I
O movimento político Sendero Luminoso (Caminho Luminoso) é freqüentemente lembrado como
um dos grupos mais radicais e, talvez por isso,
marcantes da história latino-americana contemporânea.
Sem dúvida, constitui um dos mais profícuos objetos
de estudo que nos fornece a história peruana,
particularmente por se tratar de um fenômeno com
diversas especificidades, entre elas sua independência
com relação às esquerdas internacionais, a
ortodoxia com que adotavam o discurso ideológico
marxista-leninista e as práticas maoístas, bem como
as ações de guerrilha e o fomento a milícias
camponesas (MONTOYA, 1988, pp. 20-24).
As práticas levadas a cabo pelo Sendero Luminoso a
partir de determinado momento de sua história e
direcionadas aos outcomes
políticos constituíam-se em seu maior diferencial
com relação às demais organizações de esquerda
peruanas. O movimento se valeu, sistematicamente, de métodos
pautados pela violência contra civis, táticas de
guerrilha e estímulo a formações paramilitares
campesinas entre 1980 e 1992. A intenção deste
trabalho é jogar luz sobre tais métodos, buscando
compreendê-los como repertórios
particulares de ação coletiva de orientação
popular. Desta forma, pretende-se fornecer novas idéias
ao estudo do conceito de repertório, proposto por
Tilly (1977), sob o marco teórico das culturas políticas.
Pretende-se abordar, neste breve ensaio, duas
perguntas: em primeiro lugar, pode-se considerar o
conjunto particular de ações perpetradas pelo
Sendero Luminoso como repertório?
Em segundo lugar, sendo aquele um repertório de fato,
por quais ações ou linhas de conduta ele é
composto? Ainda que tais questionamentos convidem a
uma exploração minuciosa do modus
operandi do movimento senderista, devido ao
modesto escopo deste texto, não se pretende responder
conclusivamente a nenhum deles, mas sim utilizá-los
como guia para estudos porvindouros. A ordem das seções
seguintes obedece à lógica das duas perguntas
enunciadas acima.
O conceito de repertório de ação coletiva foi
introduzido por Charles Tilly e postula que um dado
grupo de atores sociais possui um número limitado e
específico de ações que lhes são familiares
(TRAUGOTT, 1993, p. 309) em função de suas
identidades e interesses (TILLY, 1995). Esta é a
definição básica lançada por Tilly (1977), que foi
lapidada em estudos posteriores do próprio autor,
como em Tilly (2005):
“A
palavra repertório
ajuda a descrever o que acontece ao se identificar um
conjunto limitado de rotinas que são aprendidas,
compartilhadas, e atuadas por meio de um processo de
escolha relativamente deliberado. Repertórios são
criações culturais aprendidas (...) [e] emergem do
embate. (...) As pessoas em um dado espaço e tempo
sabem como executar um número limitado de rotinas
alternativas de ação coletiva, adaptando cada uma
delas à circunstância imediata e às reações dos
antagonistas, autoridades, aliados, observadores,
objetos de sua ação e outras pessoas de alguma forma
envolvidas no embate.” (TILLY, 2005, pp. 41-42)
Estamos tratando, desta forma, de ações que são
aprendidas e reproduzidas por quem as utiliza. É
importante ressaltar que os repertórios não
representam necessariamente o conjunto de ações mais
adequado (ou eficaz) em face de uma determinada situação,
mas sim o mais factível dentre alternativas conhecidas
(TILLY, 1986 apud TRAUGOTT, 1993). A concepção
“fraca” de repertório, de que trataremos aqui,
advoga que certas formas de protesto popular são
escolhidas a partir da interação pouco estruturada
entre os contendores e as autoridades, mostrando-se
mais factíveis, atrativas e freqüentes que as demais
(TRAUGOTT, 1993, p, 309).
No caso do Sendero Luminoso, é possível asseverar
que a tática de
guerrilha foi o repertório de ação coletiva
escolhido dentre as possibilidades de embate com o
governo peruano, processo que se iniciou em 1980. Berg
(1987) afirma que, desde aquele ano, o Sendero “vem
patrocinando uma campanha de guerrilha contra o
governo civil no Peru (...), tendo expandido seu
escopo de operações, mantido os militares na
defensiva e atraído um pequeno mas significativo número
de seguidores em nível nacional” (p. 165). Como
dizer, contudo, que se trata de um repertório de
facto conforme definido por Tilly? É necessário
que alguns parâmetros, escolhidos com base na definição
proposta anteriormente, sejam atendidos.
Primeiramente, partindo da concepção fraca de repertório,
busca-se verificar se o repertório tem suas origens
na interação entre atores e resulta de um processo
de aprendizagem derivado do embate. Em segundo lugar,
é preciso confirmar se a ação é freqüente a ponto
de ser entendida como rotina.
Em terceiro, questiona-se a especificidade da ação,
de forma a verificar se ela é de fato particular ao
grupo em questão. Acreditamos que as ações em tela
atendem a tais parâmetros e podem, por conseguinte,
ser chamadas de repertório. A argumentação será
desenvolvida a seguir.
Além disso, essa análise não faria sentido se o
grupo escolhido como objeto de estudo não
representasse força coletiva relevante. Palmer (1986)
atribui o sucesso sui
generis do Sendero Luminoso entre a população
campesina à negligência do governo central peruano
com relação às demandas particulares das
empobrecidas províncias serranas, como Ayacucho,
Huancavelica e Andahuaylas. Starn (1995), por sua vez,
pondera que o movimento senderista, em seus primeiros
anos de ação concertada, entre 1980 e 1985, “foram
inquestionavelmente bem-sucedidos em conquistar
significativa simpatia dos vilarejos na zona de
guerra. Muitos camponeses estavam felizes em ver a
retirada de autoridades ineficientes e corruptas”
(p. 405). O Sendero criou, por meio de um considerável
empreendimento discursivo, a idéia de que a entrada
do exército peruano nas regiões rurais serranas
seria equivalente a uma “ocupação estrangeira”
(p. 406) – lançando a partir de uma perspectiva
centro-periferia, assim, as sementes da contenção
das autoridades peruanas (BERG, 1987; MONTOYA, 1988).
É possível observar a dinâmica de aprendizagem
envolvida na constituição das ações senderistas,
processo que durou em torno de duas décadas. As
origens do Sendero remetem ao comando de Huamanga do Ejército
de Libertación Nacional (ELN), organização
criada em 1962 com fins de treinamento e educação
revolucionária de esquerda. Em Huamanga, capital do
distrito rural de Ayacucho, os trabalhos do Ejército
eram concentrados em sua principal universidade, a Universidad
Nacional San Cristóbal de Huamanga (UNSCH), e
liderados por Guzmán, que lá lecionava filosofia.
Por volta de 1964, significativa parcela do corpo
docente e discente da universidade participava das
atividades do ELN, e muitos deles eventualmente se
transformariam em figuras-chave na hierarquia
senderista (PALMER, 1986, p. 128). Ao longo dos anos
70, significativo número de militantes senderistas e
recrutados ativos no movimento era composto por
estudantes secundaristas e universitários das favelas
e do interior de Ayacucho. “Neste período começou
a construção do aparelho do partido, que teve um
sucesso surpreendente, especialmente no ambiente
estudantil. Em todo o Peru formaram-se células e
comitês regionais, sendo que a maior concentração
de quadros (...) estava na Serra Central e em Lima”
(TAYLOR, 1988, p. 44). A idéia da criação de um
movimento guerrilheiro como foco de conquista de poder
no Peru, derivada diretamente dos escritos maoístas,
era então ensinada e difundida pelos próprios
membros do movimento de forma ativa. Em 1977, jovens
militantes já estavam conduzindo sessões educativas
entre os camponeses e recrutando combatentes nas vilas
serranas (STARN, 1995, p. 405).
Pode-se afirmar, também, que a tática de guerrilha
utilizada pelo Sendero Luminoso transformou-se em
rotina a partir de 1980, momento identificado como o turning
point do protagonismo senderista na história
peruana
(PALMER, 1986; BERG, 1987; AMAYO, 1988). A rotina veio
da crença quase fundamentalista de que a violência
representava o único meio revolucionário, a “lei
universal” sem a qual não se poderia haver a
substituição de uma classe social por outra no
comando do Estado (STARN, 1995, p. 409). O maoísmo
era, portanto, seguido à risca, numa batalha incansável
pela mudança da estrutura social e de poder no Peru.
A violência seria a chave para se chegar ao poder, e
a luta poderia durar um ano ou uma década, desde que
o objetivo final pudesse ser alcançado (MONTOYA,
1988). De fato, entre 1980 e 1992, o Sendero levou a
cabo uma guerra de guerrilha na região montanhosa do
país, cujo território controlava, e diversos
atentados de caráter terrorista em Lima e em outras
grandes cidades peruanas.
Faz-se nota, igualmente, à particularidade do
repertório senderista. Ainda que o Peru já tivesse
vivenciado um breve momento de ações guerrilheiras,
elas não foram capazes de lograr sucesso,
confinando-se aos anos de 1963 e 1964. Ainda que
conscientes da falta de preparação que acometia
grande parte daqueles dispostos a realizar uma “luta
revolucionária”, em sua maioria concentrados em
dois grandes grupos – o Movimiento de Izquierda Revolucionária (MIR) e o próprio Ejército
–, os guerrilheiros lançaram-se contra o recém-empossado
governo de Fernando Belaúnde Terry.
Em pouco menos de seis meses, as guerrilhas estavam
derrotadas. Taylor (1988) aponta que as causas desse
fracasso “foram, entre outras, a escassa preparação,
a falta de organização, a origem costeña
de muitos membros (...) e uma interpretação errônea
da situação política nacional” (p. 37). É
importante compreender o fracasso das guerrilhas
naqueles anos em função de duas conseqüências por
ele trazidas: incentivou, por um lado, a radical
reforma agrária implementada pelos militares entre
1969 e 1976 (TAYLOR, 1988, p. 38) e provocou a cisão
do grupo de Huamanga, que passou a se identificar com
uma estratégia rural de longo-prazo baseada na experiência
revolucionária chinesa e na necessidade de uma teoria
marxista contextualizada ao Peru, encontrada nos
escritos de Mariátegui (PALMER, 1986, p. 128).
Desta forma, parece claro que as práticas
empreendidas pelo Sendero Luminoso agregam elementos
que a permitem caracterizar como repertório
de ação coletiva. Trata-se de um conjunto
limitado e particular de rotinas pertinentes a um
grupo popular significativo e absorvidas pelo
aprendizado. Resta-nos jogar luz, na próxima seção,
em como esse
repertório foi estruturado, e quais práticas o
caracterizaram.
II
Se os franceses utilizavam as barricadas como repertório
popular ao longo dos últimos três séculos
(TRAUGOTT, 1993), o que dizer dos elementos que
dirigiam a ação coletiva praticada pelos senderistas
no Peru? A primeira ação violenta praticada pelo
Sendero, que iniciou quase uma década de violência
sistemática entre o grupo e as autoridades peruanas,
ocorreu em 1980 na pequena aldeia andina de Chuschi.
Alguns militantes senderistas, declarando uma guerra
contra o Estado peruano, queimaram urnas que estavam
montadas para as eleições presidenciais daquele ano,
“dando início a um conflito selvagem entre as
guerrilhas maoístas e as forças governamentais que
custou mais de 10 bilhões de dólares em danos e
vinte mil vidas somente na década de 1980” (STARN,
1995, pp. 399-400).
As ações que se seguiram foram ainda mais
violentas e radicais. Seu sucesso em causar temor
entre os peruanos e as autoridades deveu-se
principalmente à organização do partido senderista,
dotado de uma complexa hierarquia e de uma estratégia
guerrilheira dividida em cinco etapas, quais sejam:
(i) agitação e propaganda; (ii) sabotagem contra o
sistema socioeconômico; (iii) generalização da violência
e desenvolvimento da guerra de guerrilha; (iv)
conquista e expansão de bases de apoio; (v) cerco das
cidades, levando ao colapso do Estado peruano (TAYLOR,
1988, p. 55). É possível dizer com segurança que o
Sendero conseguiu passar pelas quatro primeiras etapas
com relativo sucesso, sendo virtualmente desmantelado
em 1992, com a prisão de Guzmán, sem ter completado
a quinta fase de seu projeto de poder. As etapas
bem-sucedidas serão analisadas a seguir.
A propaganda senderista começou com intensidade a
partir de 1978, com convocações para a luta armada
em panfetos e muros de escolas e universidades. Alguns
militantes ocupavam estações de rádio e escolas
para transmitir as razões de sua luta, buscando
angariar apoio popular amplo. Ademais, utilizavam a
imagem do mártir para conquistar simpatizantes. O
funeral da dirigente guerrilheira Edith Lagos, em
1982, reuniu dez mil pessoas e foi marcado por
discursos a favor da guerrilha (TAYLOR, 1988, p. 56).
Em 19 de junho de 1986, as forças do governo
massacraram 246 presos após uma tentativa de rebelião
malsucedida conduzida pelos senderistas. Este dia
tornou-se um grande feriado entre os rebeldes e ganhou
o nome de “Dia da Heroicidade”. Percebe-se que a
violência era instrumental para ambas as situações:
matar seria garantir a vitória sobre o sistema
perverso, e morrer simbolizava perenizar o apelo
senderista entre a população.
Presente em intensidade ainda maior que a propaganda
e a agitação, um complexo e prolongado esquema de
sabotagem contra o sistema sócio-econômico foi
estabelecido pelo Sendero Luminoso e tornou-se o
aspecto mais notório de suas operações. Deste,
algumas medidas tomadas recorrentemente ao longo
daquele período são dignas de nota. Em primeiro
lugar, era freqüente a destruição das linhas de
transmissão e geradores de eletricidade,
particularmente em Lima e seus arredores, bem como da
rede telefônica e equipamentos de telecomunicação.
Entre 1980 e 1982, foram atribuídas ao Sendero nada
menos que 40 explosões de estruturas de energia ou
comunicação (TAYLOR, 1988, p. 57). Na capital, houve
também alguns atentados a escolas particulares de
elite e lojas de luxo, mais significativos pelo seu
simbolismo que pela violência em si. A mais
persistente das tentativas de minar o sistema econômico
peruano, contudo, localizava-se no campo. Nos
primeiros anos de ação declarada senderista, o grupo
se ocupou de destruir cooperativas rurais, queimar
canaviais em cooperativas açucareiras e armazéns,
seqüestrar caminhões de alimentos que abasteciam as
regiões rurais e danificar fábricas e laboratórios
multinacionais. É importante ressaltar o paradoxo em
que tais ações se inserem, causando prejuízos
incontáveis não aos empresários e “oligarcas” a
quem buscavam atingir, mas sim aos pequenos
cooperativos que o Sendero, no limite, pretendia
recrutar (p. 57). De qualquer forma, o Sendero logrou
sucesso na empreitada, considerando-se que, em meados
de 1983, o comércio interprovincial de Ayacucho havia
praticamente desaparecido (p. 58).
Até o Sendero iniciar a terceira fase de sua estratégia
de poder, generalizando a violência e difundindo o
movimento guerrilheiro stricto
sensu, pouca atenção havia sido conferida ao
movimento por parte das autoridades federais. Ao longo
de 1980, suas ações, ainda que violentas, eram esporádicas
e concentradas na região serrana. A atividade
guerrilheira começou seriamente na segunda metade de
1981, conjugando assassinatos seletivos (direcionados
àqueles que consideravam senhores de terra, ou gamonales)
e expropriação de terra e bens. À medida que a polícia
adentrava as províncias dominadas pelo Sendero para
combater suas ações, a violência aumentava
sensivelmente. Até setembro de 1982, mais de vinte
proprietários rurais e informantes do governo foram
mortos pelos senderistas, e vários outros mutilados
(BERG, 1987; TAYLOR, 1988). Os métodos eram diversos,
variando de seqüestros a explosões de casas e veículos,
passando por invasão de propriedade privada e tortura
de quem se suspeitava ser informante. Na mesma época,
atentados contra a embaixada dos Estados Unidos e
contra propriedades estadunidenses, como mineradoras e
multinacionais, eram comuns. Ações marcadas pela
violência extremada foram correntes até 1992, quando
a organização foi desmantelada.
Por fim, a quarta e última etapa implementada pelo
Sendero relacionou-se com a conquista e expansão das
bases de apoio ao movimento. Em face do declínio
considerável no apoio popular voluntário,
especialmente após a difusão da violência muitas
vezes arbitrária contra os próprios camponeses,
restou ao Sendero varrer qualquer vestígio de
autoridade estatal nos distritos e províncias ao seu
alcance, de forma a conquistar sua legitimidade por
outros meios (TAYLOR, 1988, p. 58). Particularmente em
Ayacucho, pouco sobrou, nos idos de 1982, dos edifícios
públicos, representantes governamentais e membros do
partido governista. Naquele ano, o vice-prefeito da
capital da província e o prefeito eleito foram
assassinados, e o então prefeito, ferido a balas (p.
59).
A polícia local também não era poupada. Em meados
de 1982, ataques contra policiais escalaram até
tamanha intensidade que o Sendero tornou-se a única
autoridade efetiva ao redor de Ayacucho, impondo suas
próprias leis contra criminosos e informantes. Entre
este ano e 1991, o Sendero, por meio de práticas
rotineiras de violência, destruição do sistema econômico
dos distritos serranos e atentados à capital peruana,
conseguiu dominar praticamente todo o interior do
centro-sul do país, bem como regiões estratégicas
nos arredores de Lima. A perda de apoio popular e,
particularmente, a captura de Guzmán representaram,
contudo, o momento de declínio da atividade
senderista. Ainda que ativa até os dias de hoje,
pouco resta do grau de violência levado a cabo pelo
Sendero Luminoso nos anos 80. Não foi possível,
assim, completar a quinta e decisiva etapa da estratégia
do movimento, chegar ao poder no Peru.
III
Ainda que o conceito de repertório tenha sido mais
trabalhado por Tilly e outros autores no contexto da
passagem do século XVIII para o XIX, não se pode
negar seu poder analítico caso aplicado a contextos
alternativos. A breve exposição realizada buscou
aplicar a idéia de repertório de ação coletiva no
contexto do surgimento de um fenômeno sui generis e razoavelmente duradouro na história peruana contemporânea.
Foi possível demonstrar que as ações perpetradas
pelo Sendero Luminoso compunham um repertório de ação
coletiva, por apresentarem não somente apelo popular
(imprescindível, por se tratar de análise histórica
de macro-eventos, no nível de análise dos grandes
grupos), como também um processo de aprendizado e
difusão visível e uma utilização rotineira
daquelas, no recorte temporal proposto (1980-1992).
Uma vez sustentada a hipótese de que as ações
senderistas formavam um repertório particular,
procedeu-se à análise dos elementos
que as constituíam. Verificou-se que a estratégia
política do Sendero Luminoso era bem-estruturada e
seguia uma lógica de cinco etapas, quatro das quais
executadas e, de certa forma, exitosas em seu propósito
inicial. Em cada delas se observaram conjuntos de ação
coletiva distintos, partindo da propaganda ideológica
até os mais altos graus de violência contra civis e
controle administrativo de cidades e regiões
inteiras.
Um conceito introduzido por Tilly (1977) e não
utilizado aqui foi o do hinge,
“o momento (...) em que o predomínio de um estilo
anterior de protesto é irreversivelmente suplantado
pelo de seu sucessor” (TRAUGOTT, 1993, p. 311).
Ainda que o Sendero Luminoso tenha de fato inaugurado
um novo e pungente meio de protesto popular, por meio
da guerrilha organizada e atos de violência, a duração
do movimento não foi significativa, em termos históricos,
para que se pudesse entender os anos 1980 como uma
quebra de um suposto “grande repertório popular”
no Peru. De qualquer forma, o estudo do Sendero
Luminoso em particular, e dos movimentos de guerrilha
na América Latina em geral, convida a explorações
posteriores à luz da idéia de repertório –e até
mesmo do conceito de hinge.
Espera-se que este breve ensaio possa ter contribuído
nesse sentido.
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