ERRO
TÁTICO, ACERTO ESTRATÉGICO
Iniciativa
do Itamaraty falha na tentativa de estabelecer diálogo
entre acadêmicos e diplomatas, mas acerta na estratégia
democratizante
Por
Dawisson Belém Lopes
Talvez
nem tenha sido, formalmente, o primeiro passo nessa
direção. Algumas medidas anteriores já indiciavam a maior
abertura institucional e o estreitamento entre a sociedade e o
corpo diplomático brasileiro como diretrizes desta segunda
gestão de Celso Amorim à frente do Ministério das Relações
Exteriores (MRE). Basta lembrar, por exemplo, a polêmica que
envolveu a decisão de tornar a prova de inglês um requisito
não-eliminatório nos exames de acesso à carreira diplomática;
ou a intenção de expandir a base do serviço diplomático,
com a provável admissão de 400 novos funcionários ao quadro
do Itamaraty, ao longo dos próximos 4 anos. Nada houve, porém,
que se assemelhasse, nos moldes, à I
Conferência Nacional de Política Externa e Política
Internacional,
realizada nos dias 6 e 7 de julho de 2006, no Palácio do
Itamaraty, cidade do Rio de Janeiro.
A
proposta do evento consistiu, segundo se anunciava, em
oferecer um espaço para a troca de idéias entre expositores
(diplomatas e acadêmicos) e a audiência (composta por
professores de cursos de Relações Internacionais de todo o
país) sobre a situação do Brasil “no mundo que vem aí”.
Mais do que isso, a Conferência era a oportunidade de que
disporia o MRE para prestar contas à sociedade de uma gestão
que – sem adentrar o mérito da avaliação qualitativa –
se notabiliza (comparativamente, em relação a momentos
anteriores de nossa política externa) pela exposição aos
meios de imprensa.
A
democratização da democracia
A
promoção de debates entre o Itamaraty e setores da sociedade
civil não é propriamente uma novidade histórica. Desde a década
de 1990, registra-se a preocupação do MRE em não se
descolar completamente das demandas da população – o que
se manifesta, por exemplo, na realização de consultas da
diplomacia nacional ao empresariado e a organizações não-governamentais
a respeito de questões pontuais da política externa. Nesta
Conferência do
Palácio do Itamaraty, por sua vez, anunciou-se que, além do
encontro entre diplomatas e acadêmicos, está programado para
o futuro próximo um debate entre o ministro das relações
exteriores e prefeitos da Federação brasileira.
O
esquadrinhamento da comunidade política em segmentos mais ou
menos delineados é o corolário de uma concepção de política
externa que se aproxima da teoria democrática de Robert Dahl,
o qual entronizou no léxico político contemporâneo a noção
de poliarquia
– espécie de manifestação institucional possível da
democracia em contextos políticos complexos. Numa versão
otimista, o que se argumenta é que a poliarquia é um
estágio médio entre um regime autoritário e uma democracia
participativa plena. A premissa em que assenta a atual gestão
do MRE parece acertada, se entendemos como credível a hipótese
de que as famílias brasileiras (ainda) não discutem questões
de política externa à mesa do café do manhã. Contra essa
constatação, dificilmente haverá argumentos. É também o
nosso palpite. Porém, se se quer investir o MRE com a autêntica
autoridade democrática, dependente de uma participação do
grosso da população no processo de tomada de decisão, a idéia
de poliarquia deve ser considerada como apenas um arquétipo
de um arranjo democrático precário e imperfeito – e, por
isso mesmo, uma etapa a ser superada, no longo caminho que vai
desde a lenta abertura de um corpo diplomático hermético a
reivindicações populares à efetivação de uma política
externa democraticamente orientada.
Um
outro ponto sensível da discussão em tela concerne à
integridade do compromisso democrático do MRE. Na palestra
que deu abertura à Conferência, realizada pelo secretário-geral
das relações exteriores, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães,
foi verbalizado o ânimo itamaratyano de promover uma
“diplomacia participativa”, aberta aos estímulos da
sociedade. Esse ânimo, entretanto, contrasta com o
pronunciamento do embaixador Jerônimo Moscardo, presidente da
Fundação Alexandre de Gusmão (promotora do evento). Isso
porque Moscardo, ao iniciar os trabalhos, fez menções laudatórias
a Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros,
resgatando, ao fim do discurso, um trecho de San Tiago Dantas
sobre a “Política Externa Independente” [1961-64]. A
exaltação dos três presidentes e de suas concepções
voluntariosas da política externa é provavelmente lastreada
por uma percepção do papel do Itamaraty como guardião da
“ragione di
stato”,
isto é, da função auto-atribuída pelo MRE de resguardar o
que é convencionado (internamente, entre os membros do corpo
diplomático) como sendo o “interesse nacional”
– numa chave pouco democrática, pois. Esse sutil – embora
significativo – desencontro entre as falas pode sugerir, se
nada mais, a assimetria entre a enunciação dos princípios e
propósitos do MRE pelos chefes da Casa e a real percepção
estratégica do estatuto do MRE na condução da política
externa brasileira contemporânea por esses mesmos diplomatas.
A
pedagogia da democracia
Os
prometidos debates entre acadêmicos e diplomatas na
Conferência,
quando existiram, foram marcados pela pouca densidade. O prazo
curto para a exposição das idéias (10 minutos para cada
expositor, em princípio) contribuiu para alguns atropelos e
lacunas nas apresentações. Além disso, esteve nítido,
durante todo o evento, o divórcio metodológico entre a
academia e a diplomacia, o que em muito dificultava a já
complicada missão de estabelecer diálogo entre as partes. Em
bom português, a impressão era a de que, apesar da aparente
harmonia e concordância substantiva, diplomatas e acadêmicos
recorriam a diferentes gramáticas – o que resultava não na
esperada troca e construção de argumentos, mas em cacofonia.
Há que considerar, ainda, a presença de um corpo de
expositores que, se não inteiramente dócil, mostrava-se, de
saída, bastante inclinado a endossar os pilares da gestão
Amorim. Do ângulo da audiência, nada muito diferente.
Professores pouco habituados a interpelar o aparelho de Estado
demonstravam dificuldade em desempenhar o papel cidadão de
fiscalizar e questionar as ações do MRE. Questões retóricas ou
fora de foco se sucediam, reprisando o já mencionado “diálogo
de surdos” entre os expositores, integrantes das Mesas.
Decididamente, não há dinâmica discursiva que sobreviva em
um tal estado de coisas.
Tudo
exposto, seria
natural a ilação de que a Conferência representou um “faux
pas” do
Itamaraty. A conclusão não faria justiça. A convivência
democrática dentro de uma comunidade política requer a assimilação, por parte dos seus cidadãos, de
um conjunto de procedimentos e idéias necessários ao bom
funcionamento das instituições. De pouco valem as instituições
se os “modelos mentais” dos indivíduos membros da
comunidade política não estiverem devidamente conformados à
vida em um contexto democrático. Noutros termos, o que se
quer defender é a visão de que uma democracia, como quer que
esteja ela institucionalmente organizada, embute uma
pedagogia, uma aprendizagem, tanto individual quanto coletiva.
E tal aprendizagem demanda habituação, reflexão, adaptação
contínua. Outro ponto é que, se não quisermos correr o
risco de essa “pedagogia democrática” ser induzida
“pelo alto” e, portanto, castrar a autonomia política dos
indivíduos, é preciso dar mais tempo ao desenvolvimento do
processo. Já conhecedores das “regras do jogo”, acadêmicos
e diplomatas terão melhores chances de, no futuro,
estabelecer diálogos mais produtivos, com genuína simbiose.
A Conferência é apenas o início.
Por
fim, é importante notar que, embora a iniciativa da Conferência
não tenha atingido plenamente os objetivos anunciados, ela
doravante passa a integrar o repertório de práticas de
controle democrático ("accountability
vertical") com que conta a sociedade
brasileira na condução de sua política (interna e externa).
Nada mais saudável, sobretudo para uma jovem democracia
latino-americana.