JENS
BARTELSON
Professor de Relações
Internacionais da Universidade de Copenhague,
Dinamarca; e autor de A Genealogy of
Sovereignty e A Critique of the State,
ambos publicados pela Cambridge University
Press.
OD:
A maior parte dos seus escritos apresenta uma
abordagem foucaultiana. O sr. se considera um
pensador pós-moderno?
JB:
Esta é uma questão perigosa. Nos anos 1980,
nós – os chamados pós-modernos (pós-estruturalistas,
pós-positivistas) – lutávamos por
reconhecimento dentro das Ciências Sociais.
Com o passar dos anos, no entanto, esse rótulo
foi se esvaziando, uma vez que, ironicamente,
ele passou a identificar um grupo de
pensadores com, supostamente, características
comuns. Então, em certo sentido, eu sou um pós-moderno
– no sentido de partir de alguns
ensinamentos de Nietzsche, Foucault, Derrida e
outros. Mas não um pós-moderno como alguém
que pertence a uma classe ou conjunto, a uma
escola de pensamento das Ciências Sociais.
OD:
Em um artigo intitulado “Making
Exceptions”, de 1997,
o sr. afirma que um dos problemas da noção
de soberania popular é que ela nunca pôde,
de fato, substituir a “soberania do príncipe”.
Tratava-se, afinal, de dois construtos
diferentes, histórica e semanticamente. À
luz dessa constatação, o sr. acredita ser
cabível a proposta contemporânea de
“diplomacia pública”, isto é, de um tipo
de política externa democraticamente
orientada?
JB:
Sim, é possível pensar nisso. É possível
pensar na democratização da política
externa. É possível pensar na extensão de
responsabilidades do “demos”. Mas apenas
se formos capazes de alargar as fronteiras da
comunidade política. [De] rearticular as
fronteiras entre a diplomacia e a autoridade
política. [De] incluir os temas da política
externa no rol de questões relevantes para o
público. Essa rearticulação de fronteiras
é possível, é viável.
OD:
A emergência da noção de “globalidade”
representa um novo desafio teórico ou é só
uma reedição conceitual?
JB:
É uma nova fase, mais estratificada, mais
diferenciada do sistema internacional. Pode-se
pensar em um sistema ou em uma sociedade
internacional desde há muito. E a constelação
dos atores internacionais passou, no decurso
do tempo, por transformações significativas.
Esta nova fase “global” das relações
internacionais não conseguiu, no entanto,
eliminar os traços distintivos entre os
atores, entre os povos.
OD:
O empreendimento colonial europeu é freqüentemente
abordado pelos autores a partir de uma
perspectiva do colonizador – até mesmo as
abordagens ditas pós-coloniais. Não há um
equívoco aí?
JB:
Em primeiro lugar, é preciso fazer uma
“diferenciação” do “outro”. O
“outro”, em relação ao europeu
colonizador, costuma ser concebido como um
todo indiferenciado. É incorreto pensar
assim. É desconsiderar a incrível
diversidade entre os colonizados. Há que se
especificar as distintas contribuições
prestadas pelos colonizados. E conceber a relação
entre colonizador e colonizado como uma dinâmica
de diferenciação. Um se diferencia em relação
ao outro. Os sentidos se definem, de fato, é
na relação de diferenciação. Logo, é
importante pensar não só em como os
colonizadores moldaram os colonizados, mas,
também, no contrário: em como os
colonizadores são formados durante os
contatos reiterados com os colonizados.
OD:
Há uma década, Stephen Krasner, Peter
Katzenstein e Robert Keohane publicaram
influente artigo na revista International
Organization sobre o estado da arte da
disciplina de Relações Internacionais.
De lá para cá, o que aconteceu? Há algum
novo debate em cena?
JB:
Após uma resistência inicial, manifesta pela
disputa entre racionalistas e reflexivistas,
atingiu-se uma espécie de consenso sobre a
importância das novas abordagens. E,
ironicamente, a disciplina foi a maior vítima
desse consenso. A partir dos anos 1990, o
campo passa a estar marcado pelas reivindicações
de identidades. Cada autor ou grupo de autores
está mais preocupado em defender a sua
identidade teórica – realista, liberal,
construtivista, etc. – do que em dialogar
com outros autores. Isso leva à pulverização
e à dificuldade de se estabelecer um grande
debate. Por outro lado, há inúmeros pequenos
debates entre as várias identidades teóricas,
acerca de questões pontuais.
OD:
O Estado territorial é o arquétipo da política
moderna? Existe vivência política fora desse
Estado?
JB:
Pois eu quero inverter a sua perspectiva.
Imagine, como eu tento sustentar no meu livro
“A Genealogy of Sovereignty”, que, antes
da consolidação do chamado Estado moderno, já
havia política. O Estado moderno nasce em um
tempo e um lugar. É um processo histórico.
Durante a Idade Média, não havia Estado
moderno. As autoridades políticas se
sobrepunham, se cruzavam. Logo, é possível,
sim, pensar em novas formas de manifestação
da legitimidade, da autoridade política. A
comunidade política não está vinculada ou
condenada ao Estado moderno.
OD:
Como o sr. percebe a presença do Brasil no
mundo de hoje?
JB:
Não conheço o suficiente do Brasil para
fazer afirmações categóricas. Mas, do pouco
que conheço, fica-me a impressão de que os
brasileiros são severos em relação ao
julgamento que fazem do seu país. Vejo
tratarem-no como um país periférico. Ora: o
Brasil tem a nona maior economia do mundo! Não
é exatamente um país periférico. E, no que
diz respeito às desigualdades internas, eu
entendo que é preferível ter um problema
desse tipo, um problema de distribuição de
riquezas, a ter um problema de xenofobia, por
exemplo. A má distribuição de recursos pode
muito mais facilmente ser corrigida do que a
xenofobia, que é uma questão mais profunda,
difícil de combater.
OD:
O sr. mencionou ter familiaridade com a obra
de Gilberto Freyre. Em que medida a idéia
freyriana de “hibridismo” pode ser útil
em outros contextos nacionais?
JB:
Não gosto de propor fórmulas, de transportar
conceitos de um contexto para outro. O Brasil
já nasceu multicultural. Outros países têm
se tornado multiculturais, com o passar do
tempo. O interessante é que, em face dessa
tendência à multiculturalidade, a escolha
que resta para os países, hoje, é entre o
hibridismo ou a pobreza. Se um país quiser
manter-se “puro”, não-híbrido, ele será
extremamente pobre. O hibridismo é muito
importante para o bom funcionamento das
economias nacionais contemporâneas. Nesse
sentido, há um belo potencial para o Brasil,
no futuro.