O
conflito colombiano e a crise diplomática da região
andina
Diogo
Monteiro Dario
Os
recentes eventos envolvendo a Colômbia voltam a
colocar em voga o potencial de seu conflito interno de
repercutir sobre a condição de segurança da região
andina e da América do Sul.
No dia 1º de Março, através de um bombardeio
em território equatoriano, As Forças Armadas
Colombianas mataram o membro do secretariado das Forças
Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) Luiz
Edgar Devia, conhecido como ‘Raúl Reyes’.
Em seguida, os soldados colombianos entraram no
Equador atrás do corpo, e celebraram a operação
como uma importante vitória militar sobre o oponente,
minimizando o fato de a ação ter tomado lugar em
território de outro país.
A
configuração do conflito colombiano vinha apontando
para o tensionamento das fronteiras com Venezuela e
Equador. Segundo
Forrest Hylton(2006), esse conjunto de circunstâncias
está relacionado com a postura mais agressiva adotada
por parte do governo Uribe em relação ao conflito
interno. A
tensão diplomática nas fronteiras colombianas pode
ser parcialmente entendida a partir dos efeitos do
Plano Patriota (Hylton, 2006).
A proposta do plano é a de que a segurança do
país deveria ser garantida pela maior presença das
autoridades nacionais ao longo do território.
Contudo, dada a complexa relação entre os
grupos militares, paramilitares e guerrilheiros, a
intensificação do seu enfrentamento tem gerado
efeitos dramáticos.
Tal dinâmica acarreta não só um aumento do número
de mortos e feridos, mas a destruição das
localidades dessas pessoas; que se tornam deslocados
condenados a viver fugindo do conflito, sujeitos às
mais degradantes condições de sobrevivência.
Quando um determinado grupo(militar,
paramilitar ou guerrilheiro) se consolida numa região
os índices de violência e de deslocamento diminuem.
Mas quando existe disputa em torno do controle
da região, estes voltam a crescer(Alto Comesinado de
Naciones Unidas para los Refugiados(ACNUR), 2005).
É importante ainda ter mente ter em mente que
o deslocamento não pode ser entendido como
simplesmente uma conseqüência ou efeito não
intencionado do conflito civil.
O que torna esse processo particularmente
perverso é o fato de que o deslocamento também é
uma arma de guerra instrumentalizada por militares,
paramilitares e grupos insurgentes, para tentar
inviabilizar as operações do grupo adversário(destruindo
seus recursos de abastecimento e refúgio)(Latin
America Report, 2006).
A
operação através das fronteiras com países
vizinhos à Colômbia é parte do mecanismo de atuação
das guerrilhas há anos.
E as tensões com Venezuela e Equador, apesar
de nunca terem chegado a esse ponto,
são problemas recorrentes da política externa
colombiana.
A
fronteira com a Venezuela é marcada por uma forte
presença dos grupos paramilitares e, em menor escala,
do Exército de Libertação Nacional(ELN).
O país faz parte da rota do trafico de armas
que alimenta os guerrilheiros através do Pacífico.
Não existe qualquer interesse em obstruir o
fluxo dos migrantes econômicos.
Contudo existe pouca vontade política, por
parte das autoridades venezuelanas, de dar agilidade
ao processo de reconhecimento do estatuto do refúgio
aos que chegam fugidos do conflito colombiano.
As organizações de direitos humanos denunciam
que na fronteira venezuelana esses refugiados estão
particularmente vulneráveis às arbitrariedades das
autoridades locais, sendo vítimas ocasionais de
extorsão e detenção injustificada(Latin America
Report, 2004)
A
fronteira com o Equador conta com massiva presença
das FARC. Os
efeitos de deslocamento advindos da política de
segurança de Uribe e do Plano Patriota são fonte
especial de preocupação para os equatorianos, que não
têm como controlar nem a entrada de refugiados, nem
que os insurgentes utilizem o território nacional
para se proteger das autoridades colombianas.
A dificuldade nas relações com o Equador
aumentam na medida em que além de haver um fluxo
comprovado de armas do Equador para dentro do
conflito, militares equatorianos estão envolvidos
nessas negociações.
Como o país é pequeno e a economia frágil, a
intensificação do fluxo de refugiados colombiano
acaba exercendo forte impacto sobre as taxas de
desemprego no Equador.
Isso acarreta uma crescente xenofobia da qual
os colombianos tem sido vítimas, e onde são taxados
de traficantes e terroristas.(Latin America Report,
2004).
Apesar
da teatralidade das apresentações oferecidas por
aqueles que fazem recurso ao famoso tabu da soberania
e o discurso do terrorismo; e das demonstrações
comoventes de solidariedade ao Equador (mesmo que
nenhum equatoriano tenha saído vitimado no
incidente), o Presidente da Venezuela Hugo Chávez
foi, inicialmente, o que se mostrou mais disposto a
continuar pressionando o governo colombiano.
Chávez deslocou tropas para a sua fronteira
com a Colômbia mesmo antes que o Equador, país
agredido, o fizesse(Reuters, 02/03/08).
Chegou a decretar, em 6 de Março, o bloqueio
das importações da Colômbia(Associated Press,
06/03/08). O
Presidente do Equador, Rafael Correa, reagiu
posteriormente e o da Nicarágua, Daniel Ortega, tomou
‘carona’ na visibilidade internacional dos
acontecimentos para divulgar causa própria.
Da
mesma forma, Uribe prontamente se dispôs a usar as
informações obtidas pela polícia colombiana no
acampamento de Reyes para indiciar Chávez ante o
Tribunal Penal Internacional(por genocídio e
financiamento de grupos terroristas)(Efe, 05/03/08).
A um primeiro olhar, tal tentativa pode parecer
um tiro distante.
Os tais dados de computador investigados pela
polícia colombiana, com o apoio do FBI são,
efetivamente, bastante claros a respeito da comunicação
de anos mantida entre Chávez e os guerrilheiros das
FARC (notória e que já dura mais de uma década).
Contudo, as acusações específicas levantadas
têm como base referências ambíguas dentro dos
documentos e provavelmente não seriam suficiente para
o levantamento de um caso consistente(como os supostos
US$ 300 milhões que Chávez haveria disponibilizado
para o grupo).
Contudo,
todo o eixo argumentativo de Uribe tem uma lógica
inequívoca: reafirmar o estatuto das FARC como um
grupo terrorista desprovido de qualquer caráter político,
e a partir daí tentar criminalizar qualquer tentativa
de diálogo com o grupo, usando como recurso o
discurso do terrorismo.
É isso que torna a discussão a respeito da
libertação de prisioneiros e o episódio que
terminou com a morte Raul Reyes eventos indissociáveis.
A abertura de um diálogo com as FARC aumenta a
pressão internacional pelo investimento nas
possibilidades de um processo de negociação.
A morte de um comandante importante do grupo
aumenta a expectativa em torno da vitória militar
definitiva que evitasse ao governo colombiano as
concessões que ele não esteja disposto a fazer.
Era preciso entrar em território equatoriano,
para tirar o corpo de Reyes de lá, antes que as FARC
o recuperassem e negassem a sua morte(é relevante que
se diga, chegaram a tentar fazê-lo).
É preciso exibi-lo como um troféu em todos os
jornais do mundo para disseminar a imagem que as FARC
haviam levado um golpe definitivo em sua estrutura
organizacional e se encontram mais próximos do que
nunca da derrota eminente.
As
FARC têm uma estrutura complexa.
Reyes já foi substituído e é difícil de
antecipar os efeitos concretos de sua morte sobre a
relação de forças do conflito.
Contudo no tocante à viabilidade de um
processo de paz na Colômbia, sua ausência certamente
terá impactos. O
secretariado das FARC tem posições heterogêneas em
relação a que rumos a organização deve tomar.
Reyes compunha o que vários especialistas
chamam de ‘ala política’ do secretariado(em
contraposição a uma 'ala militar’, formada por
comandantes menos interessados em viabilizar uma
negociação com o governo), junto com Alfonso Cano(um
dos maiores ideólogos da guerrilha e possível
substituto de Manuel Marulanda Vélez, que já se
encontra com quase oitenta anos); Iván Marquez (que
é quem tem mediado a comunicação entre o
secretariado da guerrilha e o governo Chávez) e Pablo
Catacumbo. Reyes
havia sido o porta-voz da guerrilha ao longo dos últimos
10 anos e participou ativamente do processo de negociação
que tomou lugar entre 1998 e 2002, cujo fracasso abriu
as portas para a ascensão política de Uribe.
Talvez
mais difícil para Uribe do que a pressão
internacional pelo estabelecimento de uma comunicação
com a guerrilha em torno da questão da troca de
prisioneiros, seja o papel de Chávez nesse processo.
O presidente venezuelano não só fala
abertamente sobre a necessidade do reconhecimento do
caráter político da guerrilha(questão que Uribe
trata como tabu intransponível), como lida com ela
como um ator com o qual dialoga à revelia do intermédio
do Estado colombiano.
Durante os primeiros meses de 2008, houve
reiteradas acusações do presidente Uribe nesse
sentido, rebatidas pelas acusações de Chávez de que
o exército colombiano obstruía o resgate dos reféns.
Não é a primeira vez que Chávez tenta
captalizar seus contatos com o grupo na tentativa de
se colocar como mediador do conflito.
Já havia tentado no processo de paz que teve
lugar durante o governo Andrés Pastrana(1998-2002).
Mas não foi bem sucedido na ocasião, em que
Pastrana tomou as rédeas das negociações e relegou
os demais países e organizações a um papel
marginal(Isaacson, 2003).
E justamente a intransigência de ambas as
partes que lhe oferece esta nova janela de
oportunidade. Em
decorrência das atrocidades como violações
grosseiras de direitos humanos, utilização de minas
terrestres e recrutamento de crianças para as frentes
de batalha, as FARC acabaram cortando seus possíveis
canais de comunicação com a sociedade civil e a
comunidade internacional.
Não foi difícil para o Presidente Uribe,
lançando mão de um discurso anti-terrorista e
apoiado pelos Estados Unidos, colocarem o grupo num
isolamento político quase absoluto.
Chávez oferece uma possibilidade que lhe
aufere um papel importante: um canal de comunicação
para as FARC. Mas
por outro lado, um efeito colateral desse seu novo
papel vem sendo a escalada das hostilidades entre ele
e o chefe de Estado Colômbia, o que pode vir a
atrapalhar futuramente a concretização dos acordos
humanitários.
Um
acordo humanitário de troca de prisioneiros pode
parecer a uma longa distância de conversações
concretas em torno de um processo de paz.
Mas ele pode começar a erguer uma lógica de
construção de confiança sem a qual esse segundo
momento não será possível.
Desde a eleição de Álvaro Uribe em 2002 o
que vem sendo observado é que a já significativa
reserva das FARC em relação às iniciativas do
governo que dizem respeito ao conflito só fizeram
aumentar com o Plano Patriota.
Desde que Uribe assumiu o governo, nem mesmo
tais acordos humanitários puderam ser realizados,
tamanha a desconfiança entre as partes.
A última tentativa havia sido em Novembro de
2005, com a participação de membros do Comitê
internacional da Cruz Vermelha e de observadores
internacionais(Latin America Report, 2006).
Apesar
da expectativa de impasse criada em torno dos
acontecimentos envolvendo a morte de Raúl Reyes,
tanto os representantes de Estado quanto os
guerrilheiros parecem ter optado por contornar a situação,
ao menos temporariamente. Na esfera diplomática, um pedido de desculpas e a reafirmação
do ritual sagrado da soberania parece ter sido
suficiente para os presidentes de Venezuela e Nicarágua,
apesar de Rafael Correa anunciar que 'seguirá seu próprio
ritmo para restabelecer relações diplomáticas com a
Colômbia'(Reuters, 06/03/08).
As FARC também apresentaram sinais de que
continuaram investindo no caminho do acordo humanitário
e no papel de Chávez.
Dias após a incursão do exército colombiano
no território do Equador, libertaram unilateralmente
quatro reféns(El Universal, 06/03/08).
Além disso, o governo venezuelano anunciou na
reunião do Grupo do Rio, nesta sexta feira(07/03/08)
em Santo Domingo, que já está negociando a libertação
de 10 reféns, dos quais divulgou provas de vida(Efe,
07/03/08).
O
que deve ser evitado em relação a interpretação
dos casos envolvendo a atuação das FARC no conflito
colombiano é legitimar discursos que apontem para o
grupo como o único mecanismo perpetrador da violência.
Indicativo da complexidade que perpassa os
dilemas que afligem a sociedade colombiana foram as
diversas manifestações ocorridas nesta quinta-feira,
dia 06 de Março.
Tentando captalizar parte da inusitada atenção
internacional fruto da crise diplomática, milhares de
pessoas foram às ruas nas principais cidades da Colômbia(Efe,
06/03/08). O
protesto, liderado pelo
Movimiento de Víctimas de Crímenes del
Estado(Movice), buscava chamar a atenção para os
crimes conduzidos pelos grupos paramilitares e agentes
dos Estados, atores que continuam tendo um papel
decisivo na reprodução do quadro de exclusão e violência
presente no país.
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Essa atitude de Chávez
tem um precedente: em 1999, convidou uma delegação
das FARC para um fórum em Caracas que visava
debater o Plano Colômbia e suas conseqüências
para a região andina, o que enfureceu o governo
colombiano, na época presidido por Andrés
Pastrana(Isaacson, 2003, p.18).