últimos 500 anos.[6]
Uma ordem singular, um processo contínuo de
institucionalização no interior do sistema de
estados soberanos, culminando com a criação, pelos
últimos, de organizações internacionais, regimes
etc. Um dos efeitos mais dramáticos desse processo
seria a “globalização de normas locais e o
enraizamento local de normas globais”.[7]
Essa abordagem liberal, centrada nas instituições, do
multilateralismo apresentada por Ruggie afirma que as
controvérsias internacionais correntes, uma vez
cingidos os elos estratégicos e ideológicos que
estruturaram as práticas de estados (via governos) no
período da Guerra Fria, permitiram a inclusão ad
hoc do antigo Terceiro Mundo, atualmente “mundo
em desenvolvimento” no foro de concertação dos
estados considerados potências, em contraposição ao
relativo esvaziamento de produção de políticas no
seio da ONU (não apenas no que tange a negociações
multilaterais genéricas, mas também em proveito de
novas organizações internacionais do pós-Guerra
Fria, como a Organização Mundial do Comércio, OMC).
Tudo teria ocorrido num contexto de câmbio normativo
– novas normas de relacionamento transnacionais,
mais flexíveis, teriam ocupado o lugar das normas da
Guerra Fria, enjauladas pela competição estratégica
e ideológica das então superpotências, processo no
qual as instituições da Guerra Fria sofrem pressões
transformadoras, seja sendo extintas (Pacto de Varsóvia),
seja aprofundando o seu grau de institucionalização
(caso do GATT, que originou a OMC), seja engajando-se
num processo de reforma institucional ainda inacabado
(ONU) ou mesmo ampliando problematicamente seu escopo
de atuação (OTAN).
O mecanismo de inclusão informal não é, porém, um
acontecimento sem precedente nas Relações
Internacionais, nem marca uma mudança qualitativa no
relacionamento entre os estados nacionais soberanos
modernos, como nos informa outro autor. Inis Claude
já apontara como um dos fenômenos que deu ensejo à
própria idéia de “organização internacional
moderna” a existência de um mecanismo de concertação
entre as potências, contínuo no tempo. O autor se
referia ao mecanismo das conferências de cúpula,
iniciadas em Viena, 1815 (para reorganizar o mapa político
europeu pós-Napoleão) e continuadas pela “Santa
Aliança” até o último quartel do século XIX,
através do qual um sistema “equilibrado” de
estados europeus tomou forma, antes que os
nacionalismos de 1848 (culminando nas unificações
alemã e italiana) e a competição imperialista na África
e Ásia conduzissem ao esgarçamento do equilíbrio e
ao abalo da I Guerra Mundial, já no século seguinte.
Nesse sentido, estaríamos assistindo, nos termos de
Claude, não a uma nova globalização, mas ao retorno
da “organização internacional” dos estertores do
século XIX, no qual a competição dos estados
europeus (acrescidos dos EUA, Canadá e Japão) busca
ser harmonizada com base na normativização da
atividade econômica (no século XIX, a competição
imperialista; no século XX, “padrões de globalização
inclusiva”), ao passo que ao restante do globo
caberia uma “regulação secundária”, função da
“regulação primária” das relações entre os
estados “centrais” e legitimada pela inclusão ad
hoc de estados “em desenvolvimento”
(reproduzindo outro elemento central na narrativa da
“organização internacional” de Claude, a
progressiva incorporação de estados não-europeus às
conferências européias sobre a “paz mundial” que
tiveram lugar sob a égide do Império Russo na cidade
holandesa da Haia, em 1899 e 1907, marcos na consolidação
do Direito Internacional moderno).
Edward Keene,
numa leitura que se contrapõe a abordagens liberais
desse processo de mudança normativa, aprofundando o
caráter de continuidade do “pós-Guerra Fria”,
manifesta a característica dúplice do
“internacional” moderno. A “ordem”
internacional compreenderia dois eixos. Uma
“anarquia de iguais”, na qual estados soberanos se
relacionam entre si compartilhando uma base normativa
consuetudinária; uma “anarquia de desiguais”, na
qual os estados soberanos europeus “tutelam” o
restante do mundo, incorporando seletivamente em caráter
casuístico e, em condições variadas de
semisoberania, estados “bárbaros” como o Império
Otomano e as repúblicas latino-americanas ou mesmo
exercendo diretamente, via imperialismo de estado ou
através de agentes privados, sua soberania sobre
populações “atrasadas”, não-soberanas. O
sistema internacional, através desses dois eixos,
provê ordem através da competição (regulada) entre
iguais e da tutela civilizacional (também regulada)
do restante do mundo pela Europa.
Para Keene, a emergência de potências não-européias
como os EUA e o Japão (incorporadas à “anarquia de
iguais”) e conflitos “civilizacionais” no território
europeu (o autor se refere às guerras mundiais e práticas
abomináveis como o Holocausto) teria feito com que os
pares ordenados da igualdade (“amigo-inimigo”) e
da desigualdade (“civilizado-bárbaro”)
progressivamente se confundissem no século XX,
resultando no sistema internacional do pós-II Guerra
Mundial, que contempla uma igualdade de estados
nacionais soberanos ao mesmo tempo em que abriga “práticas
civilizatórias” por parte dos estados considerados
potências em relação aos novos estados do Terceiro
Mundo.
A ampliação do escopo do G-8, neste respeito, pode
ser vista como uma forma de inclusão dos “bárbaros”
latinos, asiáticos e africanos num processo em que a
desigualdade material (desenvolvimento) é convertida
em imaturidade política solucionável, numa matriz
kantiana, pelo progresso temporal.
O “Ocidente” da Guerra Fria se torna “o
mundo globalizado” à medida que as prerrogativas de
organizações internacionais de cunho universalista
como a ONU são “englobadas” pelo G-8, mas
persiste a disparidade entre o Norte e o Sul; de
acordo com a análise de Keene, ela é reproduzida
pela admissão casuística do antigo Terceiro Mundo no
clube dos estados civilizados/ricos. A duplicidade da
“ordem” internacional é reforçada.
Entre o multilateralismo monofacético e a tutelagem
dos pretensos civilizados sobre seus bárbaros,
podemos ensejar uma visão menos imediatista e mais crítica
acerca, por exemplo, das mudanças na agenda do G-8 até
nossos dias. Podemos, sem pretensão de esgotar o
assunto, delinear a progressiva “deseconomização”
da agenda, ampliada, do G-8 como mecanismo político
que constrange agendas variadas, algumas alheias – a
agenda do “mundo em desenvolvimento” é tornada
uma agenda de “governança global”
de matiz liberal; o combate ao terrorismo
transnacional pode se transformar numa forma de
intervenção (civilizatória?) em estados soberanos
nas franjas do sistema (Afeganistão e Iraque); a
participação da Federação Russa se torna uma via
de mão múltipla para questões como a ampliação da
UE no Leste Europeu e o equilíbrio estratégico na Ásia
Menor. A participação restrita dos BRICs e
aspirantes a BRICs, representando o “mundo em
desenvolvimento”, pode ser vista tanto como uma
estratégia de cooptação da periferia quanto como
uma forma de “democratização” das instituições
internacionais. E se tivermos tempo para deixar de
lado os estados nacionais soberanos e seus
representantes, poderemos atentar para as
multifacetadas intervenções de agentes não-soberanos,
propugnando uma “nova globalização”.
Como vimos no corpo desse artigo, a “nova globalização”
espelhada nos encontros do G-8 pode ser vista como
guardando notável continuidade com estruturas sociais
do passado, quando não as reproduzindo fielmente. Tal
consiste num convite a que não percamos de vista
acontecimentos como os de Mecklenburg-Vorpommern;
não o façamos por crê-los um evento inusitado e inédito,
privilégio das Relações Internacionais contemporâneas;
tampouco, uma vez tomando-os como continuidade de
processos políticos pregressos, abordemos encontros
como este como acaso fossem exemplos de fechamento das
possibilidades das Relações Internacionais contemporâneas,
como um mero elo com um passado nem tão distante. Uma
pitada de desconfiança acerca da profundidade do
“marco de 2007” também não faz mal a ninguém. A
mudança e a continuidade políticas, como de costume,
são atributos do agir e pensar de seres humanos, não
ardis de forças sobrenaturais ou determinismos
imemoriais. O questionamento dos não-soberanos à
reunião do G-8 (outra tradição inventada pela década
de 1990) nos rememora o caráter político de tal
acontecimento, que não se esgota na agenda de
diplomatas e homens de estado nem tampouco se satisfaz
com a participação modesta de representantes do
“resto do mundo”. A vida nem sempre parece uma
festa – sobre isso nem mesmo os festeiros roqueiros
brasileiros parecem duvidar.
CLAUDE, Inis. Swords
Into Plowshares. New York, Random House, 1964.
ROSENAU, James N. Governança sem Governo: Ordem e
Transformação na Política Mundial. Brasília,
UnB, 2000.