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  ANÁLISE

A COPA DO MUNDO DE 2006 COMO EVENTO MODERNO

Por Carlos Frederico Gama

 

Anthony Giddens [1], falando sobre a Modernidade, ressaltou a importância, para os indivíduos, da busca por segurança ontológica (segurança sobre a própria existência, no mundo). Certificar-se de que as coisas aconteciam “como deveriam acontecer”, em meio a uma “cultura do risco”, é uma das mais fundamentais formas de consolidar uma identidade coerente e duradoura. Incapaz, por si próprio, de garantir a “certificação” dos acontecimentos no mundo, cada ser humano, através do mecanismo da reflexão consciente, procederá ao monitoramento dos próprios atos e idéias. Ainda, através do mecanismo da “confiança”, procederá da mesma forma em suas interações com outros seres humanos, logrando alguma previsibilidade. Esse duplo monitoramento – entendido como o controle das relações sociais no tempo e no espaço – corresponde ao corolário moderno descrito por  Giddens, o “princípio da organização”.

Tivemos uma boa amostra recente do funcionamento do “princípio da organização”: a Copa do Mundo de 2006, realizada na Alemanha. Através de uma variedade de manifestações, desde seu nascedouro, diversos agentes sociais buscaram garantir que as coisas acontecessem “como deveriam”.

Comecemos pelo sorteio dos grupos para a primeira fase da competição, em dezembro de 2005; o “desenho institucional” da Copa assegurou um caminho tranqüilo aos detentores do título máximo do futebol mundial – Brasil, Alemanha, Itália, Argentina, França e Inglaterra só se enfrentariam, salvo algum tropeço, nas etapas finais, em detrimento de equipes que tiveram uma performance comparativamente mais bem sucedida nos 4 anos da etapa eliminatória. Brasil e Alemanha, donos das melhores performances na história do torneio, foram alocados de forma a somente se enfrentarem, eventualmente, na partida final, e tiveram o privilégio de enfrentarem adversários com performances modestas na história do torneio (Costa Rica, Japão, Austrália, Equador).

Uma vez agraciadas com essa dose de segurança “institucionalizada”, as seleções campeãs do mundo puseram-se a contentar a crescente expectativa de seus torcedores. O Brasil de Carlos Alberto Parreira e a Alemanha de Jürgen Klinsmann foram dois casos notórios.

A seleção brasileira, tida pela imprensa e população brasileira e mundial como um supertime de jogadores excepcionais, talvez a melhor geração brasileira desde 1970 ou 1982, portou-se como supertime de jogadores excepcionais (quem sabe, inspirando-se no marketing do “time dos sonhos” do basquete norte-americano de 1992). Fez poucos amistosos antes da Copa, contra equipes de pouquíssima expressão, que se tornavam festejos de virtuosismo individual (as demais 31 equipes presentes à Copa, por contraposição, solidificaram a imagem de supertime da seleção brasileira, ao efetuarem inúmeros amistosos, contra equipes de maior expressão, incluindo jogos entre si). Alternou treinos públicos com bateladas de eventos publicitários. Em Carlos Alberto Parreira, a seleção brasileira tinha um exemplar da busca por “segurança ontológica” – uma estratégia cautelosa, de atrito, orientada para sobrepujar o adversário através da posse da bola pelo maior tempo possível (uma vez assegurada a iniciativa, o resto espontaneamente adviria da “óbvia” superioridade técnica dos jogadores brasileiros vis-à-vis o restante do mundo, ressaltada pelo técnico em preleções para os jogadores e coletivas para a imprensa).

A produção da “confiança” na vitória da seleção brasileira, além dos ditames de Carlos Alberto Parreira, foi propalada pelo farto apoio das campanhas de marketing de cada jogador, além do marketing institucionalizado da Confederação Brasileira de Futebol e da FIFA. As vitórias recentes da seleção brasileira na Copa das Confederações e na Copa América (com uma equipe reserva, em que pese o fato de os adversários também agirem da mesma forma) também foram etapas na construção da confiança no “hexa”.

Vez que o “princípio da organização” implica o contínuo monitoramento das práticas, próprias e alheias, é de se surpreender que os próprios jogadores não tivessem noção de seu acentuado desgaste físico (resultante do calendário europeu) no período de preparação, bem como acerca do parco número de jogos preparatórios, contra adversários de pouca expressão. O mesmo pode ser dito do treinador Carlos Alberto Parreira. Teríamos, então, uma ruptura entre o as expectativas levantadas acerca da performance da seleção brasileira e as possibilidades de realização do “supertime”?

Lançando os olhos sobre o contexto imediatamente posterior à derrocada da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2006, todas essas limitações aparecerem no discurso de alguns dos jogadores e do próprio técnico Carlos Alberto Parreira. Não se sabe se foram motivadas pela derrota, ou pela reação indignada da população brasileira (insulflada pela mídia) à performance dos jogadores brasileiros na partida contra os adversários franceses.

Não obstante, é notável a tentativa de adequar o fenômeno da derrota a “condições de partida” desfavoráveis. Uma tentativa de fazer com que as coisas sejam entendidas “como deveriam acontecer”. O discurso dos jogadores se colima, curiosamente, com a indignação popular manifestada em entrevistas, cartas, ensaios, cartazes etc., nas quais os jogadores da seleção brasileira foram qualificados como um grupo de “mercenários mimados”, distantes da realidade do futebol brasileiro e do próprio Brasil, mais interessados em suas contas bancárias, festejos nababescos em castelos suíços e recordes estatísticos do que na conquista da Copa do Mundo de 2006 para satisfazer o anseio do “povo brasileiro” (sic). Um tal grupo seria fadado, pois, ao fracasso que acabaria por se concretizar.

A disparidade entre essa imagem negativa pós-fato e a euforia popular associada ao “supertime” nas vésperas da Copa do Mundo 2006 traz à baila, novamente, a ruptura entre as expectativas e as condições parcialmente “externas” com as quais os jogadores e o treinador tiveram que lidar, desde sua chegada à Suíça.

A idéia de que “devaneios” não se coadunam bem com a “cultura do risco” que é a Modernidade salta menos aos olhos do que a constatação de que mesmo estes, uma vez coletivamente erigidos (no dizer de John Ruggie [2]), passam a ser regidos pelo “princípio da organização”. Dizer que os homens são racionais (e reflexivos) não implica um vácuo axiológico, sejam quais forem esses valores, tal já nos havia apontado Max Weber. A Razão se amolda a valores. É uma tal constatação que nos vem trazida à baila quando analisamos o caso da seleção do país anfitrião, a Alemanha.

Inobstante as dificuldades da preparação, os parcos resultados no campo e as constantes críticas à migração pendular do técnico Jurgen Klissmann da sua residência californiana para as poucas reuniões da seleção em solo alemão, a seleção alemã era cotada como uma das favoritas ao título mundial, como ocorrera em Copas passadas. Para além das expectativas econômicas (um estudo às vésperas da Copa do Mundo de 2006 indicou que uma vitória alemã geraria um significativo aumento do Produto Interno Bruto), tratava-se do primeiro grande evento mundial realizado em solo alemão após a reunificação de 1990. Os jovens estiveram particularmente propensos a manifestações patrióticas. O técnico Jürgen Klinsmann soube catalisar esse potencial patriótico ao afirmar, nas vésperas da Copa, que seus jogadores deveriam buscar o título não como a quarta conquista dos alemães, mas a primeira conquista da Alemanha unificada (os demais triunfos couberam à extinta Alemanha Ocidental).

Mesmo sem um padrão de jogo consolidado (e tendo sido submetida a recentes vexames, como uma derrota de 4 a 1 para a futura campeã, a Itália), a Alemanha adentrou os gramados com uma equipe que se assemelhava ao estado de ânimo que enchia as ruas das principais cidades do país. Velhos ídolos como Oliver Kahn davam lugar a uma equipe mais jovem, coesa e, se limitada, capaz de avançar na base do entusiasmo. “Estrangeiros” (filhos de poloneses como o artilheiro Miroslav Klose, de ganenses como o atacante Asamoah e o próprio técnico Jürgen Klissmann, “radicado” nos Estados Unidos da América) tornaram-se os depositários da esperança de uma Alemanha pós-chauvinista, mas não menos nacionalista.

Mesmo a derrota para a futura campeã, Itália, nas semifinais, no que constituiu o melhor jogo da Copa do Mundo de 2006, não deitou por terra a euforia patriótica alemã. A forma como a derrota adveio (na prorrogação, com dois gols belíssimos de uma surpreendentemente ofensiva Itália) se coadunou com o estado de ânimo dos torcedores (os quais o técnico Jurgen Klissmann fez questão de saudar, juntamente com sua equipe, mesmo após a derrota). A sintonia entre os alemães no gramado, nas arquibancadas e nas ruas sobrepujou considerações pragmáticas sobre a vitória ou não na Copa do Mundo de 2006. E tal foi construído a cada partida, a cada episódio, da Copa do Mundo de 2006, reflexivamente, pelos jogadores no campo, pelo técnico Jürgen Klinsmann nas entrevistas coletivas e pelas manifestações ruidosas por toda a Alemanha.

As constatações pós-fato incidiram sobre a relativa juventude da equipe, a dificuldade para encontrar um padrão de jogo na preparação para a Copa do Mundo e a qualidade dos adversários. Entretanto, a performance da seleção alemã foi considerada satisfatória, pela forma como ocorreu, mais do que por ter sido o melhor ataque da Copa do Mundo de 2006, ou por ter produzido seu artilheiro (Miroslav Klose). O “pragma” econômico e estatístico cedeu lugar à “comunidade imaginária” de Benedict Anderson (à dessemelhança do caso brasileiro, no qual a vitória da Nação era traduzida como a vitória da seleção). As coisas aconteceram “como deveriam ter acontecido”, com o diferencial de que “o que deveria ter acontecido” foi modificado, ao longo da Copa do Mundo de 2006. Da vitória, passou-se à intensificação dos laços de solidariedade comunitária. Nada mais distante das afirmações de Carlos Alberto Parreira, após a quarta vitória seguida da seleção brasileira (a despeito das limitações evidentes), que afirmara que as reclamações do técnico de Gana referentes a um gol irregularmente validado em prol do Brasil constituíam “choro de perdedor”. Os alemães foram capazes de superar o “pragma” instititucionalizado, a vitória, seja por qual meio for, pela renovação de valores, posteriormente institucionalizáveis. Os alemães, perdedores, não choraram em vão. Foram os grandes vencedores da Copa do Mundo de 2006. Já os brasileiros...

 


[1] GIDDENS, Anthony. Modernidade e Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

[2] RUGGIE, John. Constructing the world polity: Essays on International Institutionalization. London: Routledge, 1998.

 

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