Entra ano, sai ano, um novo
Secretário-Geral, e a ONU permanece numa névoa de
incerteza institucional e pragmática. Ban Ki-Moon,
ex-ministro de Relações Exteriores da República da Coréia
(“do Sul”), assumiu a dianteira da organização em
Outubro passado precedido por demandas de monta, cujo
agravamento já está se delineando no horizonte de 2007.
Até o momento, as novas diretrizes organizacionais que
uma mudança na gestão onusiana traria (supondo que a
Secretaria tenha capacidade significativa de rearticular o
movimento da miríade de galhos do “sistema ONU”;
igualmente, que haveria diferença significativa entre as
políticas esposadas pelo atual e pelo anterior Secretários-Gerais)
permanecem em cauteloso banho-maria. A calmaria dos
gabinetes em Nova York contrasta com os constrangimentos
que se avizinham no horizonte internacional. Há evidências
para se pensar que a ONU não poderá manter-se
olimpicamente à espera de que os constrangimentos se
resolvam por si sós, ou que as práticas correntes da
organização se mostrem singularmente eficazes,
dispensando mudanças institucionais de monta.
Por um lado, com a divulgação do mais recente relatório
do Painel Intergovernamental de Mudança Climática
(PIMC), entidade associada à ONU criada em 1988, tivemos
notícia de que o “Aquecimento global” deixou de ser
uma expressão exclusiva de ativistas, ambientais ou políticos.
A julgar pelos correntes padrões de relacionamento dos
seres humanos com o ambiente planetário, coeteris
paribus, em questão de um século, a temperatura do
globo terrestre aumentaria de uma magnitude comparável
apenas às grandes catástrofes geológico-ambientais de
milênios e milhões de anos passados. Implicando, por sua
vez, a destruição de cidades costeiras, a inutilização
de espaços de cultivo, extração, criação de animais
bem como vultuosas perdas econômicas, infelizmente,
capazes de serem mensuradas. Isso sem contar os danos de
monta aos ecossistemas de nossas contrapartes animais.
No tocante à função de incubadora de linhas mestras
para seus estados-membros (e por tabela, para quase toda a
Humanidade), nem todos os correlatos do “Aquecimento
Global” foram delineados pela ONU quando da divulgação
de relatórios de seus órgãos especializados,
sistematizados no que se tornou conhecido como
“Protocolo de Quioto”. O padrão de consumo e dispêndio
dos recursos naturais, pelos habitantes do planeta Terra
no século XXI (destaque para os cidadãos dos chamados
“estados desenvolvidos”) já havia sido apontado pelo
Protocolo como inviável no médio prazo, e dia a dia
temos tido evidências nesse sentido. Não obstante, e
possivelmente com implicações mais imediatamente
relevantes para a política internacional, no pleno
vicejar da “sociedade da informação”, descobrimos
que a matriz energética do mundo contemporâneo pouco se
alterou em relação ao diagnóstico que valeu durante
todo o século XX. Os combustíveis fósseis continuam, e
poucas evidências há em contrário no que tange ao
futuro imediato, dando as cartas no planeta Terra do
Terceiro Milênio. A “celularização” do mundo parece
depender mais do que se pensava de processos industriais e
insumos “tradicionais”. Cadeias produtivas cada vez
mais espacialmente extensas e densas desaceleram a transição
da economia “do combustível” para aquela “da
informação”. As novas super instalações produtivas
do globo – China e Índia – são impulsionadas pela
mesma força que propalou as fábricas de Manchester, em
idos do século XVIII.
O desafio postado à ONU como instituição relevante
nessa área temática se estende para além do rulemaking.
Como seria possível prover a “contenção” de alguns
bilhões de indivíduos nas economias dos estados
emergentes? O PIMC aponta que os estados que formam a
sigla BRIC (República Federativa do Brasil, Federação
Russa, República da Índia e República Popular da
China), juntos, emitem carbono em quantidade superior ao
bode expiatório do aquecimento global, os Estados Unidos
da América .
E a tendência é que a contribuição dos emergentes para
as emissões globais de carbono só aumente – algo que,
curiosamente, não é uma das preocupações manifestas no
“Protocolo de Quioto”. A redução das emissões
globais de gás carbônico (CO2) para os índices
verificados em 1990 implicaria a manutenção de uma emissão
per capita ínfima, para os cidadãos dos estados
do BRIC – algo incompatível com o desenvolvimento econômico
voraz que se seguiu, a despeito das convulsões do
capitalismo globalizado. E, no que tange à ONU, uma questão
valorativa clama por solução: como incentivar o
desenvolvimento econômico ecologicamente sustentável se
o “capitalismo selvagem” se encarrega mais rapidamente
de alçar milhões de seres humanos dos umbrais da pobreza
para o mall global? Entre os seres humanos e nossa
biosfera, a ONU está perdendo a corrida em ambas as
frentes.
Para além do problema ambiental propriamente dito, da
interseção deste com a promoção do desenvolvimento
econômico em áreas notoriamente apinhadas de pessoas
vivendo em condições consideradas subumanas pela própria
ONU (mais de meio bilhão de miseráveis na Índia e
China, por exemplo), temos as implicações políticas da
renovada relevância dos combustíveis fósseis. A América
Latina está na proverbial vanguarda da “reconciliação”
da economia mundial com os combustíveis fósseis (ou
“ressaca” do otimismo com relação a novas fontes). Não
apenas os cidadãos dos estados latino-americanos hão de
atentar para a renovada relevância política do controle
dos combustíveis fósseis como forma de legitimação de
regimes improvisados sobre os escombros das “democracias
liberais” de 1980-1990. O desenvolvimento econômico –
bem como a competição entre estados, desaguando na arena
da Segurança, haja vista as recentes corridas
armamentistas abaixo do Equador – emana, em boa medida,
dos campos de extração e dos gasodutos. Poderíamos
generalizar o quadro para conformar uma tendência
mundial? Os estados do Oriente Médio teriam menos fumaças
de cautela de se pronunciar a este respeito, à luz de
suas últimas quatro petrodécadas.
Já adentrando o campo da Segurança, é sintomático o
silêncio corrente no que dantes era uma acalorada polêmica
nas chancelarias e nos corredores de Nova York. A reforma
da ONU (com destaque para o alargamento de seu órgão
precípuo, o Conselho de Segurança) prontamente se postou
em segundo plano. Não apenas no tocante à proverbial
“guerra” contra o Terror. No presente momento, o que há
de mais candente, capaz de relegar a reforma da própria
organização ao limbo, se refere à corrente controvérsia
sobre os programas nucleares da República Islâmica do Irã
e da República Popular Democrática da Coréia (“do
Norte”) – estes temas, por sua vez, já abordados por
este articulista nas páginas d”O DEBATEDOURO .
No que tange à controvérsia sobre os programas
nucleares, a ONU paira com dificuldade entre os dois
extremos de uma de suas faces, “foro de concertação
das grandes potências” (característica que a
singulariza diante de sua antecessora, a Sociedade das Nações).
Há a possibilidade da ONU funcionar a contento como um
sistema de Segurança Coletivo, permitindo a formação de
uma coalizão de estados que empregue a força dentro dos
parâmetros do Direito Internacional para responder a um
ato de agressão (caso da Primeira Guerra do Golfo de
1990-91). O contrário também pode ocorrer, a ONU se
tornando um foto de dissensão entre as grandes potências,
inviabilizando uma coalizão como a de 1990-91, abrindo
caminho para atos unilaterais (caso da Segunda Guerra do
Golfo, de 2003). Adicionalmente, o sucesso do programa
nuclear coreano, bem como nos resultados modestos da
cooperação nuclear para fins pacíficos desde a criação
do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (conhecido como
TNP) em 1969, catalisadores poderosos para o ocaso do
regime de não-proliferação nuclear que tem a Agência
Internacional de Energia Atômica (AIEA), um órgão da
ONU, como sua instituição central.
Medidas pragmáticas brotam aqui e ali, no esteio da
espiral de tensões interestatais – e tais medidas
incidem, quando não para relativizar o papel da ONU na
manutenção da Paz e Segurança internacionais (problemas
são solucionados sem o recurso à organização), para
fragilizar políticas consagradas da gestão onusiana de
Kofi Annan. O governo da Sérvia, por exemplo, foi
recentemente inocentado por um dos órgãos da ONU, a
Corte Internacional de Justiça, no tocante ao genocídio
dos bósnios na primeira metade da década passada, na então
Iugoslávia (essa absolvição inclui o infame episódio
do massacre bósnio por paramilitares sérvios na cidade
de Srebrenica em 1995, sob as vistas de uma guarnição
onusiana que não estava estritamente autorizada em termos
legais a utilizar a força contra os agressores – o que
foi considerado pela própria ONU uma das grandes máculas
da história da organização ),
às vésperas da divulgação de relatório da ONU
versando sobre o futuro status da (ainda) província
ex-iugoslava do Kosovo (status esse que pode inclusive
marcar a independência completa da ex-província e a criação
de um novo estado na historicamente conturbada região dos
Bálcãs ).
Por sua vez, a República Democrática da Coréia, após
alegadamente ter testado um artefato nuclear subterrâneo
dias antes da eleição do sul-coreano Ban Ki-Moon para a
Secretaria-Geral da ONU, logrou trazer os Estados Unidos
da América novamente à mesa de negociação. O governo
comunista acena com a destruição da usina de Yongbyon (a de maior envergadura daquele
estado) e o retorno dos inspetores da AIEA às suas demais
instalações nucleares em troca de auxílio econômico e
de 50.000 toneladas de petróleo cru .
Para além de mais uma evidência da relevância hodierna
da diplomacia petrolífera, percebe-se um papel da
ONU nessas negociações por demais modesto, algo
paradoxal para uma organização nascida sob a égide do
desarmamento nuclear .
Finalmente, a República Árabe da Síria e a República
Islâmica do Irã foram convidados a participar de reuniões
de cúpula na semana vindoura com o atual governo da República
do Iraque, com o fito de “colaborar para a segurança”
do último .
Ambos os estados permanecem no rol de “estados
pertencentes ao Eixo do Mal” declarado pelo governo dos
Estados Unidos da América (atualmente, ocupando o território
iraquiano) no rastro dos atentados ao território
estadunidense ocorridos em 11/09/2001. O governo
estadunidense têm reiterado sua posição contrária ao
programa nuclear iraniano em uma multiplicidade de declarações
e decisões ,
incluindo o patrocínio de resoluções do Conselho de
Segurança que envolvem sanções econômicas e militares
àquele estado islâmico .
Igualmente, o governo estadunidense têm recentemente
acusado diretamente o governo islâmico de patrocinar ações
terroristas e grupos insurgentes no corrente conflito em
território iraquiano .
A ONU também mantém perfil baixo nas supracitadas
negociações, que remonta ao episódio do assassínio do
enviado especial do Secretário-Geral à região em 2003,
Sérgio Vieira de Mello, pela insurgência iraquiana.
Situações como a definição do futuro status de
Kosovo expõe uma das hodiernas fragilidades da ONU. Já
de muito tempo, os destinatários de suas ações não
mais se restringem aos seus estados-membros, entidades
soberanas. Subsidiariamente ao tradicional statecraft
que incide sobre as ações da organização, a tomada de
decisão onusiana passa a ser cada vez mais influenciada
(senão informada) pelo non-statecraft de populações
humanas em situação de vulnerabilidade em contato
face-a-face com os desdobramentos das decisões do Secretário-Geral.
Este novo público atuante não tem, correntemente,
assento nos corredores de Nova York e Genebra. Organização
criada sob a égide da soberania de estados territoriais,
a ONU tende a tratar esse novo destinatário
(costumeiramente, vítima) de suas ações equacionando o
que poderíamos (em termos habermasianos) denominar peoplecraft
a algo de mais simples lida – statelesscraft. Ao
propalado “déficit democrático” da organização,
pois, soma-se uma relação direta, autoritativa, com
populações ao redor de todo o globo, mas esta manifestação
de autoridade da ONU tem sua legitimidade crescentemente
contestada exatamente por seus novos destinatários.
Ainda, presumidos “representantes” desse novo público,
as Organizações Não-Governamentais (ONGs), conquanto
tenham presença cada vez maior nas artérias do
“sistema ONU”, têm sua influência diluída em meio
ao fogo duplo da oposição estatal ad hoc e da cada vez
maior “afinidade eletiva” entre seus programas e ações
unilaterais de estados específicos que criam condições
“ideais” para o trabalho dessas ONGs (tese
recentemente esposada por Vasuki Nesiah ).
As dúvidas que são aventadas no decorrer deste artigo
acerca da corrente gestão onusiana o tempo, certamente,
se encarregará de responder. Não fosse o tempo uma
vidente madrasta, que só tem utilidade retrospectiva,
poderíamos aguardar tal vaticínio. Na impossibilidade de
fazê-lo, resta-nos aguardar, ansiosamente, que as
linhas-mestras da gestão Ban Ki-Moon se delineiem no
dia-a-dia da organização. O mundo (para além dos
estados-nação) aguarda, senão ansiosamente, se movendo.