INTRODUÇÃO
A
política externa
brasileira apresenta três fases. Inicialmente,
durante quatro séculos, a inserção internacional de
nosso país processou-se por intermédio das potências
européias, primeiramente Portugal e, posteriormente,
Inglaterra. Essa dupla subordinação ao capitalismo
mediterrâneo e norte-atlântico somada a preocupação
com a consolidação dos limites e fronteiras do
Brasil constituiu a primeira fase de nossas relações
exteriores.
O
prenuncio de uma nova fase deu-se quando a Inglaterra
enfrentou crises econômicas internas perdendo o seu
papel de potência para os norte-americanos que
passaram a exercer influência no Brasil. Durante o
período, o traçado das fronteiras concluiu-se, o país
voltou-se para um processo de inserção hemisférica
e uma política externa preocupada com o
desenvolvimento econômico iniciou-se.
Nesta
época, deve-se ressaltar a atuação do então
Ministro das Relações Exteriores, Barão do Rio
Branco, o qual conseguiu estabelecer não só o atual
mapa nacional como também destacou-se pela chamada
aliança não escrita com os Estados Unidos (expressão
de Bradford Burns).
Até
os anos 50, as relações exteriores do Brasil
voltaram-se para os EUA almejando um status
de aliado privilegiado, entretanto, a medida que
tal relação demonstrava-se insuficiente como base
para o desenvolvimento industrial e econômico do
Estado nacional, a política externa brasileira
alterou seu perfil. Nesse sentido, delineou-se a
barganha característica da política de Vargas e dos
governos nacionalistas e populistas dos anos 50.
A
falta de resposta positiva dos ianques às atitudes
tomadas convenceu as lideranças nacionais de que a
ampliação dos vínculos comerciais e políticos eram
imprescindíveis. Assim, inaugura-se o período da
multilateralidade de nossas relações exteriores, o
qual delineou-se com a Política Externa Independente
(PEI) de Quadros e de Goulart, estendeu-se pelo
Pragmatismo Responsável Ecumênico de Geisel e ainda
hoje se faz presente. Logo, a análise que será
efetuada sobre o processo político de integração no
Cone Sul enquadra-se no cenário assinalado pelo término
da Guerra Fria, pela globalização e pelo
(neo)liberalismo econômico.
O
PROCESSO DE INTEGRAÇÃO NO CONE SUL NO PERÍODO DE
1990-2002
A
política externa desde muito ocupa uma posição de
destaque na agenda interna dos Estados, no entanto, o
triunfo do capitalismo sobre o socialismo soviético
em 1989 impulsionou à globalização e valorizou
ainda mais o papel das relações internacionais,
afinal nessa nova ordem a interdependência dos países
tornou-se imprescindível.
Três
fatores influíram no reordenamento internacional: a
ideologia neoliberal, a interdependência do mercado e
a superioridade militar norte-americana. Assim, a
globalização engendrou uma nova realidade econômica
caracterizada pelo aumento do volume e da velocidade
dos fluxos financeiros internacionais; pela convergência
de processos produtivos; e, enfim, pela convergência
de regulação nos Estados. Essa tendência histórica
deparou-se, contudo, com duas outras: a formação de
blocos econômicos como alternativa protecionista à
abertura de mercados e economias inerente ao
neoliberalismo; e a nova assimetria entre centro e
periferia, a qual tornou-se, na maioria das vezes,
ainda mais dispare.
Diante
desse complexo e desafiador cenário internacional, a
política externa brasileira adaptou-se de modo nada
simples. Inclusive, visivelmente, parecia que se havia
perdido o rumo que por sessenta anos caracterizou a
racionalidade e a continuidade de tal política, cujo
objetivo maior era a promoção do desenvolvimento
nacional.
Entre
1990 e 1995, cinco ministros ocuparam a pasta das Relações
Exteriores. A cassação do presidente Fernando Collor
de Melo em 1992 e o hiato do governo Itamar Franco até
1994 contribuíram com essa indefinição. A partir de
1995, com os dois mandatos de Fernando Henrique
Cardoso (1995-2002) e a permanência do Chanceler Luiz
Felipe Lampreia (1995-2000), pretendeu-se imprimir
coerência à ação externa, entretanto, esta recebeu
duras críticas de diversos embaixadores - dentre
todas nenhuma comparou-se a do antigo diretor do
Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais,
Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães cuja “punição”
foi a destituição de seu cargo.
Durante
o período de 1990 – 2002, nota-se que o pensamento
político nacional aplicado às relações
internacionais não foi nem um pouco homogêneo, sendo
que em algumas épocas chegou a ser contraditório.
Isso deve-se, fundamentalmente, a transição das
linhas de ação externa, as quais, segundo Cervo,
podem ser classificadas como: Estado
desenvolvimentista, aquele que reforça o aspecto
tradicional e autônomo da política exterior (vigente
no Brasil até 1990); Estado normal que determina a
conduta subserviente, destrutiva e regressiva cujos
resultados são o aumento da dependência e das
assimetrias centro-periferia, além da perda do patrimônio
público-estatal e da incapacidade governamental de
proporcionar o mínimo bem-estar a seus habitantes; e,
por fim, Estado logístico que fortalece o núcleo
nacional, transferindo à sociedade responsabilidades
empreendedoras a fim de equilibrar os benefícios da
interdependência delineando uma espécie de inserção
madura no mundo globalizado.
Baseado
no exposto anteriormente,
pode-se dizer que no período de 1990 a 2002 a política
exterior brasileira, pautada na coexistência desses
três paradigmas,
“levou à agonia do Estado
desenvolvimentista, à emergência do Estado normal e
ao ensaio do Estado logístico”.
Nesse
sentido, a principal ruptura da política desenvolvida
na década de 90 com a antigamente vigente,
pertencente ao tradicionalismo nacional, foi a migração
de um Estado desenvolvimentista, sustentado quase que
totalmente na idéia de desenvolvimento econômico
interno, para outro “normal”, inerente às
modificações do pós – Guerra Fria e associado a
abertura econômica, a privatização do patrimônio
estatal, a dependência do capital estrangeiro e ao
condicionamento às vontades dos países centrais,
significativamente dos Estados Unidos da América.
Esta subserviência é verificada de maneira
substanciosa nos governos Collor e Cardoso.
Se
por um lado houve esse rompimento com a política
exterior desenvolvida, inaugurando uma nova era, por
outro a herança diplomática de fases anteriores
perdurou. Destarte, pode-se interpretar a política
externa brasileira, até meados de 90, muito mais como
uma continuidade daquela política aplicada no período
da PEI (Política Externa Independente) e consolidada
na época do pragmatismo responsável do que como uma
nova política, decorrente das alterações mundiais,
a qual delineou-se
gradativa e incisivamente.
A
crença de Rio Branco na vocação universal da nossa
política externa bem como sua defesa de um “Brasil
potência” permeou o pensamento dos três
presidentes analisados e ainda encontra respaldo nos
discursos de Lula. Ademais, a diplomacia
universalista, herdada do governo Figueiredo, foi
mantida, porém de maneira diferenciada, sendo
denominada como “diplomacia universalista
seletiva”. Esta distinguiu-se prioritariamente pela
busca de “parcerias estratégicas” tanto no âmbito
político como no econômico, contanto que com sócios
preferenciais.
Este
tipo de diplomacia foi resultado de uma nova formulação
e implementação da política exterior, na qual
percebeu-se a necessidade de levar adiante aproximações
específicas que permitiram alcançar objetivos e
metas comuns com potências regionais semelhantes,
tirar proveito de oportunidades e enfrentar desafios.
A
consolidação da democracia, iniciada com Sarney, e a
adoção desse universalismo seletivo corroboraram as
relações bilaterais do Brasil com a Argentina e, em
geral, com a América do Sul. Desta maneira, o Brasil
encontrou seu perfil latino-americano, substituindo as
políticas e percepções de conflito e rivalidade
pelas de cooperação e acordo, condizendo com uma das
tarefas fundamentais da política externa brasileira
que consiste na construção da América do Sul.
A
propósito, Celso Amorim afirma que
“Quando
falamos em esforços regionais, o que ressalta, em
primeiro lugar, é a prioridade que a política
externa brasileira sempre conferiu, desde o Barão de
Rio Branco à sua vizinhança imediata. É aí que eu
queria distinguir dois conceitos: 1) o conceito mais
amplo de América Latina, que é um conceito presente
na nossa Constituição, e o objetivo da integração
latino-americana que continuaremos a perseguir; 2) o
conceito mais imediato, mais operativo, do ponto de
vista dos processos de integração, que é o conceito
de América do Sul”.
Além
disso, ainda segundo Amorim os movimentos de
regionalização e globalização correspondem às
necessidades de escala para as indústrias
e para os investimentos maiores em tecnologia.
Isto leva tanto a um reforço da multilateralização
como também à formação de blocos econômicos
regionais, que seriam negativos à participação do
Brasil se fossem protecionistas e fechados, porém,
como nosso país possui uma inserção global acaba
lucrando com tal reconfiguração do cenário
internacional.
Diante
dessa declaração, percebe-se o grau de idealismo que
permeia a condução das relações exteriores de
nossa nação. Este manifestou-se sobremaneira no
direcionamento das políticas desempenhadas na Era
Cardoso, sendo uma das falhas mais significativas do
período.
Nesse
contexto globalizado e liberalizado economicamente,
surgem os primeiros tratados entre argentinos e
brasileiros – “Ata para a Integração
Brasil-Argentina” (1985), “Tratado de Integração,
Cooperação e Desenvolvimento” (1988) e “Ata de Buenos Aires (1990). Estes culminaram, em
1991, com a ratificação do Tratado de Assunção,
instrumento jurídico legitimador do Mercado Comum do
Sul - bloco econômico que envolve Argentina, Brasil,
Paraguai, Uruguai e, atualmente, Venezuela cujo propósito
central é o estabelecimento de um mercado comum entre
estes países, visando favorecer o intercâmbio
comercial, financeiro, tecnológico e social entre
eles.
A
associação com a Argentina e a iniciativa do
Mercosul foram concebidas como instrumentos
importantes, porém não suficientes para a redefinição
da nova inserção internacional brasileira que
primava pela competitividade externa, através do
aumento do comércio, do fomento à indústria, à
tecnologia e à infra-estrutura. Por isso, a integração
regional adquiriu uma relevância especial, pois seria
uma alternativa para enfrentar a nova situação do
cenário exterior com melhor capacidade política e
econômica.
Daí,
conclui-se que o enfoque brasileiro ao bloco foi
embasado em uma visão de realpolitik,
a qual se expressa sistematicamente como um processo
de competição econômica com os países sócios e
quase nunca como cooperação.
Portanto,
a política exterior que o Brasil desenvolveu,
inicialmente, para com o Mercosul, foi aquela que lhe
permitiu auferir à seus interesses. Aliás, o que era
vantagem para o governo nacional não necessariamente
era para os demais membros, constituindo, dessa
maneira, elementos sustentados por um cálculo
racional (custos e benefícios) predominantemente egoísta
e incoerente com os propósitos típicos de uma
integração econômica, social e política regional.
Em
suma, a política brasileira para o Mercosul teve três
finalidades: a) permitir a abertura gradual de sua
economia à economia mundial, fortalecido pela
amplificação do mercado sub-regional (Cone Sul) e
regional (América do Sul); b) enfrentar os desafios
econômicos e políticos das estratégias hegemônicas
norte-americanas na América Latina expressos na ALCA;
e c) alcançar o reconhecimento global como potência
média, graças à sua liderança política no bloco e
à dimensão do mercado almejado.
Em
1991, data da ratificação do Tratado de Assunção,
o presidente do Brasil era Fernando Collor de Melo e o
da Argentina era Carlos Menem, ambos compartilhavam a
quase total subserviência aos interesses
norte-americanos bem como adotaram interinamente o
corolário neoliberal, o que facilitou
a conclusão do tratado mesmo que de maneira
precipitada.
A
política exterior de Collor estava embasada em três
tipos de expectativas: atualização da agenda
internacional do país; construção de uma nova
agenda prioritária e não conflitiva com os EUA; e
redução do perfil “terceiro mundista”, haja
vista as mudanças ocorridas no plano internacional.
Destarte,
Francisco Resek, responsável pelo Itamaraty,
esvaziou muitas das atribuições do MRE,
pois nele se encontrava um núcleo de resistência ao
projeto governamental. Dessa maneira, a diplomacia
mundial e multilateral desenvolvida pelo Brasil foi
substituída pelo alinhamento aos EUA e por uma política
voltada as Américas.
Pode-se
dizer que o tratado
criador do Mercosul imbuiu-se da filosofia política
de um Estado normal
que impregnou tanto o governo nacional quanto o
argentino refletindo em uma integração pautada
sobretudo na desgravação linear das fronteiras
comerciais constituindo um regionalismo aberto. Assim,
clarividencia-se as primeiras falhas desse incipiente
bloco que delineram alguns dos problemas por eles
enfrentados, afinal, integrar envolve muito mais
elementos, como o desenvolvimento econômico e
industrial, do que a mera liberalização comercial.
As
expectativas lançadas pela política exterior de
Collor mudaram completamente em conseqüência da
crise política interna que levou à sua destituição
como presidente e à sua substituição pelo vice
Itamar Franco. Não obstante, é necessário mostrar
que aquelas já tinham sido debilitadas pelas próprias
contradições da política que visava impulsionar o
terceiro mundismo e, concomitantemente, fazer concessões
no tratamento da dívida externa.
Além
disso, a saída de Collor minou o alicerce da política
exterior com o Mercosul, visto que as diferenças
entre as políticas desenvolvidas pelos argentinos e
pelos brasileiros tornaram-se evidentes e
converteram-se em pontos de conflitos. Essas divergências
podem ser sintetizadas em cinco grupos: 1) as
interpretações sobre a ordem emergente e a globalização;
2) a cooperação de cada um desses países; 3) os
paradigmas dominantes na política exterior; 4) as
relações com os Estados Unidos; e 5) as políticas
de segurança.
Itamar
Franco, nacionalista e defensor da noção de
soberania, retomou alguns dos temas da agenda de seu
antecessor e levou adiante o cumprimento de
compromissos internacionais, fundamentalmente, aqueles
relacionados a não proliferação de armas e à
segurança. Junto a isso adicionou uma nova dimensão
de política exterior na qual o Brasil era tido como
país continental e global trader,
o que aproximou Brasília de outras potências médias
como China, Índia e Rússia, assinalando a efetivação
de nossas parcerias estratégicas.
Outrossim,
procurou-se um assento permanente no Conselho de
Segurança da ONU (forte foco de discórdia com os
argentinos); à defesa de princípios como democracia,
justiça social, direitos humanos, liberdades
individuais e justiça social como desenvolvimento; o
princípio de não intervenção em assuntos internos,
a solução pacífica dos antagonismos e a
autodeterminação dos povos também eram defendidos;
e a construção de um projeto de integração sul
americano (ALCSA) que ia de encontro aos interesses
estadunidenses expressos na ALCA.
Embora,
de certo modo, tenha havido uma continuidade da política
externa anterior percebe-se uma importante ruptura,
afinal esse período foi marcado por um maior ativismo
presidencial e por uma intensa busca nacional de projeção
e inserção internacional. Essa nova conduta, aliada
às divergências supracitadas, comprometeu
sobremaneira o avanço do Mercado Comum do Sul e, ao
revés, o prejudicou fazendo com que parceiros como o
Chile desistissem de articular uma aproximação com o
bloco. Logo, nos dois anos deste governo, o Mercosul
estagnou e, até mesmo, regrediu em seus aspectos políticos.
O
término do mandato de Franco e a chegada de Fernando
Henrique Cardoso ao governo, que durou oito anos,
inauguraram uma nova fase da política exterior
nacional. Esta não só aprofundou as agendas
anteriores como também promoveu um alinhamento total
às determinações neoliberais; priorizou acordos de
cooperação com os países centrais da Europa e com
os Estados Unidos; aprofundou a idéia do país como
um global trader;
e fortaleceu a chamada diplomacia presidencial, a qual
pautava-se em um grande ativismo do presidente na
coordenação dos assuntos internacionais relegando as
matérias econômicas externas ao Ministério das Relações
Exteriores (MRE). Justamente por retomar o seu
universalismo diplomático característico, é que o
país firmou diversas parcerias multilaterais e
estreitou o relacionamento com seus parceiros
mercossulinos.
Nesse
sentido, o aprofundamento das relações
com o bloco manifesta-se na assinatura de
diversos protocolos e acordos adicionais aos
instrumento jurídico de 1991. As temáticas daqueles
envolviam a definição da estrutura orgânica do
bloco (Protocolo de Ouro Preto de 1994), a jurisdição
internacional em matéria contratual (Protocolo de
Buenos Aires de 1994), a defesa da concorrência
(Protocolo de Defesa da Concorrência no Mercosul de
1998) e a solução de controvérsias (Protocolo de
Olivos de 2002).
Outrossim,
o Mercado Comum do Sul foi elevado à condição de
sujeito do direito internacional; incrementa-se o
fluxo comercial entre seus Estados-partes; confirma-se
a zona de paz na região da Bacia do Prata;
consegue-se fornecer uma imagem externa para a
associação acima de sua realidade; e, enfim, o bloco
do Cone Sul é utilizado para alicerçar o projeto de
unidade política, econômica e de segurança na América
do Sul.
Fernando
Henrique Cardoso efetivou ainda duas realizações
essenciais para a consolidação da associação,
quais sejam: a) a adesão conjunta do Brasil e da
Argentina ao TNP (Tratado de Não Proliferação)
encerrando a fase em que o uso de energia nuclear
permanecia uma incógnita nas relações bilaterais
sendo ponto de preocupação para os outros países
sul americanos; e b) a defesa da democracia nos episódios
das crises institucionais de 1996, 1999 e 2001,
atitude que ajustou-se aos debates sobre a Cláusula
Democrática no Mercosul inserida no Protocolo de
Ushuaia de 1998.
Nesta
mesma época, 1994-98, há o estabelecimento de
acordos 4 + 1 entre o Mercosul e a União Européia,
além da aproximação do Chile e da Bolívia como
Estados-parceiros do bloco e da entrada em vigência
da tarifa externa comum (TEC), ainda que de forma
restrita, já que havia uma lista de exceções.
Entretanto,
todos esses avanços regridem
com a grave crise que atingiu o Mercosul em
1999. Esta deveu-se tanto a problemas econômicos
internos argentinos (crise cambial devido ao colapso
da paridade peso-dólar) quanto a questões do mesmo
caráter no Brasil (desvalorização excessiva do
Real). Sendo assim, esgota-se a etapa de ganhos fáceis
com a integração, inerentes a fase inicial de expansão
de comércio em decorrência da redução tarifária
automática.
Uma
das principais conseqüências dessa crise foi a invasão
de produtos brasileiros no mercado argentino e a
posterior acusação por parte destes de que possuíamos
pretensão hegemônica e imperialista na região do
Cone Sul. Além disso, a derrocada econômica dos dois
grandes parceiros do grupo solaparam as economias
paraguaia e uruguaia desestabilizando a região como
um todo. Desde então, desencontros políticos e econômicos
com a Argentina tornaram-se comuns e incontornáveis,
dando força à reflexão, surgida no fim da década
de 90, sobre
a continuidade ou não do bloco.
De
acordo com Cervo,
“Durante
seus dois mandatos, Fernando Henrique Cardoso obteve
êxito no propósito de manter a estabilidade econômica
interna e elevar a produtividade. Ao acoplar o setor
externo e esses objetivos internos, corrompeu a
funcionalidade da política exterior. Seu governo
confundiu abertura com estratégia e sacrificou a política
exterior, que deixou de servir ao desenvolvimento e à
superação de dependências estruturais. (...)
O
balanço das relações internacionais do Brasil
durante a era Cardoso tornou-se, destarte, medíocre,
senão desastroso, considerando a realização de
interesses nacionais.”
Tal
posicionamento, em parte verdadeiro, é radical e não
totalmente justo aos avanços obtidos no período,
pois Cardoso tentou alinhar o máximo de benefícios
ao Brasil, conquistando vários deles, mesmo que através
de estratégias paradoxais. Afinal, ao mesmo tempo
que, negociava e fortalecia o Mercosul discutia as
possibilidades de implementação da ALCA.
Destarte,
pode-se afirmar que a principal falha deste governo no
plano internacional, incluindo as relações com os
associados do Cone Sul, foi tentar auferir lucros de
relações contraditórias sem consolidar nem um lado
nem o outro. Contudo, os problemas que destruíram o
ideal de efetiva construção da América do Sul não
foram responsabilidade só deste governo, mas sim de
todos aqueles que adotaram o Estado normal ou
neoliberal sem a devida ponderação e adequação,
ambas imprescindíveis.
O
término do segundo mandato de FHC em 2002 permite-nos
a realização de um balanço sobre os dez anos de
Mercosul, desta maneira diagnostica-se pontos de avanço
e outros de fraqueza. Iniciando-se pelos primeiros têm-se:
1) a convivência pacífica e tida como inevitável
entre rivais históricos (argentinos e brasileiros);
2) o fortalecimento da democracia e a criação de uma
zona de paz no Cone Sul; 3) o regionalismo aberto
provocou um desvio de comércio, extremamente oportuno
para economias incapazes de elevar-se à
competitividade sistêmica global; 4) o Mercosul
tornou-se sujeito de direito internacional; 5) o bloco
fortaleceu seu poder de barganha como bloco e de cada
um de seus membros individualmente; 6) a associação
inspirou a criação de outras do mesmo tipo na América
Latina como modo de contrabalançar a influência dos
Estados Unidos.
De
outro lado, encontramos as fraquezas desta associação,
as quais resumem-se em: 1) distintas visões de mundo
e políticas exteriores não convergentes minaram a
negociação coletiva e as relações entre os
membros; 2)a recusa de sacrificar a soberania nas políticas
públicas internas e externas impediu a coordenação
de políticas macroeconômicas e a negociação
coletiva em fóruns como OMC, Banco Mundial e FMI; 3)
adoção de medidas unilaterais desmoralizaram o
mecanismo da TEC;
4) o processo de integração não criou mecanismos de
cooperação para superar as assimetrias entre os
membros; 5) a incompatibilidade das políticas
cambiais entre os dois grandes parceiros provocou
desconfianças e inúmeros contenciosos comerciais; 6)
ao elevar-se da condição de zona de livre comércio
para a de união aduaneira sem instituições comunitárias,
o Mercosul enfraqueceu a negociação internacional
feita pelos Estados e manteve o processo negociador
interno extremamente complexo.
Diante
disso, percebe-se que os principais problemas e falhas
do bloco do Cone Sul foram a ausência de um pensar
coletivo e a falta da definição de uma identidade
comum entre os membros.
O
egoísmo racional que caracterizou a associação, até
o momento, a destituiu de sucessos como os obtidos na
União Européia. Aliás, o Mercosul só atingirá tal
nível de integração no dia em que desenvolver uma
identidade mercossulina que englobe não só setores
econômicos e políticos como também os sociais, de
maior relevância e curiosamente renegados a um
segundo plano sem direito de expressão. As bases para
a constituição de um mercado comum real, e não fictício
como o de agora, já foram lançadas, basta somente
que haja engajamento de todas as partes para que ele
deixe de ser um dilema da agenda brasileira e torne-se
uma solução para ela.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA,
Paulo Roberto de. Relações internacionais e política externa do Brasil. 2ª ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004.
————————————.
Mercosul no
contexto regional e internacional. Brasília:
Aduaneiras, 1993.
AMORIM,
Celso. Política
externa. Democracia. Desenvolvimento. Brasília:
Fundação Alexandre de Gusmão, 1995. II Título. p.
193-203; 234-35; 293-99.
HIRST,
Mônica; PINHEIRO, Letícia. A política externa em
dois tempos. Revista
Brasileira de Política Internacional. 38 (1):
5-23, 1995.
LAFER,
Celso. A
identidade internacional do Brasil e a política
externa brasileira – passado, presente e futuro.
p. 23-64.
VIGEVANI,
Tullo; OLIVEIRA, Marcelo Fernandes. A
política externa brasileira na Era FHC: um exercício
de autonomia pela integração. 4º Encontro
Nacional da Associação Brasileira de Ciência Política.
Painel 4: Política Externa Brasileira. Rio de
Janeiro: PUC, julho – 2004.
VIZENTINE,
Paulo G. Fagundes. Relações internacionais do Brasil de Vargas a Lula. São Paulo:
Editora Fundação Perseu Abramo, 2005. 2º ed. p.
79-126.