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ANATOMIA DE UM GOL

 

Lucas Grassi Freire 

 

 

O gol em questão não é só um gol. É um golaço. Marcado por Giorgio Chinaglia, artilheiro de todos os tempos da extinta Liga Norte-Americana de Futebol (NASL).[1] Sim, “Giorgio” marcou muito mais que Pelé, Cruyff, e demais estrelas da NASL.

O gol em questão não é só um gol. Observar diversos quadros estáticos sucessivos no vídeo desse gol possibilita a apreciação de cada fração de segundo que antecedeu a emigração da bola pela linha de fundo dentro da área delimitada pelo arco retangular. É gol que não permite descrição à altura de sua beleza.

O gol em questão não é só um gol. É, para os apreciadores do bom futebol latino, análogo às obras renascentistas. Ambos provenientes de mestres italianos que, conhecidos ou não, entraram no rol dos artistas pelo que apresentaram à história.

 

***

 

Gol algum é somente um gol. Aliás, não me ocorre exemplo de uma coisa que é só ela. Longe de ser “coisas em si”, parte significativa dos objetos que se nos apresentam encerram um sem-número de possibilidades descritivas, todas elas teoricamente orientadas. São diversas leis entrelaçadas, cada uma remetendo-nos a um determinado aspecto.

Dooyeweerd, um grande filósofo holandês – certamente ao menos maior que o próprio Espinoza – dedicou boa parte de sua obra à identificação desses múltiplos aspectos que compõem as coisas, o que resultou em uma lista que não necessariamente esgota todas as possibilidades.

Com base nisso, e mesmo para ilustrar esse argumento amplamente mais relevante que um gol específico, sugiro o esboço de exemplos de manifestações desses diversos aspectos como uma breve reflexão acerca da anatomia de um gol. Faz-se, presume-se, mais importante aos interessados em política internacional identificar as possíveis relações entre o feito futebolístico e fluxos internacionais dos mais diversos tipos.

 

***

 

Pouca dúvida há acerca da ocorrência do gol de Chinaglia em termos aritméticos, espaciais e cinemáticos. Exemplificar corretamente, contudo, nunca é demais. Sendo aquele um gol válido, acrescenta-se um tento ao placar do time em comemoração pelo feito. Eis aí a aritmética do gol. E, óbvio, de um gol que ocorreu no espaço de um campo específico, em um estádio específico. Eis aí o aspecto espacial. Claro, o lugar por onde a bola entrou no gol compõe sua beleza, mas boa parte dela é uma espécie de função de toda a movimentação dos jogadores e da bola, ou seja, do aspecto cinemático.

Há, também, um par de aspectos que requer um olhar menos interessado no esporte e mais interessado em seus diversos componentes materiais. O aspecto físico pode ser encontrado, por exemplo, como preocupação de maior relevância na indústria de bolas ou de uniformes, ao cuidarem da composição de materiais adequada à prática do futebol. O aspecto biótico, por sua vez, nos remete a todo o funcionamento dos organismos envolvidos. Muito provavelmente é notado de forma mais clara por um fisioterapeuta ou médico de alguma equipe diretamente envolvido com o esporte.

Tanto os jogadores como os membros da comissão técnica se preocupam mais correntemente com o aspecto analítico de um gol que a maioria dos demais participantes de uma partida de futebol. O gol resulta de alguma jogada previamente estabelecida e praticada? Ou reflete o caráter mais espontâneo de uma resolução de problemas de última hora, emergindo do momento? E, nesse caso, ainda assim pode-se-lhe atribuir um componente analítico: decerto que, independentemente do resultado esperado, Chinaglia fez seu voleio pensando nessa ação como uma forma de marcar a favor de seu time. Para a equipe que sofre o gol o mesmo aspecto se mostra, se bem que por diferentes razões: “por que sofremos este gol?” – pode ser a pergunta do treinador na próxima preleção, ao rebobinar a gravação. Ou no próprio campo, os jogadores podem se fazer a mesma pergunta atribuindo a culpa à má organização de sua defesa.

Com o avanço da enumeração e ilustração dos diversos aspectos modais, avança também sua relação com os fluxos internacionais realçada nas ilustrações. O aspecto sensitivo pode dizer respeito à reação emocional dos torcedores a esse gol. De um lado da torcida, uma forma generalizada de júbilo. De outro, uma preocupação com a ameaça de derrota. Trata-se, especificamente, de uma torcida no contexto do campeonato norte-americano de futebol, esporte considerado pouco empolgante nos Estados Unidos e no Canadá. Mas talvez o próprio treinamento de torcedor adquirido em outros jogos possibilitem essa reação diferenciada por parte do público. Futebol não é só futebol. Trata-se de algo maior. Cada jogo é uma festa. É uma festa ambientada sob o ritmo e a coreografia dos líderes de torcida. Definitivamente, o conteúdo da paixão norte-americana pelo futebol não se iguala de forma alguma ao conteúdo da paixão sul-americana ou de qualquer outro lugar. Trata-se de uma ilustração para o aspecto linguístico ou simbólico do gol.

Aliás, pode-se atribuir pelo menos parte da anatomia desse gol ao componente histórico. Chinaglia passou desapercebido pela imprensa em geral à medida que os anos se passaram desde que deixou, no auge da carreira, o futebol europeu para atuar na liga norte-americana. Acreditava na projeção do futebol para os Estados Unidos e o Canadá. Vislumbrava jogadores de altíssimo nível (ou alguém discordaria dessa categorização para Pelé, Beckenbauer e Cruyff?) ganhando um bom salário. Estádios cheios. Pois o projeto não funcionou. Uma das manifestações do aspecto econômico de uma coisa diz respeito a sua administração, e a NASL passou por graves problemas de orçamento, ilustrando uma manifestação desse aspecto. Mas foi pelo menos uma primeira tentativa de consolidação do futebol ali. O que sobrou da NASL se dispersou ao longo dos anos, mas certamente os Estados Unidos não montaram sua seleção para a Copa do Mundo de 1994 do nada. Muitos dos jogadores que participaram daquele evento saíram das precárias ligas norte-americanas herdeiras da NASL. Depois, com a criação da Major League Soccer (MLS), o esporte finalmente encontrou guarida naquele país.

Todo esse movimento histórico foi auxiliado por uma outra forma de fluxo internacional distinta do fluxo puro de futebol ao longo das fronteiras e barreiras diversas. Trata-se da composição étnica diversificada do público do futebol norte-americano, que hoje é formado por uma parcela de imigrantes maior que na época da NASL. Nem por isso a NASL deixou de contar com times inteiros de imigrantes que uniram seu gosto pelo futebol ao pioneirismo e à oportunidade. Com efeito, esse aspecto social me requer manobra intelectual um pouco maior que aquela exercida na identificação de outros aspectos no gol de Chinaglia. Mas nem por isso deixa de se manifestar. Muitos dos torcedores e dos jogadores – quem sabe o próprio Chinaglia – atribuíram o fato de sucesso a algo além de sua própria destreza ludopédica. Talvez, à sorte. Talvez, a algum santo. Ainda que tenham se responsabilizado pelo gol, e a nada nem a ninguém mais, há crenças por parte dos personagens do gol sobre a responsabilidade pelo ocorrido. Nesse contexto, ilustração melhor do modo pístico não há do que aquela imagem de um jogador comemorando seu gol apontando o indicador para o céu.

E o aspecto estético, ah o aspecto estético! Que lindo gol aquele. Já me ocorreu o pensamento de que só uma mente ofuscada pelo amor incondicional ao time ofendido pode discordar dessa minha opinião. Talvez seja exagero. Há tantos outros gols bonitos. Eles, todavia, não tomam o brilho bastante único do gol de Chinaglia. Poucas palavras bastam para enfatizar este aspecto. Os que escrevem de chuteiras são decerto melhores do que eu para a tarefa.

Entretanto, ainda restam dois importantíssimos aspectos. Boa parte do que é um gol se define de forma jurídica, pelas leis do jogo. Tal como o grande teórico de Relações Internacionais, C. A. W. Manning, indica ao estabelecer didaticamente o conceito de sociedade internacional, uma sociedade se configura em volta, também, de idéias a respeito dos papéis que cabem a seus membros e de suas diversas regras (incluindo aquela que define quem pode ser aceito nessa sociedade) de forma análoga aos onze jogadores em um campo. O time é algo mais abstrato, não se vê um time andando na rua. O time se define por causa das regras do jogo a ser jogado. Se futebol, regras de futebol para definir um time de futebol. Dessas mesmas regras vem um gol. A esfera modal da ética fecha a lista e se mostra de forma simples em um gol: os jogadores estão de fato seguindo as regras do jogo? Porque contrariá-las seria bem conveniente. Sem regras não há gol, uma vez que são elas que o definem. Por mais discussões que possam surgir com o árbitro da partida em questão, cedo ou tarde, após o inexorável registro do tento, o jogo deve continuar.

E bem-aventurados somos, pois ele continua.



[1] http://www.youtube.com/watch?v=AvRB8MeLoiY

 

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