Por
Lucas Pereira Rezende
“Não
existe a verdade! Há apenas maneiras de enxergar.” Gustave
Flaubert
Ao
se analisar questões internacionais com o foco na potência
unipolar do sistema
(EUA), deve-se tomar o cuidado de evitar jogar todo
o peso político que se espera unicamente em suas costas,
pela justificativa única que o pólo do sistema é o único
responsável por todos os movimentos de balanceamento.
Esperar-se-ia que assim o fosse, uma vez que os hegêmonas
são os principais interessados em evitar uma mudança na
balança de poder[i].
Contudo, no atual momento da unipolaridade inquestionável[ii],
os EUA podem – e freqüentemente o fazem – se esquivar
dos custos que o sistema lhe coloca[iii].
Na atual questão do Irã, portanto, muito se pergunta se
os EUA invadirão o país de Ahmadinejad como forma de
evitar a nuclearização do país. O presente trabalho vem
com o intuito de contribuir para o debate inicial feito
pelos colegas Casarões e Freire[iv],
mas mudando-se o questionamento inicial. Crê-se que o
foco da pergunta não deva ser se os EUA invadirão ou não
o Irã, mas se o Irã será contido ou não de alguma
forma, em seus objetivos de busca de um artefato nuclear.
Ao
promover incursões por terra no Afeganistão e no Iraque,
os EUA se marcaram definitivamente como o principal ator
no Oriente Médio. Com isso, a potência unipolar mostrou
que não tem intenções de permitir que um nova potência
surja, em qualquer que seja a região, com interesses
diversos do seu – o que Mearsheimer explica ao afirmar
que um hegêmona regional evitará o surgimento de um
outro hegêmona, mesmo que em outra região que não a sua.
Qualquer ator, portanto, que demonstre ir de encontro aos
seus interesses, será de alguma forma contido. Essa é a
mensagem passada por Washington ao manter, mesmo a custos
altos, suas forças no Afeganistão e Iraque. O que não
se deve confundir, contudo, são os objetivos com o modo
de sua realização. No caso dos dois últimos citados,
era preciso que a potência unipolar fizesse por ela mesma
o balanceamento, pois são casos em que o exemplo para os
demais fica bem claro. Basta ver que o Iraque nunca
representou de fato a ameaça propagada pelo governo Bush
à época do início da incursão militar. As
justificativas colocadas à época mostraram-se falsas.
Contudo, em momento algum, os EUA se mostraram
arrependidos – muito pelo contrário. A justificativa de
que Saddam Hussein precisava ser tirado do poder continua,
ainda hoje, presente nos discursos de W. Bush. O exemplo,
portanto, de que aquele que for contra os interesses políticos
da potência unipolar na região será contido foi, e
ainda é, colocado. E muito bem colocado.
Ao
se pensar hoje na possibilidade de uma invasão
estadunidense no Irã, não se deve desmerecer os altos
custos de manutenção militar dos EUA em suas bases nos
dois países ocupados na região. Todavia, o que não pode
ser ainda desmerecido são os interesses do pólo do
sistema[v].
O Irã representa um perigo maior do que representava o
Iraque em 2003 para a manutenção da balança de poder
regional do Oriente Médio, onde o principal ator hoje são
os EUA. Mas, há também de se pensar que, estando a
principal potência já ocupada com grandes atividades
militares extracontinentais, seria desejável – e até
“encorajável” – que um outro ator realizasse o
balanceamento necessário. Para a potência unipolar, é
realizar a estratégia de buck-passing
– a mais desejável forma de se ter o serviço feito ao
menor custo possível. Isso vai ao encontro do que afirma
Schweller sobre o comportamento dos EUA como potência
unipolar, de querer receber as glórias, mas evitar ao máximo
arcar com os custos de seu status, esquivando-se, sempre
que possível, de agir pela demanda da estrutura unipolar,
procurando dividir ao máximo os custos. A pergunta que se
coloca, portanto, é se há um ator interessado na região
em arcar com os custos da contenção do Irã. E a
resposta é positiva: Israel.
O
realismo ofensivo
explica claramente os interesses de Israel na
contenção iraniana. Em primeiro lugar, deixar que outro
país próximo ao seu, com interesses claramente
revisionistas, inimigo declarado e com capacidades
ofensivas, se torne uma potência nuclear é, sim, um
perigo para sua sobrevivência e não pode ser ignorado. Não
tendo como optar pelo buck-passing, haja vista que seu principal aliado e o principal ator
do sistema global e da balança de poder regional já
enfrenta outras formas de contenção e dispêndio militar
com altos custos tanto financeiros quanto políticos, só
lhe resta agir. Por mais que o velho Waltz tenha afirmado
que “quanto mais, melhor”[vi],
a nuclearização do Irã representa para Israel um perigo
muito forte para ser ignorado. Mearsheimer afirma que o
interesse dos Estados é sempre a maximização do seu
poder com vistas a sempre garantir a segurança. Permitir
que o Irã se torne potência nuclear é agir contra a lógica
do realismo ofensivo, diminuindo não só o seu poder na
região como também colocando seriamente em risco a sua
segurança. Não se contesta aqui que as armas nucleares não
sejam um instrumento extremamente eficaz de contenção mútua
– haja vista a ausência do conflito nuclear à época
da bipolaridade. Todavia, entre lidar com um vizinho
nuclear com intenções hostis e um vizinho com um
pirulito e as mesmas intenções, qualquer país prefere o
segundo. Armas nucleares são um excelente instrumento de
detenção, mas sua capacidade ofensiva é alta demais
para ser permitida. Uma vez adquiridas, o modo de ação
muda. Mas o desejável é que não se atinja esse status.
Isso afeta a balança de poder regional e desequilibra o
sistema – coisas que nem Israel e nem os EUA desejam.
Um
caminho contra essa argumentação seria o atual status de
conflito de Israel com o Líbano, e que o país não teria
condições de manter dois palcos de batalha. Há de se
pensar, contanto, que essa pode ser justamente a
oportunidade de que Israel precisava para abrir o caminho.
Explica-se: com a eventual presença da OTAN na fronteira
com o Líbano, o que por si só já demonstra a aquiescência
da potência unipolar com a sua estratégia para a manutenção
da balança de poder regional, Israel fica com o caminho
livre para se empenhar em um outro palco de guerra, dessa
vez com o Irã. Com a manutenção de sua segurança ao
Norte pelos EUA – que, querendo dividir os custos, agirá
através da OTAN -, Israel tem o apoio necessário de que
precisava e o palco estabelecido para conter a principal
ameaça à balança de poder regional, o Irã.
A
reformulação da pergunta proposta na edição anterior
de O Debatedouro, se os EUA invadirão ou não o Irã,
portanto, está explicada. O realismo ofensivo dá a
justificativa para a potência unipolar do sistema
trabalhar, sim, para a manutenção da balança de poder
no Oriente Médio. O melhor modo para fazê-lo é através
da estratégia de buck-passing,
dando o suporte necessário par que outro ator com
interesses ainda mais elevados na contenção do Estado
revisionista faça o balanceamento necessário. A pergunta
ideal para a situação é: será o Irã contido? A
resposta a ela: é racional que sim.
[i]
Mearsheimer,
John. The
Tragedy of Great Power Politics. Chicago,
University of Chicago. 2001.
[ii]
WOHLFORTH,
William C. The
Stability of a Unipolar World. International
Security, Vol.24, No.1 (Summer 1999), pp. 5-41.
[iii]
SCHWELLER, Randall L. Deadly
Imbalances – Tripolarity and Hitler’s Strategy of World Conquest. New York:
Columbia University Press, 1998.
[iv]
CASARÕES, Guilherme Stolle Paixão e; FREIRE, Lucas
Grassi. Contraponto:
É provável uma invasão militar dos Estados Unidos
ao Irã? O Debatedouro, Edição 74. 20 de maio de
2006.
[v] WALTZ,
Kenneth Neal. Teoria
das Relações Internacionais. Tradução de Maria
Luísa Felgueiras Gayo. Primeira
Edição. Lisboa: Gradiva – Publicações, Ltda.
2002.
[vi]
WALTZ, Kenneth Neal. More
may be better. In:
Scott D. Sagan; Kenneth N. Waltz, The
Spread of Nuclear Weapons: a debate. 1.ed. New
York: Norton, 1995.