“É
JUSTO O TRATAMENTO DISPENSADO PELO GOVERNO
BOLIVIANO AOS INVESTIMENTOS ESTRANGEIROS
NO PAÍS?”
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SIM
Justiça
seja feita. Finalmente!
O
conceito de justiça é tradicionalmente
reivindicado pelo campo jurídico, assim
como pelos estudos da moral. Sem querer
entrar em controvérsias mais profundas,
podemos apresentar duas linhas de
argumentação – uma jurídica, outra
moral – que qualifiquem os recentes
ajustes que o governo boliviano tem
implementado em sua relação com empresas
multinacionais. Mas antes de mais nada,
deve-se manter sempre em mente a pergunta:
justo para quem? Esta pergunta exige uma
breve recapitulação histórica...
Desde
a implementação dos “ajustes
estruturais” neoliberais na Bolívia em
1985 –com o governo de Paz Estenssoro e
sob os auspícios do economista norte-americano
Jeffrey Sachs – observa-se uma progressiva
deterioração da já débil economia boliviana.
O setor minerador, até então carro-chefe
do PIB e maior gerador de receitas para o
Estado, entrou em colapso, diminuindo drasticamente
sua produção e deixando mais de 30 mil desempregados
em questão de semanas. A maioria desses trabalhadores
encontrou na migração para El Chapare e no cultivo de coca uma forma alternativa de subsistência.
O
outro setor produtivo significativo, o petrolífero,
sofreu desmantelamento semelhante durante
a década seguinte. Entre 1993 e 1997, período
dos primeiros governos de Sanchez de Lozada,
a empresa estatal Yacimenientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) praticamente
deixou de existir: com a sua
“capitalização” (privatização) o Estado
boliviano deixou de ser o detentor de fato
dos jazimentos de hidrocarbonetos, assim como
do resto da cadeia produtiva e exportadora.
O argumento central era que a YPBF não possuía
tecnologia nem capacidade de investimento
suficientes para desenvolver o setor. Dez
anos depois, a realidade mostra que o nível
de investimentos privados ultrapassa com dificuldade
os do período estatal, mesmo com a explosão
do preço internacional do petróleo. Os lucros
obtidos pelas empresas superaram largamente
o que tinha sido acordado; já os investimentos
previstos em contrato descaradamente não
foram realizados, como fica claro no tema
relacionado à obrigatoriedade de perfuração
de pelo menos um poço de exploração por
unidade territorial concedida. Infelizmente,
nem mesmo o governo de Evo Morales foi capaz,
até o momento, de punir adequadamente tais
descumprimentos contratuais flagrantes. Ainda
sobre o tema, ficou comprovado recentemente
que o funcionário do Estado – durante o
governo de Carlos Mesa em 2005 –
encarregado da auditoria sobre este
assunto teve suas viagens e outros gastos
pagos pelas empresas petroleiras
multinacionais: o investigado financiou o
investigador, como sintetizou Jaime
Quiroga Carvajal. O mesmo aconteceu na
auditoria sobre o escândalo dos “poços
novos” que, segundo a lei, pagariam
menos impostos. Foram classificados como
“novos” poços conhecidos e explorados
pela YPFB desde os anos 1980, incluindo o
de San Alberto, maior e mais rentável do
país, concedido à Petrobras. Há
indícios gravíssimos de que a estatal
brasileira tenha subornado as autoridades
estatais encarregadas da demarcação como
“novas” das áreas de prospecção.
Esse
tema é crucial: com a privatização, o
Estado boliviano passou de detentor a
comprador de petróleo, dependente dos
interesses das multinacionais. O repentino
e brusco aumento – ainda em andamento
– dos preços não beneficiou o país
possuidor de reservas; pelo contrário,
obrigou tanto o Estado quanto os cidadãos
bolivianos a pagarem muito mais pelo
produto que está sob seus pés, o que
culminou em endividamento e crises de
abastecimento, já que as empresas
multinacionais priorizam o sedento mercado
externo. Além disso, em relação ao
gás, observou-se uma “estratégia”
deveras danosa aos interesses públicos no
país: as empresas privadas que exploravam
e exportavam o gás eram as mesmas que
importavam esse mesmo produto nos países
vizinhos. Petrobras-Bolivia exportava gás
para Petrobrás no Brasil; Repsol-Bolívia
para Repsol na Argentina e assim por
diante… Os preços estabelecidos nessas
“negociações consigo mesmo” eram
irrisórios se comparados ao mercado
internacional, o que tornava o debate em
torno de tarifas (18, 50, 82%)
praticamente irrelevante enquanto não se
recuperasse o poder sobre os recursos
naturais e políticas de exportação, ou
seja, capacidade de regulação de preços
das commodities
mais importantes.
Desta
forma, sem precisar apelar para toda a
corrupção, lavagem de dinheiro e
prevaricação amplamente denunciadas e
comprovadas nos processos de
privatização e exploração de recursos
naturais, podemos perceber que, do ponto de vista da população boliviana, a mudança de atitude em
relação às multinacionais foi mais do
que justa.
Juridicamente,
o Decreto Supremo n.24806/97 de Lozada,
além de flagrantemente inconstitucional,
nunca foi aprovado pelo congresso, ou
seja, nunca deveria ter entrado em vigor.
Sobre o assunto, Joseph Stiglitz afirma
que Morales não nacionalizou nada porque
não havia nada para ser nacionalizado,
já que a privatização tinha sido
ilegal: no máximo se tratava de uma
recuperação de ativos ilegalmente
subtraídos do patrimônio público,
ferindo os marcos reguladores
constitucionais e a sacrossanta
“segurança jurídica” de forma
criminosa.
Moralmente,
vemos que a democracia foi seriamente
atacada quando se ignorou a vontade da
mais alta instância de poder do país –
Parlamento -, algo que comprometeu o
sistema representativo e as demais
instituições (some-se a isso a
gigantesca desaprovação popular da
medida, indicada por todos os institutos
de pesquisa, inclusive os ligados ao
governo e às petroleiras). Além do mais,
as promessas de crescimento econômico e
desenvolvimento social associadas às
reformas neoliberais apenas geraram mais
miséria, descontentamento popular e
incapacidade do Estado em promover o
bem-estar. Os bolivianos, com exceção da
minoria elitista e racista que comanda o
país há séculos, ficaram mais pobres e
com menos recursos para desenvolver seu
país após o neoliberalismo. Parece justo
que eles desejem escolher soberanamente o
melhor destino para suas riquezas,
material e humana. A expulsão de Lozada
– que hoje vive em Miami – por uma
revolta popular, os 53% de votos para
Morales, assim como os quase 90% de votos
a favor do “sim” no plebiscito sobre
nacionalização de hidrocarbonetos em
2005 demonstram que se justiça
tem alguma relação com democracia,
então nada mais justo do que respeitar as
repetidas demonstrações do povo (demos)
em prol das nacionalizações e
recuperação do que lhe pertence.
Naturalmente,
os mercados internacionais e os
investidores urram por “justiça”:
querem poder continuar a comprar o gás
mais barato do mundo sem contrapartida
para o desenvolvimento do país ou
melhorias para sua população, custe o
que custar. Ameaçam com arbitragens
internacionais que também não estão de
acordo com a Constituição do país, não
possuindo valor legal, ainda que estejam
previstas nos contratos de
“capitalização e riscos
compartidos”. Mas enquanto não
conseguirem explicar como que após vinte
anos de neoliberalismo – e uma década
de exploração privada dos
hidrocarbonetos – a Bolívia continuou
sendo o país mais pobre das Américas
enquanto os lucros das multinacionais do
setor não param de explodir, tal
tentativa vai sempre esbarrar no furioso
senso de justiça do povo boliviano.
Miguel
Borba de Sá, 25,
é bacharel e licenciado em História
(UFRJ) e mestrando em Relações
Internacionais pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro.
:::
NÃO
La
Paz em teto de zinco quente
Há
um provérbio árabe que afirma ser o
dinheiro como o vento, por só entrar pela
porta se puder sair pela janela. De modo
nada sutil, esse velho provérbio reflete
uma visão de mundo particularmente
simbólica para a lógica da realização
de investimentos transnacionais. Do ponto
de vista do investidor, é economicamente
interessante realizar uma operação
internacional de investimento direto –
não se fala aqui do investimento
indireto, ou de portfolio – na medida em que seja possível auferir dessa
operação um retorno superior aos custos
da realização do aporte.
Na
imagem do provérbio, espera-se que saia
pela janela a mesma quantidade de ar que
entrou pela porta. Portas e janelas são
as fronteiras econômicas do Estado, as
quais devem estar abertas para que o
investimento estrangeiro possa oferecer um
sopro de frescor aos que vivem sob aquele
teto. A progressiva universalização do
mercado pode ser, dessa forma, apropriada
pelo Estado em benefício próprio sem que
– janelas abertas – o fluxo
universalizante do capital seja
interrompido. É interessante para o
Estado deixar entrar os bons ventos do
capital estrangeiro, contribuindo assim
para que a metafórica casa mantenha-se em
uma temperatura amena, ou seja,
contribuindo para que o Estado se
desenvolva em um ritmo mais compatível
com as suas demandas sociais, uma vez que
os Estados poucas vezes dispõem da
totalidade necessária de recursos para
promoção isolada de seu desenvolvimento
econômico.
Na
Bolívia, o surpreendente episódio de
Primeiro de Maio de 2006 perturbou a
lógica das portas e janelas. Em mais um
capítulo do conflito político
cognominado “Guerra do Gás”, o
presidente Evo Morales capitaneou uma
operação de nacionalização do setor,
largamente concedido à exploração por
companhias não-bolivianas. Criou-se –
pela quarta vez – a companhia estatal de
óleo e gás, a YPFB (Yacimientos
Petrolíferos Fiscales de Bolívia).
Investimentos de várias gigantes do setor
foram tomados simultaneamente, com emprego
de suporte militar por parte do governo
boliviano, em vários pontos do país,
especialmente nos departamentos de Tarija
e Santa Cruz, que respondem sozinhos por
cerca de 95% das reservas bolivianas de
hidrocarbonetos.
Uma
análise histórica da conturbada
relação entre os diversos grupos
políticos da Bolívia e as muitas
políticas possíveis para uma gestão
desses recursos energéticos infelizmente
não cabe nessas linhas. Cumpre sublinhar,
todavia, um aspecto originalíssimo na
nacionalização de 2006: pela primeira
vez na história desse país, uma empresa
brasileira foi vítima de uma
nacionalização mediante emprego de
força. As primeiras reações à esquerda
e à direita sobre esse assunto
demonstraram a penumbra em que a
intelectualidade brasileira se encontra e
revela uma incapacidade de compreender o
Brasil e seu lugar no mundo sem recorrer a
estereótipos inadequados às condições
de nosso país.
Houve
quem se surpreendesse com a essa
nacionalização realizada in contrario sensu à lógica “Sul-Sul” que vem permeando a
intensificação dos esforços de
cooperação regional do Brasil,
especialmente a partir do momento em que
se divulgou que a PDVSA da Venezuela
passaria a atuar em parceria com sua
contraparte boliviana (altamente
descapitalizada devido às dificuldades
econômicas endêmicas desse país), na
exploração dos hidrocarbonetos da
Bolívia. Houve quem defendesse uma
postura assumidamente imperial por parte
do Brasil, cogitando o emprego de força
contra a Bolívia. Houve quem quisesse
despolitizar a discussão reclamando
acesso a foros jurídicos internacionais
onde a Bolívia fosse julgada e condenada
a indenizar a Petrobras, sem cair no
mérito metafísico do justo e do injusto.
É
justo ou injusto nacionalizar a
exploração econômica dos recursos de um
país?
Trabalhando com as duas
concepções mais tradicionais de justiça
na Filosofia do Direito, podemos entender
o ato justo como o ato praticado conforme
normas existentes e válidas – em que se
confunde o justo com jurídico – ou como
o ato praticado com o objetivo de
aprimorar as relações humanas.
Ora,
no que se refere à primeira concepção
de justiça, o tratamento boliviano dado
aos investimentos estrangeiros foi justo.
Todos os investidores estrangeiros foram
tratados da mesma maneira. Apesar da
relutância mais expressiva da Petrobras e
também da espanhola Repsol, houve um
acordo político favorável à Bolívia,
permitindo à Bolívia estabelecer
politicamente o valor das indenizações a
serem pagas, os novos valores para os royalties
e as novas regras de participação
estrangeira no setor. É evidente que para
tal resultado concorreu
a tristemente tradicional
falta
de planejamento da diplomacia brasileira:
a
ausência
de um tratado entre o Brasil e a Bolívia
regulamentando a promoção e a proteção
dos investimentos estrangeiros diretos foi
decisiva para motivar a Petrobras a
realizar seus investimentos através de
sua subsidiária holandesa, a PNBV, uma
vez que essa companhia estaria protegida
pelo tratado de de promoção e proteção
dos investimentos realizado entre Bolívia
e Holanda em 1965, e denunciado por
Morales quando aventado pela Petrobras.
A
segunda concepção parece-nos mais
relevante. Terá a medida tomada por
Morales contribuído para aprimorar as
relações humanas em seu país e também
as relações da Bolívia com o mundo?
Internamente, o impacto da medida agravou
as graves disputas políticas entre grupos
regionais e de classe. A Bolívia beirou a
guerra civil e teve que lidar com o
separatismo dos departamentos da chamada
Medialuna, que se beneficiavam politica e
economicamente da presença do capital
estrangeiro em suas circunscrições – a
Petrobras sozinha correspondia a
aproximadamente um quinto do PIB da
Bolívia. De outro lado, os departamentos
do Altiplano, carentes de investimentos
sociais e bastante favoráveis ao governo
Morales, esperavam uma melhora das
condições sociais que até agora não se
verificou.
A falta de capital de giro e de
capacidade técnica da YPFB, compensada de
modo insatisfatório pela aparelhada
PDVSA, esta vítima das desastrosas
políticas de Hugo Chávez para o setor
energético, fez com que o plano de
ampliação dos lucros e da produção de
gás fosse frustrado até o momento. O
país não consegue abastecer seus
clientes – o Brasil e a Argentina –
com o volume cúbico de gás estipulado
nos acordos.
Do
lado de cá da fronteira, a expectativa de
um novo apagão – em uma infeliz
combinação de condições
meteorológicas com o efeito Morales –
pode colocar em risco a continuidade do
projeto de poder do governo Lula. Na
Argentina, já há racionamento de
energia.
Em
síntese, o tratamento dado pelo governo
Morales aos investimentos estrangeiros em
nada contribuiu para atenuar a crise
social crônica em que chafurda seu país.
Pelo contrário, a ruptura das relações
de investimentos que, desiguais o quanto
fossem, respondiam por expressiva parcela
do produto interno e conseqüentemente da
arrecadação, sufocou a já frágil
economia boliviana, agravando a crise
estrutural que assola La Paz. Brasil e
Argentina agora discutem a retomada de
investimentos energéticos na Bolívia,
dessa vez na área da hidroeletricidade,
como alternativa à crise de produção
boliviana. Com suas portas e janelas
fechadas, a Bolívia passa calor e dá
calafrios em seus vizinhos.
Bruno
Graça Simões,
23, é bacharel em Direito (USP) e
mestrando em Direito Internacional pela
Faculdade de Direito da Universidade de
São Paulo.