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CONTRAPONTO Os EUA invadirão o Irã?

POR QUE A PERGUNTA NÃO DEVE SER "OS EUA INVADIRÃO O IRÃ?" 

Réplica aos comentários de G. Casarões e L. G. Freire, na edição n.º 74 de "O Debatedouro"

 

Por Lucas Pereira Rezende

 

“Não existe a verdade! Há apenas maneiras de enxergar.” Gustave Flaubert

Ao se analisar questões internacionais com o foco na potência unipolar do sistema (EUA), deve-se tomar o cuidado de evitar jogar todo o peso político que se espera unicamente em suas costas, pela justificativa única que o pólo do sistema é o único responsável por todos os movimentos de balanceamento. Esperar-se-ia que assim o fosse, uma vez que os hegêmonas são os principais interessados em evitar uma mudança na balança de poder[i]. Contudo, no atual momento da unipolaridade inquestionável[ii], os EUA podem – e freqüentemente o fazem – se esquivar dos custos que o sistema lhe coloca[iii]. Na atual questão do Irã, portanto, muito se pergunta se os EUA invadirão o país de Ahmadinejad como forma de evitar a nuclearização do país. O presente trabalho vem com o intuito de contribuir para o debate inicial feito pelos colegas Casarões e Freire[iv], mas mudando-se o questionamento inicial. Crê-se que o foco da pergunta não deva ser se os EUA invadirão ou não o Irã, mas se o Irã será contido ou não de alguma forma, em seus objetivos de busca de um artefato nuclear.

Ao promover incursões por terra no Afeganistão e no Iraque, os EUA se marcaram definitivamente como o principal ator no Oriente Médio. Com isso, a potência unipolar mostrou que não tem intenções de permitir que um nova potência surja, em qualquer que seja a região, com interesses diversos do seu – o que Mearsheimer explica ao afirmar que um hegêmona regional evitará o surgimento de um outro hegêmona, mesmo que em outra região que não a sua. Qualquer ator, portanto, que demonstre ir de encontro aos seus interesses, será de alguma forma contido. Essa é a mensagem passada por Washington ao manter, mesmo a custos altos, suas forças no Afeganistão e Iraque. O que não se deve confundir, contudo, são os objetivos com o modo de sua realização. No caso dos dois últimos citados, era preciso que a potência unipolar fizesse por ela mesma o balanceamento, pois são casos em que o exemplo para os demais fica bem claro. Basta ver que o Iraque nunca representou de fato a ameaça propagada pelo governo Bush à época do início da incursão militar. As justificativas colocadas à época mostraram-se falsas. Contudo, em momento algum, os EUA se mostraram arrependidos – muito pelo contrário. A justificativa de que Saddam Hussein precisava ser tirado do poder continua, ainda hoje, presente nos discursos de W. Bush. O exemplo, portanto, de que aquele que for contra os interesses políticos da potência unipolar na região será contido foi, e ainda é, colocado. E muito bem colocado.

Ao se pensar hoje na possibilidade de uma invasão estadunidense no Irã, não se deve desmerecer os altos custos de manutenção militar dos EUA em suas bases nos dois países ocupados na região. Todavia, o que não pode ser ainda desmerecido são os interesses do pólo do sistema[v]. O Irã representa um perigo maior do que representava o Iraque em 2003 para a manutenção da balança de poder regional do Oriente Médio, onde o principal ator hoje são os EUA. Mas, há também de se pensar que, estando a principal potência já ocupada com grandes atividades militares extracontinentais, seria desejável – e até “encorajável” – que um outro ator realizasse o balanceamento necessário. Para a potência unipolar, é realizar a estratégia de buck-passing – a mais desejável forma de se ter o serviço feito ao menor custo possível. Isso vai ao encontro do que afirma Schweller sobre o comportamento dos EUA como potência unipolar, de querer receber as glórias, mas evitar ao máximo arcar com os custos de seu status, esquivando-se, sempre que possível, de agir pela demanda da estrutura unipolar, procurando dividir ao máximo os custos. A pergunta que se coloca, portanto, é se há um ator interessado na região em arcar com os custos da contenção do Irã. E a resposta é positiva: Israel.

O realismo ofensivo explica claramente os interesses de Israel na contenção iraniana. Em primeiro lugar, deixar que outro país próximo ao seu, com interesses claramente revisionistas, inimigo declarado e com capacidades ofensivas, se torne uma potência nuclear é, sim, um perigo para sua sobrevivência e não pode ser ignorado. Não tendo como optar pelo buck-passing, haja vista que seu principal aliado e o principal ator do sistema global e da balança de poder regional já enfrenta outras formas de contenção e dispêndio militar com altos custos tanto financeiros quanto políticos, só lhe resta agir. Por mais que o velho Waltz tenha afirmado que “quanto mais, melhor”[vi], a nuclearização do Irã representa para Israel um perigo muito forte para ser ignorado. Mearsheimer afirma que o interesse dos Estados é sempre a maximização do seu poder com vistas a sempre garantir a segurança. Permitir que o Irã se torne potência nuclear é agir contra a lógica do realismo ofensivo, diminuindo não só o seu poder na região como também colocando seriamente em risco a sua segurança. Não se contesta aqui que as armas nucleares não sejam um instrumento extremamente eficaz de contenção mútua – haja vista a ausência do conflito nuclear à época da bipolaridade. Todavia, entre lidar com um vizinho nuclear com intenções hostis e um vizinho com um pirulito e as mesmas intenções, qualquer país prefere o segundo. Armas nucleares são um excelente instrumento de detenção, mas sua capacidade ofensiva é alta demais para ser permitida. Uma vez adquiridas, o modo de ação muda. Mas o desejável é que não se atinja esse status. Isso afeta a balança de poder regional e desequilibra o sistema – coisas que nem Israel e nem os EUA desejam.

Um caminho contra essa argumentação seria o atual status de conflito de Israel com o Líbano, e que o país não teria condições de manter dois palcos de batalha. Há de se pensar, contanto, que essa pode ser justamente a oportunidade de que Israel precisava para abrir o caminho. Explica-se: com a eventual presença da OTAN na fronteira com o Líbano, o que por si só já demonstra a aquiescência da potência unipolar com a sua estratégia para a manutenção da balança de poder regional, Israel fica com o caminho livre para se empenhar em um outro palco de guerra, dessa vez com o Irã. Com a manutenção de sua segurança ao Norte pelos EUA – que, querendo dividir os custos, agirá através da OTAN -, Israel tem o apoio necessário de que precisava e o palco estabelecido para conter a principal ameaça à balança de poder regional, o Irã.

A reformulação da pergunta proposta na edição anterior de O Debatedouro, se os EUA invadirão ou não o Irã, portanto, está explicada. O realismo ofensivo dá a justificativa para a potência unipolar do sistema trabalhar, sim, para a manutenção da balança de poder no Oriente Médio. O melhor modo para fazê-lo é através da estratégia de buck-passing, dando o suporte necessário par que outro ator com interesses ainda mais elevados na contenção do Estado revisionista faça o balanceamento necessário. A pergunta ideal para a situação é: será o Irã contido? A resposta a ela: é racional que sim.

 


[i] Mearsheimer, John. The Tragedy of Great Power Politics. Chicago, University of Chicago. 2001.

[ii] WOHLFORTH, William C. The Stability of a Unipolar World. International Security, Vol.24, No.1 (Summer 1999), pp. 5-41.

[iii] SCHWELLER, Randall L. Deadly Imbalances – Tripolarity and Hitler’s Strategy of World Conquest. New York: Columbia University Press, 1998.

[iv] CASARÕES, Guilherme Stolle Paixão e; FREIRE, Lucas Grassi. Contraponto: É provável uma invasão militar dos Estados Unidos ao Irã? O Debatedouro, Edição 74. 20 de maio de 2006.

[v] WALTZ, Kenneth Neal. Teoria das Relações Internacionais. Tradução de Maria Luísa Felgueiras Gayo. Primeira Edição. Lisboa: Gradiva – Publicações, Ltda. 2002.

[vi] WALTZ, Kenneth Neal. More may be better. In: Scott D. Sagan; Kenneth N. Waltz, The Spread of Nuclear Weapons: a debate. 1.ed. New York: Norton, 1995.

 

® O Debatedouro - ISSN 1678 6637

 

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