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  CONVERSAS

PAULO COELHO, escritor

O senhor, que vem atuando junto às Nações Unidas na promoção da paz mundial, pretende excursionar por temas de política internacional em um novo livro?

PAULO COELHO: Eu acho que, de uma certa maneira, todos os meus livros já estão tocados pela necessidade dessa paz. Nestes próximos anos eu vou procurar me engajar no tema, vou procurar agir, fazer alguma coisa; e a partir do momento em que isso se transformar em ação, é óbvio que pode vir a inspirar, senão um livro, textos a respeito, ou pronunciamentos a respeito... É usar as ferramentas que estão nas minhas mãos, como escritor, para promover a paz entre os povos, junto com a ONU, que tem essa responsabilidade.

 

Que iniciativas ou experiências você pretende utilizar para levar essa mensagem de paz? De que forma as mensagens de paz podem estimular o diálogo?

Hoje em dia há um mundo que tudo está muito separado; os valores políticos, econômicos e religiosos são bastante diferentes e estão polarizados. Enquanto isso, os valores artísticos permanecem como uma ponte intacta. Talvez, então, uma pessoa pode não estar compreendendo direito o que outra quer dizer sobre política, economia, religião, mas vai compreender a história, vai compreender a música, vai compreender a dança do outro. Dar um primeiro passo, através da arte, é fundamental. A partir daí as coisas facilitam. É claro que a religião é pessoal, ela está extremamente ligada à cultura da pessoa e, com toda certeza, se, através de histórias e de ações, pudermos buscar um diálogo, não para provar que o meu deus é melhor que o seu, mas simplesmente para dizer: ‘olha, nós estamos querendo um mundo melhor’. Isso só pode ser transmitido por meio de uma linguagem simbólica.

 

Quais são, na sua opinião, os assuntos mais difíceis que o mundo enfrenta neste momento?

Nós temos, neste momento, uma guerra completamente absurda, e que pode sair do controle – aliás, que já saiu de controle –, que é a Guerra do Iraque, onde acontecem coisas que, a meu ver, estão erradas, como a tentativa de impor valores. Cada um tem o direito de escolher o seu modelo. Eu não estou dizendo que Saddam Hussein não era um ditador. Ele era. Atacou com armas químicas o seu próprio povo. Ele era implacável. E eu, que vivi a ditadura militar brasileira, eu sei o que isso quer dizer. Mas quando começa uma ocupação, eu não consigo enxergar claramente como proceder: se os americanos ficam no Iraque, a situação é ruim; se eles saem, a situação também é ruim. Então, talvez neste momento, o Mensageiro da Paz[1] pode ter um papel. Não como um formulador de estratégias políticas ou militares, mas como um elemento que vá, de alguma maneira, diminuir a tensão e permitir que as pessoas se compreendam um pouco.

A outra coisa que é muito séria, neste momento, é o fundamentalismo. Ou seja: parece que as pessoas se grudaram à religião como um mecanismo de defender os seus valores. Não é bem assim! A religião é, sobretudo, a tolerância; a religião é a linguagem do amor. O que estamos vendo hoje é as pessoas lutando por deus. Ora, bolas: eu não consigo entender alguém sendo capaz de matar ou morrer por deus. As pessoas estão justificando a violência através da religião. Isso me parece uma coisa completamente absurda, e eu espero que, nos próximos anos, consigamos fazer as pessoas entenderem que deus não é exatamente isso.

* Transcrição autorizada. Todos os direitos à Rádio das Nações Unidas.


[1] Título concedido pelas Nações Unidas a Paulo Coelho

 

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