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  ARTIGO

Guerrilha, poder e ação coletiva: uma análise dos repertórios populares no movimento Sendero Luminoso

Por Guilherme Casarões

 

I

O movimento político Sendero Luminoso (Caminho Luminoso) é freqüentemente lembrado como um dos grupos mais radicais e, talvez por isso, marcantes da história latino-americana contemporânea. Sem dúvida, constitui um dos mais profícuos objetos de estudo que nos fornece a história peruana, particularmente por se tratar de um fenômeno com diversas especificidades, entre elas sua independência com relação às esquerdas internacionais, a ortodoxia com que adotavam o discurso ideológico marxista-leninista e as práticas maoístas, bem como as ações de guerrilha e o fomento a milícias camponesas (MONTOYA, 1988, pp. 20-24).

As práticas levadas a cabo pelo Sendero Luminoso a partir de determinado momento de sua história e direcionadas aos outcomes políticos constituíam-se em seu maior diferencial com relação às demais organizações de esquerda peruanas. O movimento se valeu, sistematicamente, de métodos pautados pela violência contra civis, táticas de guerrilha e estímulo a formações paramilitares campesinas entre 1980 e 1992. A intenção deste trabalho é jogar luz sobre tais métodos, buscando compreendê-los como repertórios particulares de ação coletiva de orientação popular. Desta forma, pretende-se fornecer novas idéias ao estudo do conceito de repertório, proposto por Tilly (1977), sob o marco teórico das culturas políticas.

Pretende-se abordar, neste breve ensaio, duas perguntas: em primeiro lugar, pode-se considerar o conjunto particular de ações perpetradas pelo Sendero Luminoso como repertório? Em segundo lugar, sendo aquele um repertório de fato, por quais ações ou linhas de conduta ele é composto? Ainda que tais questionamentos convidem a uma exploração minuciosa do modus operandi do movimento senderista, devido ao modesto escopo deste texto, não se pretende responder conclusivamente a nenhum deles, mas sim utilizá-los como guia para estudos porvindouros. A ordem das seções seguintes obedece à lógica das duas perguntas enunciadas acima.

O conceito de repertório de ação coletiva foi introduzido por Charles Tilly e postula que um dado grupo de atores sociais possui um número limitado e específico de ações que lhes são familiares (TRAUGOTT, 1993, p. 309) em função de suas identidades e interesses (TILLY, 1995). Esta é a definição básica lançada por Tilly (1977), que foi lapidada em estudos posteriores do próprio autor, como em Tilly (2005):

“A palavra repertório ajuda a descrever o que acontece ao se identificar um conjunto limitado de rotinas que são aprendidas, compartilhadas, e atuadas por meio de um processo de escolha relativamente deliberado. Repertórios são criações culturais aprendidas (...) [e] emergem do embate. (...) As pessoas em um dado espaço e tempo sabem como executar um número limitado de rotinas alternativas de ação coletiva, adaptando cada uma delas à circunstância imediata e às reações dos antagonistas, autoridades, aliados, observadores, objetos de sua ação e outras pessoas de alguma forma envolvidas no embate.” (TILLY, 2005, pp. 41-42)

Estamos tratando, desta forma, de ações que são aprendidas e reproduzidas por quem as utiliza. É importante ressaltar que os repertórios não representam necessariamente o conjunto de ações mais adequado (ou eficaz) em face de uma determinada situação, mas sim o mais factível dentre alternativas conhecidas (TILLY, 1986 apud TRAUGOTT, 1993). A concepção “fraca” de repertório, de que trataremos aqui, advoga que certas formas de protesto popular são escolhidas a partir da interação pouco estruturada entre os contendores e as autoridades, mostrando-se mais factíveis, atrativas e freqüentes que as demais (TRAUGOTT, 1993, p, 309).

No caso do Sendero Luminoso, é possível asseverar que a tática de guerrilha foi o repertório de ação coletiva escolhido dentre as possibilidades de embate com o governo peruano, processo que se iniciou em 1980. Berg (1987) afirma que, desde aquele ano, o Sendero “vem patrocinando uma campanha de guerrilha contra o governo civil no Peru (...), tendo expandido seu escopo de operações, mantido os militares na defensiva e atraído um pequeno mas significativo número de seguidores em nível nacional” (p. 165). Como dizer, contudo, que se trata de um repertório de facto conforme definido por Tilly? É necessário que alguns parâmetros, escolhidos com base na definição proposta anteriormente, sejam atendidos. Primeiramente, partindo da concepção fraca de repertório, busca-se verificar se o repertório tem suas origens na interação entre atores e resulta de um processo de aprendizagem derivado do embate. Em segundo lugar, é preciso confirmar se a ação é freqüente a ponto de ser entendida como rotina. Em terceiro, questiona-se a especificidade da ação, de forma a verificar se ela é de fato particular ao grupo em questão. Acreditamos que as ações em tela atendem a tais parâmetros e podem, por conseguinte, ser chamadas de repertório. A argumentação será desenvolvida a seguir.

Além disso, essa análise não faria sentido se o grupo escolhido como objeto de estudo não representasse força coletiva relevante. Palmer (1986) atribui o sucesso sui generis do Sendero Luminoso entre a população campesina à negligência do governo central peruano com relação às demandas particulares das empobrecidas províncias serranas, como Ayacucho, Huancavelica e Andahuaylas. Starn (1995), por sua vez, pondera que o movimento senderista, em seus primeiros anos de ação concertada, entre 1980 e 1985, “foram inquestionavelmente bem-sucedidos em conquistar significativa simpatia dos vilarejos na zona de guerra. Muitos camponeses estavam felizes em ver a retirada de autoridades ineficientes e corruptas” (p. 405). O Sendero criou, por meio de um considerável empreendimento discursivo, a idéia de que a entrada do exército peruano nas regiões rurais serranas seria equivalente a uma “ocupação estrangeira” (p. 406) – lançando a partir de uma perspectiva centro-periferia, assim, as sementes da contenção das autoridades peruanas (BERG, 1987; MONTOYA, 1988).

É possível observar a dinâmica de aprendizagem envolvida na constituição das ações senderistas, processo que durou em torno de duas décadas. As origens do Sendero remetem ao comando de Huamanga do Ejército de Libertación Nacional (ELN), organização criada em 1962 com fins de treinamento e educação revolucionária de esquerda. Em Huamanga, capital do distrito rural de Ayacucho, os trabalhos do Ejército eram concentrados em sua principal universidade, a Universidad Nacional San Cristóbal de Huamanga (UNSCH), e liderados por Guzmán, que lá lecionava filosofia. Por volta de 1964, significativa parcela do corpo docente e discente da universidade participava das atividades do ELN, e muitos deles eventualmente se transformariam em figuras-chave na hierarquia senderista (PALMER, 1986, p. 128). Ao longo dos anos 70, significativo número de militantes senderistas e recrutados ativos no movimento era composto por estudantes secundaristas e universitários das favelas e do interior de Ayacucho. “Neste período começou a construção do aparelho do partido, que teve um sucesso surpreendente, especialmente no ambiente estudantil. Em todo o Peru formaram-se células e comitês regionais, sendo que a maior concentração de quadros (...) estava na Serra Central e em Lima” (TAYLOR, 1988, p. 44). A idéia da criação de um movimento guerrilheiro como foco de conquista de poder no Peru, derivada diretamente dos escritos maoístas, era então ensinada e difundida pelos próprios membros do movimento de forma ativa. Em 1977, jovens militantes já estavam conduzindo sessões educativas entre os camponeses e recrutando combatentes nas vilas serranas (STARN, 1995, p. 405).

Pode-se afirmar, também, que a tática de guerrilha utilizada pelo Sendero Luminoso transformou-se em rotina a partir de 1980, momento identificado como o turning point do protagonismo senderista na história peruana[1] (PALMER, 1986; BERG, 1987; AMAYO, 1988). A rotina veio da crença quase fundamentalista de que a violência representava o único meio revolucionário, a “lei universal” sem a qual não se poderia haver a substituição de uma classe social por outra no comando do Estado (STARN, 1995, p. 409). O maoísmo era, portanto, seguido à risca, numa batalha incansável pela mudança da estrutura social e de poder no Peru. A violência seria a chave para se chegar ao poder, e a luta poderia durar um ano ou uma década, desde que o objetivo final pudesse ser alcançado (MONTOYA, 1988). De fato, entre 1980 e 1992, o Sendero levou a cabo uma guerra de guerrilha na região montanhosa do país, cujo território controlava, e diversos atentados de caráter terrorista em Lima e em outras grandes cidades peruanas.

Faz-se nota, igualmente, à particularidade do repertório senderista. Ainda que o Peru já tivesse vivenciado um breve momento de ações guerrilheiras, elas não foram capazes de lograr sucesso, confinando-se aos anos de 1963 e 1964. Ainda que conscientes da falta de preparação que acometia grande parte daqueles dispostos a realizar uma “luta revolucionária”, em sua maioria concentrados em dois grandes grupos – o Movimiento de Izquierda Revolucionária (MIR) e o próprio Ejército –, os guerrilheiros lançaram-se contra o recém-empossado governo de Fernando Belaúnde Terry.[2] Em pouco menos de seis meses, as guerrilhas estavam derrotadas. Taylor (1988) aponta que as causas desse fracasso “foram, entre outras, a escassa preparação, a falta de organização, a origem costeña de muitos membros (...) e uma interpretação errônea da situação política nacional” (p. 37). É importante compreender o fracasso das guerrilhas naqueles anos em função de duas conseqüências por ele trazidas: incentivou, por um lado, a radical reforma agrária implementada pelos militares entre 1969 e 1976 (TAYLOR, 1988, p. 38) e provocou a cisão do grupo de Huamanga, que passou a se identificar com uma estratégia rural de longo-prazo baseada na experiência revolucionária chinesa e na necessidade de uma teoria marxista contextualizada ao Peru, encontrada nos escritos de Mariátegui (PALMER, 1986, p. 128).

Desta forma, parece claro que as práticas empreendidas pelo Sendero Luminoso agregam elementos que a permitem caracterizar como repertório de ação coletiva. Trata-se de um conjunto limitado e particular de rotinas pertinentes a um grupo popular significativo e absorvidas pelo aprendizado. Resta-nos jogar luz, na próxima seção, em como esse repertório foi estruturado, e quais práticas o caracterizaram.

 

II

Se os franceses utilizavam as barricadas como repertório popular ao longo dos últimos três séculos (TRAUGOTT, 1993), o que dizer dos elementos que dirigiam a ação coletiva praticada pelos senderistas no Peru? A primeira ação violenta praticada pelo Sendero, que iniciou quase uma década de violência sistemática entre o grupo e as autoridades peruanas, ocorreu em 1980 na pequena aldeia andina de Chuschi. Alguns militantes senderistas, declarando uma guerra contra o Estado peruano, queimaram urnas que estavam montadas para as eleições presidenciais daquele ano, “dando início a um conflito selvagem entre as guerrilhas maoístas e as forças governamentais que custou mais de 10 bilhões de dólares em danos e vinte mil vidas somente na década de 1980” (STARN, 1995, pp. 399-400).

As ações que se seguiram foram ainda mais violentas e radicais. Seu sucesso em causar temor entre os peruanos e as autoridades deveu-se principalmente à organização do partido senderista, dotado de uma complexa hierarquia e de uma estratégia guerrilheira dividida em cinco etapas, quais sejam: (i) agitação e propaganda; (ii) sabotagem contra o sistema socioeconômico; (iii) generalização da violência e desenvolvimento da guerra de guerrilha; (iv) conquista e expansão de bases de apoio; (v) cerco das cidades, levando ao colapso do Estado peruano (TAYLOR, 1988, p. 55). É possível dizer com segurança que o Sendero conseguiu passar pelas quatro primeiras etapas com relativo sucesso, sendo virtualmente desmantelado em 1992, com a prisão de Guzmán, sem ter completado a quinta fase de seu projeto de poder. As etapas bem-sucedidas serão analisadas a seguir.

A propaganda senderista começou com intensidade a partir de 1978, com convocações para a luta armada em panfetos e muros de escolas e universidades. Alguns militantes ocupavam estações de rádio e escolas para transmitir as razões de sua luta, buscando angariar apoio popular amplo. Ademais, utilizavam a imagem do mártir para conquistar simpatizantes. O funeral da dirigente guerrilheira Edith Lagos, em 1982, reuniu dez mil pessoas e foi marcado por discursos a favor da guerrilha (TAYLOR, 1988, p. 56). Em 19 de junho de 1986, as forças do governo massacraram 246 presos após uma tentativa de rebelião malsucedida conduzida pelos senderistas. Este dia tornou-se um grande feriado entre os rebeldes e ganhou o nome de “Dia da Heroicidade”. Percebe-se que a violência era instrumental para ambas as situações: matar seria garantir a vitória sobre o sistema perverso, e morrer simbolizava perenizar o apelo senderista entre a população.

Presente em intensidade ainda maior que a propaganda e a agitação, um complexo e prolongado esquema de sabotagem contra o sistema sócio-econômico foi estabelecido pelo Sendero Luminoso e tornou-se o aspecto mais notório de suas operações. Deste, algumas medidas tomadas recorrentemente ao longo daquele período são dignas de nota. Em primeiro lugar, era freqüente a destruição das linhas de transmissão e geradores de eletricidade, particularmente em Lima e seus arredores, bem como da rede telefônica e equipamentos de telecomunicação. Entre 1980 e 1982, foram atribuídas ao Sendero nada menos que 40 explosões de estruturas de energia ou comunicação (TAYLOR, 1988, p. 57). Na capital, houve também alguns atentados a escolas particulares de elite e lojas de luxo, mais significativos pelo seu simbolismo que pela violência em si. A mais persistente das tentativas de minar o sistema econômico peruano, contudo, localizava-se no campo. Nos primeiros anos de ação declarada senderista, o grupo se ocupou de destruir cooperativas rurais, queimar canaviais em cooperativas açucareiras e armazéns, seqüestrar caminhões de alimentos que abasteciam as regiões rurais e danificar fábricas e laboratórios multinacionais. É importante ressaltar o paradoxo em que tais ações se inserem, causando prejuízos incontáveis não aos empresários e “oligarcas” a quem buscavam atingir, mas sim aos pequenos cooperativos que o Sendero, no limite, pretendia recrutar (p. 57). De qualquer forma, o Sendero logrou sucesso na empreitada, considerando-se que, em meados de 1983, o comércio interprovincial de Ayacucho havia praticamente desaparecido (p. 58).

Até o Sendero iniciar a terceira fase de sua estratégia de poder, generalizando a violência e difundindo o movimento guerrilheiro stricto sensu, pouca atenção havia sido conferida ao movimento por parte das autoridades federais. Ao longo de 1980, suas ações, ainda que violentas, eram esporádicas e concentradas na região serrana. A atividade guerrilheira começou seriamente na segunda metade de 1981, conjugando assassinatos seletivos (direcionados àqueles que consideravam senhores de terra, ou gamonales) e expropriação de terra e bens. À medida que a polícia adentrava as províncias dominadas pelo Sendero para combater suas ações, a violência aumentava sensivelmente. Até setembro de 1982, mais de vinte proprietários rurais e informantes do governo foram mortos pelos senderistas, e vários outros mutilados (BERG, 1987; TAYLOR, 1988). Os métodos eram diversos, variando de seqüestros a explosões de casas e veículos, passando por invasão de propriedade privada e tortura de quem se suspeitava ser informante. Na mesma época, atentados contra a embaixada dos Estados Unidos e contra propriedades estadunidenses, como mineradoras e multinacionais, eram comuns. Ações marcadas pela violência extremada foram correntes até 1992, quando a organização foi desmantelada.

Por fim, a quarta e última etapa implementada pelo Sendero relacionou-se com a conquista e expansão das bases de apoio ao movimento. Em face do declínio considerável no apoio popular voluntário, especialmente após a difusão da violência muitas vezes arbitrária contra os próprios camponeses, restou ao Sendero varrer qualquer vestígio de autoridade estatal nos distritos e províncias ao seu alcance, de forma a conquistar sua legitimidade por outros meios (TAYLOR, 1988, p. 58). Particularmente em Ayacucho, pouco sobrou, nos idos de 1982, dos edifícios públicos, representantes governamentais e membros do partido governista. Naquele ano, o vice-prefeito da capital da província e o prefeito eleito foram assassinados, e o então prefeito, ferido a balas (p. 59).

A polícia local também não era poupada. Em meados de 1982, ataques contra policiais escalaram até tamanha intensidade que o Sendero tornou-se a única autoridade efetiva ao redor de Ayacucho, impondo suas próprias leis contra criminosos e informantes. Entre este ano e 1991, o Sendero, por meio de práticas rotineiras de violência, destruição do sistema econômico dos distritos serranos e atentados à capital peruana, conseguiu dominar praticamente todo o interior do centro-sul do país, bem como regiões estratégicas nos arredores de Lima. A perda de apoio popular e, particularmente, a captura de Guzmán representaram, contudo, o momento de declínio da atividade senderista. Ainda que ativa até os dias de hoje, pouco resta do grau de violência levado a cabo pelo Sendero Luminoso nos anos 80. Não foi possível, assim, completar a quinta e decisiva etapa da estratégia do movimento, chegar ao poder no Peru.

 

III

Ainda que o conceito de repertório tenha sido mais trabalhado por Tilly e outros autores no contexto da passagem do século XVIII para o XIX, não se pode negar seu poder analítico caso aplicado a contextos alternativos. A breve exposição realizada buscou aplicar a idéia de repertório de ação coletiva no contexto do surgimento de um fenômeno sui generis e razoavelmente duradouro na história peruana contemporânea. Foi possível demonstrar que as ações perpetradas pelo Sendero Luminoso compunham um repertório de ação coletiva, por apresentarem não somente apelo popular (imprescindível, por se tratar de análise histórica de macro-eventos, no nível de análise dos grandes grupos), como também um processo de aprendizado e difusão visível e uma utilização rotineira daquelas, no recorte temporal proposto (1980-1992).

Uma vez sustentada a hipótese de que as ações senderistas formavam um repertório particular, procedeu-se à análise dos elementos que as constituíam. Verificou-se que a estratégia política do Sendero Luminoso era bem-estruturada e seguia uma lógica de cinco etapas, quatro das quais executadas e, de certa forma, exitosas em seu propósito inicial. Em cada delas se observaram conjuntos de ação coletiva distintos, partindo da propaganda ideológica até os mais altos graus de violência contra civis e controle administrativo de cidades e regiões inteiras.

Um conceito introduzido por Tilly (1977) e não utilizado aqui foi o do hinge, “o momento (...) em que o predomínio de um estilo anterior de protesto é irreversivelmente suplantado pelo de seu sucessor” (TRAUGOTT, 1993, p. 311). Ainda que o Sendero Luminoso tenha de fato inaugurado um novo e pungente meio de protesto popular, por meio da guerrilha organizada e atos de violência, a duração do movimento não foi significativa, em termos históricos, para que se pudesse entender os anos 1980 como uma quebra de um suposto “grande repertório popular” no Peru. De qualquer forma, o estudo do Sendero Luminoso em particular, e dos movimentos de guerrilha na América Latina em geral, convida a explorações posteriores à luz da idéia de repertório –e até mesmo do conceito de hinge. Espera-se que este breve ensaio possa ter contribuído nesse sentido.


Referências bibliográficas:

AMAYO, Enrique (org.). Sendero Luminoso. São Paulo: Vértice, 1988.

BERG, Ronald H. “Sendero Luminoso and the Peasantry of the Andahuaylas”. In: Journal of Interamerican Studies and World Affairs, Vol. 28, no. 4, 1987.

FAVRE, Henri. “Caminho Luminoso e Horizonte Escuro”. In: AMAYO, Enrique (org.). Sendero Luminoso. São Paulo: Vértice, 1988.

FLORES, Alberto. “A Guerra Silenciosa”. In: AMAYO, Enrique (org.). Sendero Luminoso. São Paulo: Vértice, 1988.

GOTT, Richard. Rural Guerrillas in Latin America. Middlesex: Pelican, 1973.

HAZELTON, William A. & WOY-HAZELTON, Sandra. “Sendero Luminoso and the Future of Peruvian Democracy”. In: Third World Quarterly, April 1990.

MANWARING, Max G. “Peru’s Sendero Luminoso: the Shining Path Beckons”. In: Annals of the American Academy of Political and Social Science, Vol. 541, Sep. 1995.

MARIÁTEGUI, José Carlos. Siete Ensayos de Interpretación de la Realidad Peruana. In: Yachay – red científica peruana: http://www.yachay.com.pe/especiales/7ensayos/

MONTOYA, Rodrigo. “Esquerda Unida e Sendero Luminoso: potencialidades e limites”. In: AMAYO, Enrique (org.). Sendero Luminoso. São Paulo: Vértice, 1988.

PALMER, David Scott. “Rebellion in Rural Peru: the origins and evolution of Sendero Luminoso”. In: Comparative Politics, Jan. 1986.

STARN, Orin. “Maoism in the Andes: The Communist Party of Peru-Shining Path and the Refusal of History”. In: Journal of Latin American Studies, no. 37, 1995.

TAYLOR, Lewis. “Maoísmo nos Andes: Sendero Luminoso e o movimento guerrilheiro contemporâneo no Peru”. In: AMAYO, Enrique (org.). Sendero Luminoso. São Paulo: Vértice, 1988.

VASCONCELOS, Lúcio Flávio. História Política do Sendero Luminoso. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 1998.



[1] Taylor (1988) afirma que entre 1980 e 1986, “a organização realizou mais de três mil ações de vários tipos, a maioria de pequeno porte, mas algumas atingindo proporções muito complexas (...)” (p. 56).

[2] É possível compreender o ímpeto revolucionário dos guerrilheiros de 1962-1965 a partir da teoria do foco que adotavam, empregada na revolução cubana poucos anos antes. Tal teoria, formulada por Guevara, postulava que não seria necessário esperar por todas as condições para que a revolução ocorresse, uma vez que um foco insurrecionário poderia criá-las (GOTT, 1973, p. 448). Ela foi uma das principais razões de divergência entre os líderes da guerrilha, como Héctor Bejar e Luís de la Puente Uceda, e o comando liderado por Guzmán.

 

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