A
atribuição da pecha de “radical” ao
bolivarianismo venezuelano não é gratuita.
Afinal, repetidas têm sido as ocasiões em que o
chefe de Estado da Venezuela se excede
verbalmente. A virulência incluiu, por exemplo,
mandar o ex-primeiro-ministro britânico, Tony
Blair, e os apoiadores da proposta da ALCA “para
o inferno”; pronunciar, em sessão anual da
Assembléia Geral da ONU, que o púlpito
“cheirava a enxofre” [numa alusão ao discurso
prévio do presidente dos Estados Unidos da América,
George W. Bush]; chamar o secretário-geral da
Organização dos Estados Americanos, José Miguel
Insulza, de “verdadeiro idiota” e de
“vice-rei do império”; ou dizer que o Senado
brasileiro, quando criticava as suas ações de
governo, fazia a vez de “maritaca dos Estados
Unidos”. Todas as citações, fartamente
documentadas, dão conta do perfil agressivo da
diplomacia presidencial. Acrescente-se aos ataques
verbais a relação especial que a Venezuela de Chávez
mantém com países tidos como “párias” do
sistema internacional de Estados – casos de Irã
e Cuba.
Essa
breve descrição de algumas ações de política
externa da República Bolivariana da Venezuela
ilustra um modelo de conduta do Estado um tanto
quanto incomum nas relações internacionais do século
XXI. Se, por um longo período desde o fim da II
Guerra Mundial, o país se manteve associado aos
Estados Unidos da América e às grandes potências
– compradores preferenciais de seu petróleo
–, os anos sob Chávez marcam uma nova tomada de
posição. A postura internacional venezuelana, do
fim dos anos 1950 até a segunda metade dos anos
1990 – o apogeu da “Grande Venezuela” –,
trazia ingredientes daquilo que o professor
argentino Carlos Escudé batizou de “realismo
periférico”. Em resumo, este consistia no
entendimento de que
A
autonomia não é liberdade de ação. A liberdade
de ação de quase todos os Estados médios é
enorme e chega ao limite da autodestruição, não
servindo, portanto, como definição da autonomia.
[Esta] mede-se em termos dos custos relativos de
fazer uso dessa liberdade de ação... É preciso
saber distinguir entre autonomia em si mesma e o
uso que é feito dela. Por sua vez, esse uso pode
ser conceituado como investimento de autonomia
quando se dirige (acertadamente ou não) a
alimentar a base de poder e/ou o bem-estar do país,
ou como simples consumo de autonomia, quando se
constitui numa demonstração exibicionista de que
não se está sob a tutela de ninguém. (Escudé apud
Soares, 2007)
O
modelo da “política externa dependente” tem
sido alvo de investigações acadêmicas desde há
muito. Na América Latina, as primeiras tentativas
de formulação teórica sobre a política externa
dos Estados estiveram associadas aos esforços das
correntes cepalinas, adeptas de concepções
estruturalistas, à la
“centro-periferia”. Bruce Moon assim definiu
tal orientação:
A
perspectiva da dependência... conceitua a ligação
[entre o Estado forte e o Estado fraco] como uma
relação estrutural de longo prazo, em que a oportunidade
para o Estado mais fraco e a necessidade do
Estado mais forte de fazer barganha no curto prazo
são severamente limitadas. Essa escolha
constrangida do Estado mais fraco está baseada
num histórico de relações que inclui não
apenas os comportamentos dignos de recompensa –
as quais vão se tornando crescentemente desnecessárias
e infreqüentes, à medida que aumente a dependência
–, mas também uma variada gama de transações
geradoras de mais dependência, que minam a
autonomia da unidade tomadora de decisão [do
Estado mais fraco]. (Moon, 1983, p. 320, destaque
do autor)
Na
Venezuela, bem como na maioria dos países
latino-americanos, essa inserção internacional
constrangida por vínculos de dependência
correspondeu à regra dos anos sob a Guerra Fria.
Embora fosse plausível conceber variações
pontuais de postura (a depender do governante no
poder ou do tópico específico da agenda de política
exterior), a tendência era o Estado
latino-americano adequar-se à necessidade
estadunidense (o que se refletia, segundo Moon, no
próprio padrão de votação desses países na
Assembléia Geral da ONU). Tanto mais para os
venezuelanos – uma economia exportadora de
produto único na pauta comercial. A idéia de
autonomia como a capacidade de gerar a norma de
conduta na cena internacional (Araújo Castro,
1982) representava uma aspiração distante, se não
megalomaníaca. O máximo que um país “realista
de periferia” deveria pretender, como ensinava
Escudé, era a ampliação da base de poder e/ou
bem-estar de sua população. E, no tempo
imediato, o recurso ao petróleo despontava como
caminho mais eficiente e seguro para tanto.
E como explicar, à luz desse tipo de arcabouço
teórico dependentista/realista periférico, a
guinada na conduta internacional da República
Bolivariana da Venezuela, coetânea à ascensão
de Hugo Chávez à presidência do país?
Jeanne
Hey (1993), em seu trabalho sobre o Equador,
cogita a existência de pelo menos dois outros
tipos de orientação de política externa na América
Latina: a contradependência e a compensação.
A primeira é bem exemplificada pela reação
popular dos jamaicanos aos efeitos econômicos
negativos observados, em seu país, após a
implementação de um plano de desenvolvimento
nacional, arquitetado pelos Estados Unidos da América.
Como resposta, a população elegeu para a presidência
o candidato Michael Manley, um socialista cuja
plataforma eleitoral abrigava a bandeira da
“solidariedade terceiro-mundista” e o rechaço
às práticas geradoras de dependência das potências
ocidentais. Uma ilustração para a segunda
modalidade seria a política externa mexicana sob
o domínio do PRI (Partido Revolucionário
Institucional, hegemônico no México de 1929 a
2000). Para fabricar coesão social no nível doméstico,
e reconhecendo os laços estruturais, nem sempre
favoráveis aos mexicanos, mantidos com os Estados
Unidos, os governantes do PRI encamparam, via de
regra, a retórica antiamericanista (como uma
forma de compensação discursiva ao fato da
dependência). Tome-se o exemplo jamaicano ou o
mexicano como referencial, o importante é o
resultado obtido: uma política externa que busca
afastar-se da influência dos Estados Unidos da América,
na direção de maior autonomia decisória.
As
noções de “contradependência” e de
“compensação” ajudam, certamente, a decifrar
a nova política externa bolivariana do século
XXI. Jogam luz sobre os mecanismos causais que
poderão ter precipitado a guinada na conduta
internacional do Estado venezuelano. Haja vista o
fracasso de Carlos Andrés Pérez em implementar a
agenda das reformas neoliberais – preconizadas
pelos bancos multilaterais, que têm como maiores
credores as potências capitalistas – na
Venezuela da primeira metade dos anos 1990. Como o
ex-presidente declarou:
Quando
eu cheguei ao governo, eu já possuía um programa
planejado. Antes de ser empossado, eu já havia
iniciado conversações com o FMI, com o
presidente Bush, com o presidente Mitterrand, com
o presidente González [Felipe González,
primeiro-ministro da Espanha]. Eu já tinha meu
plano formado. Eu estava ciente da nebulosa situação
que eu ia enfrentar [uma séria crise econômica]...
Eu estava procurando pessoas de acordo com as
coisas que eu tinha que fazer. (Andrés Pérez apud
Amorim Neto, 2006, p. 168)
Ou seja: aparentemente, a ascensão ao poder de Chávez
guarda relação direta – exatamente como no
caso jamaicano – com a associação, feita pelos
eleitores, do falhanço de uma tentativa de
reforma do Estado às medidas orquestradas por
Estados Unidos da América e demais países
desenvolvidos.
Contudo,
se os referidos conceitos de Hey (1993) apreendem
a qualidade do fenômeno em voga, eles não
explicam a sua intensidade – ou, posto em
linguagem mais plana, eles pouco ou nada
acrescentam à tarefa de entender a verbosidade
(por vezes, agressiva) de Hugo Chávez, e a
compulsão por atacar diretamente os Estados
Unidos. Vale considerar, como hipótese auxiliar
de trabalho, que a concepção do “político”,
para Chávez e seus aliados, esteja vinculada ao célebre
conceito schmittiano, baseado na dicotomia
amigo/inimigo. Conforme dissertou Carl Schmitt:
A
diferenciação especificamente política, com a
qual se pode relacionar os atos e as motivações
políticas, é a diferenciação entre o amigo
e o inimigo. Esta diferenciação oferece
uma definição conceitual, entendida no sentido
de um critério e não como uma definição
exaustiva nem como uma expressão de conteúdos.
Na medida em que não é derivada de outros critérios,
representa para o político o mesmo critério
relativamente autônomo de outras contraposições
tais como o bem e o mal na moral; o belo e o feio
no estético, etc. (...)
A
diferenciação entre amigos e inimigos tem o
sentido de expressar o máximo grau de intensidade
de um vínculo ou de uma separação, uma associação
ou uma dissociação.
(Schmitt, 2007, ênfase nossa, tradução livre)
Assim,
ao construir uma relação – discursiva – de
“antagonismo com o status quo”,
alvejando tudo de indesejável quanto possa ser
atribuído a Estados Unidos da América e seus
aliados (ou “amigos”), Chávez demonstra
conhecer a essência do “político”. No
relativo à alegada presença de populismo na
atual conjuntura política latino-americana,
Francisco Panizza (2006, tradução livre) ainda
adiciona que:
[A]
construção relacional da fronteira política
entre o povo excluído e seus opressores é uma
operação de natureza política, que pouco tem a
ver com categorias sociológicas ou econômicas.
Como tal, a identificação populista tem um conteúdo
relacional e não substantivo, no que pode ser
articulada a elementos ideológicos muito
diferentes: pode ser utilizada por grupos de
extrema direita européia para trazer a fronteira
antagônica entre o povo branco que se vê excluído
do mercado de trabalho e privado de sua identidade
cultural, e as hordas de imigrantes que ameaçam o
seu lugar na sociedade; por Osama bin Laden, para
chamar os povos árabes a lutar por sua soberania
contra as potências ocidentais, que ocupam seus
territórios e buscam destruir sua fé; ou por Evo
Morales, para reivindicar a soberania de base étnico-popular
do povo boliviano, oprimido por 500 anos.
Apoiando-se
na lógica schmittiana e na retórica bolivariana,
Chávez tem sido capaz de exercer um apreciável
papel de liderança regional, a um só tempo
defendendo a identidade comum dos povos oprimidos
da América e combatendo, na mesma proporção, o
imperialismo dos países desenvolvidos. Amigos
e inimigos, pois.
AMORIM NETO, O. (2006), Presidencialismo e
Governabilidade nas Américas. Rio de Janeiro,
Editora FGV / Fundação Konrad Adenauer.
ARAÚJO CASTRO, J. A. (1982), “O Congelamento do
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(org.), Araújo Castro. Brasília, Editora
UnB.
HEY, J. (1993), “Foreign Policy
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F. (2006), “La Marea Rosa”, Análise de
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<http://observatorio.iuperj.br/artigos_resenhas/La_marea_rosa.pdf>.
Acesso em 9 de outubro de 2007.
SCHMITT, C. (2007), “El Concepto de lo Político”.
Disponível
em: < http://www.laeditorialvirtual.com.ar/Pages/CarlSchmitt/CarlSchmitt_
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Acesso em 9 de outubro de 2007.
SOARES,
M. S. (2007), “Autonomia e Interdependência nas
Relações Internacionais na América Latina”.
Disponível em: <
http://www.cedep.ifch.ufrgs.br/Textos_Elet/Alas/Maria%20Susana%20A.pdf>.
Acesso em 9 de outubro de 2007.